A educação – entre o coração e a razão

Terremoto em Düsseldorf

O autor e diretor chileno de teatro conta como devolveu à Alemanha a visão que, há duzentos anos, o poeta Heinrich von Kleist teve da destruição imaginária de Santiago do Chile.

Em 22 de abril de 2012 estreei minha nova peça, BEBEN, no teatro de Düsseldorf. Esse dia marcou o fim do trabalho de um ano que começou quando o novo diretor-geral, Staffan Valdemar Hølm, me convidou para escrever e dirigir uma peça para a temporada 2011–2012. Ele me propôs iniciar minha relação com o Düsseldorfer Schauspielhaus com um trabalho que vinculasse o universo cultural do Chile ao da Alemanha, e me sugeriu escrever uma peça inspirada no conto O terremoto no Chile, de Heinrich von Kleist, uma história escrita há cerca de duzentos anos e que trata de uma catástrofe natural em um país distante e quase imaginário. Apesar de ser um reconhecido viajante, Kleist, o contemporâneo genial e desafortunado de Goethe e Schiller, nunca esteve no Chile, tendo se inspirado seguramente no terremoto de Lisboa, em 1755. Mas, apesar da distância, Kleist criou um vínculo definitivo e emocional com meu país. Meu trabalho consistia em atualizá-lo. A ideia também me interessou, pois esse conto é uma crua reflexão existencial e religiosa sobre as consequências de uma catástrofe natural. Creio que os problemas que O terremoto no Chile explora continuam em pauta toda vez que a terra treme e o mar sobre ela avança.

Kleist narra nele a história de uma mulher que, em Santiago do Chile, em 1647, engravida de seu tutor apesar de seu pai tê-la enviado para um convento na tentativa de separá-los. É condenada à morte por cometer esse pecado, mas no momento em que vão executá-la, um terremoto destrói a cidade e ela foge. Finalmente ela consegue se reunir com seu amante e seu filho recém-nascido nas colinas que cercam a cidade. Mas quando voltam à cidade para assistir à primeira missa depois da catástrofe, o sacerdote culpa a jovem mãe de ter provocado com seu pecado a fúria divina do terremoto. Então uma multidão enfurecida mata os dois, ela e o pai de seu filho.

O conto pode ser lido como uma grande crítica à crueldade do catolicismo, disposto a executar os crentes que provocam a fúria de Deus com seus pecados. No entanto, também explora uma ideia mais ampla, referente à dificuldade de explicar uma catástrofe natural a partir de um ponto de vista religioso. Esse problema poderia soar irrelevante em nosso mundo de sóbrias explicações científicas, mas carrega uma desconcertante atualidade. De fato, após o recente terremoto no Haiti em 2010, o televangelista norte-americano Pat Robertson justificou a catástrofe natural dizendo na televisão que o povo haitiano havia dado as costas a Deus ao abraçar a religião vodu. Segundo ele, o terremoto seria a consequência de um antigo “pacto com o diabo” assinado pelo povo haitiano para se libertar da dominação francesa. Curiosamente, depois de duzentos anos, o conto de Kleist adquiria uma surpreendente atualidade: novamente as próprias vítimas eram acusadas de causar uma catástrofe natural. Seu pecado havia desatado a fúria de um Deus cruel e vingativo.

A polêmica sobre o papel de Deus nas catástrofes é algo que se repete em um país como o Chile, abalado por terremotos periodicamente. Logo após a destruição, é comum ver pessoas religiosas e a Igreja procurando consolar-se com explicações contraditórias. Algumas vezes, dizem que Deus tem um plano secreto que não podemos entender. Outras, que Deus criou o mundo, mas que não pode controlar os acidentes do mundo natural. Muitos, com certeza, seguem afirmando que Deus está nos castigando pelos pecados que continuamos cometendo. Mas se Deus é bom, como permite então que crianças inocentes morram? Este é um tema que Kleist encara explicitamente ao permitir que no final do conto a multidão também acabe matando uma criança recém-nascida; não o filho dos pecadores, mas outra da mesma idade. Acho que Kleist chega a esse extremo para representar seu desencantamento com a humanidade, capaz de arrebentar a cabeça de um bebê contra um pilar da igreja para saciar a sede de justiça de seu Deus pessoal. Essa profunda decepção, esse ato radical de representar o assassinato mais cruel possível, pode ajudar a descrever o estado que levou Kleist a suicidar-se pouco tempo depois de publicar o conto. Um terremoto faz com que alguém fique decepcionado com Deus; mas se alguém também se decepciona com a humanidade, então já não sobram alternativas para justificar a vida.

Decidi criar uma peça contemporânea que explorasse todas essas ideais e que ao mesmo tempo conseguisse estabelecer uma relação entre o mundo de Kleist e minha visão de seu conto no ano de 2012. Escrevi uma história na qual quatro jovens voluntários alemães trabalham no Chile ajudando as vítimas do terremoto de 2010. O conflito se desata em um ato no qual os jovens, abalados em sua própria angústia existencial, decidem contar a história de Kleist a crianças sobreviventes do tsunami, que eles estão tentando ajudar. As crianças, obviamente, não conseguem compreender nem aceitar a crueldade brutal do conto. Os próprios voluntários se encontram finalmente envolvidos em uma discussão sobre os mesmos temas presentes no conto original. Além disso, a essas questões inevitáveis decidi incorporar o problema dos saques dos centros comerciais ocorridos após o terremoto do Chile. Pareceu-me inevitável apresentar a ideia de que uma catástrofe permite expor a crise latente em sociedades como a chilena, na qual a injustiça