Apropriações da cidade

Veracidade. Uma exposição de fotografias sobre cidade e meio ambiente no Brasil.

Foto: Ivaldo Cavalcante Alves

Foto: Ivaldo Cavalcante AlvesUm menino que tenta se equilibrar conduzindo restos de tábuas sobre uma lagoa coberta de lixo, como se estivesse numa jan-gada; uma catadora de lixo, grotesca e desanimada, que quase não se destaca do colorido do lixo a sua volta; um solitário vendedor ambulante em meio ao deserto noturno do concreto urbano; uma árvore que estende seus braços atrofiados que-rendo alcançar os prédios... Mas também: crianças brincando alegremente numa fonte em meio à arquitetura artificial e de-sumana de uma cidade moderna; copas de árvores que lembram uma onda verde avançando entre prédios de concreto cinza a caminho do mar; pequenos canteiros de hortaliças sob uma floresta metálica de gigantescas torres de alta tensão; floridos vasos de plantas enfeitando os barracos espremidos de uma favela; uma árvore cujas raízes parecem devorar lentamente uma casa abandonada. Na exposição Veracidade, que desde 2003 vem sendo apresentada em várias cidades brasileiras e agora está instalada como exposição permanente no Ministério do Meio Ambiente em Brasília, vêem-se reproduzidos os di-versos aspectos do confronto entre cidade e natureza, tratados com grande riqueza de detalhes, de forma incisiva e estetica-mente requintada.

Foto: Gildo Joaquim de LimaA exposição é resultado de um concurso de fotografias promovido pelo Projeto Gestão Ambiental Urbana da Cooperação Técnica Alemã - GTZ em parceria com o Ministério do Meio Ambiente do Brasil. Cerca de 400 fotógrafos profissionais e amadores de todas as regiões do país inscreveram mais de 1.300 trabalhos, dentre os quais os vencedores foram selecionados por um júri composto de jornalistas, fotógrafos e urbanistas. A exposição é composta por 33 trabalhos participantes do con-curso e é acompanhada por um catálogo ilustrado.

O título, com seu duplo sentido - "verdade" e "ver-a-cidade" -, é programático: indica que a "verdade" pode variar con-forme a perspectiva. As fotos reproduzem não apenas os grandes problemas ambientais com que se vêem confrontadas as ci-dades brasileiras, mas também mostram o quanto o ser humano é capaz de se impor em um ambiente hostil, como vão se formando nichos em que o antagonismo entre cidade e natureza parece estar suspenso, ou, ainda, como é possível quebrar, de maneira lúdica, a rigidez e a frieza da arquitetura. A perspectiva do olhar é bastante diversa, estendendo-se desde a crítica radical até um envolvimento afetuoso com o objeto; algumas fotos chegam a apontar para possíveis soluções de problemas ambientais aparentemente sem saída.

Mas a exposição envolve ainda um outro aspecto: trata-se também da discussão do conceito de meio ambiente, que, no Brasil, é entendido de forma mais restrita do que na Alemanha. Apesar de mais de 80% da população brasileira viver em ci-dades, o termo "meio ambiente" é associado principalmente à natureza virgem, com suas florestas tropicais, parques nacio-nais e praias desertas. O homem é visto basicamente como um visitante e não como parte integrante deste ambiente intoca-do. Este conceito exclui a vida urbana e, assim, também deixa de levar em consideração os problemas enfrentados pela po-pulação urbana: poluição do ar e da água, excesso de concreto, engarrafamentos permanentes nas ruas etc. Ao entender-se a proteção do meio ambiente apenas como defesa da natureza, cidade e meio ambiente assumem uma posição antagônica praticamente insuperável dentro do debate ambiental no Brasil. "Para nós, tratava-se de usar a exposição para expandir o conceito de meio ambiente existente no Brasil", explica o coordenador do projeto da GTZ e idealizador da exposição, Detlev Ullrich. E o organizador da exposição e consultor da GTZ Andreas Nieters complementa: "Nossa intenção é que as pessoas se percebam como parte do ambiente criado por elas próprias. Neste sentido, as fotos devem servir como incentivo ao debate". Os recortes da realidade urbana cotidiana, captados pelo recurso visual da fotografia, são utilizados como veículo de comuni-cação ambiental.

A partir desta exposição de fotografias, o projeto da GTZ desenvolveu a iniciativa de educação ambiental intitulada "Ve-racidade - jovens encontram a cidade", que tem por objetivo sensibilizar os jovens para a temática do meio ambiente urbano e incentivar a reflexão e a discussão em torno deste tema. A metodologia desenvolvida faz da interpretação das fotos o seu ponto de partida e oferece uma base para o treinamento de multiplicadores em educação ambiental, para workshops e para uma plataforma da internet. O material didático foi distribuído sob a forma de um CD para cem centros de educação am-biental e ONGs de todo o Brasil.

O elevado número de visitantes (cerca de 70 mil) e uma grande cobertura na mídia (45 menções na imprensa e televisão) atestam o amplo alcance obtido pela exposição, o que confirma o absoluto êxito da iniciativa e de seu objetivo de usar a fo-tografia como recurso da comunicação ambiental e a interpretação de fotos como meio para a educação ambiental.

Sonja Zöller, Rio de Janeiro

Copyright: Goethe-Institut, Humboldt

Tradução do alemão: Jutta Gruetzmacher