A educação – entre o coração e a razão

Quanto espírito é necessário na educação?

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A educação não deve ser entendida como um meio para chegar a um fim, isto é, encontrar um bom emprego. Questões esquecidas nos debates atuais sobre o tema.

O Brasil está, atualmente, entre as economias que avançam e se desenvolvem com mais rapidez. O país nos últimos anos também investiu muito em educação, e em 2011 inclusive aderiu à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). A confluência entre economia e educação, que é defendida pela OCDE, no entanto, não raramente omite questionamentos decisivos atinentes à educação. No presente artigo, o acadêmico brasileiro especializado em filosofia da educação e reitor fundador da Alanus University of Arts and Social Sciences, na Alemanha, contempla algumas dessas questões “esquecidas”.

“Nós precisamos compreender por que uma grande porcentagem daqueles que fecharam os olhos ao assassinato de seis milhões de judeus tinha títulos de doutor de algumas das ‘grandes’ universidades da época.”

Esta constatação toca o centro do assunto! Ela confronta o leitor com uma das questões mais graves da história da educação do último século. Como foi possível que na Alemanha, o país da educação e da cultura, houvesse tantos apoiadores “cultos” desse fracasso educacional e cultural sem precedentes? Por que a educação não foi capaz de evitá-lo de um modo efetivo? Muito já se pensou e se refletiu a respeito; no ano de 2010, o sociólogo norte-americano Parker Palmer e o professor de Física Arthur Zajonc fizeram esta pergunta mais uma vez com a publicação de The Heart of Higher Education: A Call to Renewal. A pergunta desta vez não é dirigida apenas aos alemães, mas antes inclusive ao público norte-americano e por extensão a todos os contemporâneos que pensam e que se ocupam da questão do ensino acadêmico e de seu futuro. Ela não se propõe a rediscutir a história, mas sim a indagar pelo futuro.

A ideologia materialista da educação 

Em meio às promessas da Declaração de Bolonha e dos processos de padronização do ensino, Palmer levanta uma questão incômoda e que muitas vezes é deixada de lado. Por mais que ela eventualmente cause vergonha, não deixa de ser produtiva em meio à confusão das sugestões e soluções que pretendem resolver os problemas da educação vividos no presente mas que apenas contemplam o progresso econômico e a preparação para a carreira profissional. O fato de alguém estudar para ser melhor do que os outros e assim ter melhores chances no mercado de trabalho se transformou em credo epistemológico no mundo inteiro, que é repassado quase como um refrão em comunicados sempre renovados da OCDE, para então fazer com que sejam repetidos de modo já praticamente mecânico pelos policy makers nacionais. O fato de a educação representar uma vantagem competitiva na luta universal pela sobrevivência vale, segundo esse ponto de vista, tanto para os indivíduos quanto para as nações. Seguindo-se as orientações da OCDE, a educação foi instrumentalizada não apenas no passado, mas também o é hoje em dia. Hoje não são mais as ideologias políticas do nacional-socialismo e do comunismo as responsáveis pela instrumentalização, mas sim a adequação pragmática e aparentemente inofensiva do homem às necessidades supostas ou efetivas da economia. O grande objetivo é o bem-estar econômico e a felicidade do homem. O que contudo passa despercebido nesse contexto é que sempre se pressupõe a forma atualmente dominante da economia como sendo a economia em si e sem alternativas. Essa se caracteriza como corrida ao enriquecimento global, disputada pelos indivíduos e pelas nações, que no princípio do século XXI levou o mundo a uma espiral de endividamento que gera compromissos financeiros impagáveis, e adiando o colapso financeiro somente através da ficção de um crescimento econômico constante e sem limites. Essa evolução é acompanhada, além disso, pelo estado de emergência ecológica sem precedentes resultante da predação sistemática da natureza. No que diz respeito à orgia global de endividamento e de desgaste dos países industrializados, governos de esquerda e conservadores aliás se estendem as mãos. Todos prometem bem-estar material imediato e nisso agem de acordo com o mesmo princípio: enjoy now and let others pay later!

O ideal espiritual de educação 

Face a essa grassante miopia na educação, a pergunta deixada de lado, que Palmer e Zajong indiciam na obra, é aquela que dá conta do sentido da educação e de sua dimensão espiritual. Será que para viver bem e levar uma vida que tenha sentido basta treinar o homem apenas para a economia? Será que as coisas podem continuar assim, ou não é muito mais importante refletir acerca de como a educação deve ser no futuro, a fim de que o homem contemporâneo possa lidar com as questões fundamentais de sua existência e do desenvolvimento social, mudando sua vida coerentemente sem que um sentido ainda lhe seja indicado de algum outro lugar? Conceitos educacionais via de regra são introduzidos hoje em dia por debates estruturais como o da Declaração de Bolonha de modo pragmático e aparentemente desprovido de qualquer ideologia. Por trás disso, no entanto, por certo se esconde uma ideologia bem materialista, segundo a qual o sentido da vida consiste meramente na sobrevivência material: a educação aparentemente cumpriu sua tarefa quando contribui à manutenção material da vida. Uma tal ideologia educacional evita as questões importantes e na verdade contribui tacitamente, ainda que prometa a felicidade, para uma desgraça ainda maior.

A educação acadêmica, porém, pode e deve fazer o contrário. Por mais que seja justo levar devidamente em consideração a divulgação pragmática de conhecimento e de habilidades, e além disso desfazer, por meio de reformas estruturais, barreiras nacionais e internacionais que obstruem o reconhecimento de competências e de diplomas, também não se pode esquecer que na educação, e hoje em dia mais do que nunca, se trata de investigar e compreender o ser humano. Para isso são necessários bem mais do que programas de estudo padronizados e convertidos em módulos e créditos. O debate contemporâneo acerca da educação deve partir de questões e conteúdos que dizem respeito ao ser humano como tal. O filósofo britânico Michael Dummett aponta para tais questões em seu escrito The Nature and Future of Philosophy conforme segue: “Há tantos problemas para os quais nós não conhecemos a solução: a relação entre mente e corpo, em que medida nossas ações são livres, o fundamento da moralidade, a natureza do tempo. O que é consciência, e será que poderíamos nos comportar como nos comportamos sem a existência dela? A consciência é possível apenas em organismos vivos, ou pode existir também em mentes desprovidas de corpo? Faz sentido acreditar na existência após a morte mesmo sem o corpo? Será que uma completa descrição dos eventos físicos incorporaria tudo o que há no universo, ou deixaria algumas coisas de fora? Sobre que pressupostos repousa a ideia de que alguém pode merecer as coisas boas ou ruins que lhe acontecem, e em que medida temos direito de fazer essas pressuposições? Valores morais devem ser discernidos do mundo natural, incluindo o mundo do comportamento humano, ou derivam de algum outro setor da realidade? Todas estas e várias questões paralelas são próprias da filosofia”.

Processos educacionais vivos como ideal 

Tais questões não se encaixam nas normas da OCDE, e tampouco podem ser respondidas por um ensino cujos resultados são examinados em provas subsequentes de conclusão de módulo, para ao final das contas ser atestado como “skills and competences”. Trata-se de um modo bem diferente de questionar e aprender, que acompanha o ser humano durante a vida inteira e só aos poucos desemboca em um conhecimento que cresce com a vida e transforma a existência do mesmo ser humano. As questões que dizem respeito à essência e ao sentido da vida humana merecem todo o cuidado hoje em dia, pois constituem as referências para as decisões sobre qual é o futuro e qual é a sociedade em que pretendemos viver. São questões que requerem tanto cérebro quanto coração, e apenas quando aquele que questiona muda a si e à sua vida e continua se desenvolvendo ao questionar é que as questões levam a respostas. Este modo de questionar, e o movimento educacional vinculado a ele, pode ser caracterizado com uma expressão cada vez mais divulgada no âmbito da língua inglesa, contemplative inquiry, ou quiçá também com outro conceito. O que se pretende é o estímulo e o desenvolvimento de atividades e habilidades espirituais, sobre cujo valor quem decide não é o mercado de trabalho, o Ministério da Educação ou qualquer outra instituição, mas sim a vida e o sentido real vivenciado na consumação da vida.

As ideias do reformador Rudolf Steiner acerca da “arte da educação” 

Processos educacionais que incitem potenciais espirituais e tenham por fim levar a genuínas inovações científicas e sociais, e não mudanças previamente determinadas que apenas pretendam dar conta de sucessos econômicos: estes eram também a grande preocupação do reformador da educação Rudolf Steiner (1861–1925). A pedagogia Waldorf inspirada por ele pode se orgulhar hoje de uma propagação pelo mundo inteiro. Ela formula elevadas exigências didáticas aos professores, pois compreende a si mesma como “arte da educação”, cujas medidas e recomendações se justificam coerentemente a partir dos princípios que regem o desenvolvimento de um ser humano em crescimento. A pedagogia Waldorf como método pergunta: de que precisa um ser humano em termos de matéria de ensino e atividade de ensino para se desenvolver integralmente, tornando-se uma personalidade autônoma? Sem dúvida as medidas pedagógicas fundamentadas apenas antropologicamente precisam então ser colocadas também em relação com a respectiva realidade histórica e sociocultural. Mas o decisivo é que o ser humano em crescimento não seja adestrado apenas para cumprir um preceito político-ideológico ou econômico, mas sim considerado em seu potencial criador e inovador. Para tanto é necessário levar o ser humano a sério não apenas em sua dimensão biológica, mas também como entidade espiritual pessoal. Portanto, quem estuda a pedagogia Waldorf precisa aprender, além da especialidade necessária para as aulas na escola, também a se ocupar com o ser humano em sua complexidade física, psíquica e mental. O objetivo é aprender a contemplar de modo diferenciado o ser humano em seus processos de transformação e desenvolvimento, e a partir dessa capacidade de observação deduzir e aplicar as medidas pedagógicas adequadas.

Mencione-se ainda que esse princípio pedagógico reformador encontrou não apenas adeptos, mas também críticos. Por isso a Alanus University of Arts and Social Sciences em Alfter, nas proximidades de Bonn (www.alanus.edu), transformou recentemente em tarefa sua a tentativa de estabelecer o discurso acadêmico acerca das possibilidades e limites da pedagogia Waldorf em diálogo com a pedagogia universitária existente. Para tanto, criou um programa de pesquisa multifacetado e uma rede internacional abrangente com universidades da Europa, da América Latina e da Nova Zelândia. Os resultados disso podem ser acompanhados no primeiro Peer Reviewed Journal acerca deste tema (www.rosejourn.com), sob o título “Research on Steiner Education” (ROSE).
Marcelo da Veiga
é professor de Filosofia da Educação na Universidade Alanus de Arte e Ciências Sociais (www.alanus.edu), nas proximidades de Bonn, da qual (desde 2002) é reitor fundador. Oriundo do Brasil, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina e foi assessor em questões educativas de diversas universidades particulares brasileiras.

Tradução do alemão: Marcelo Backes
Copyright: Goethe-Institut e. V., Humboldt Redaktion
Dezembro 2012
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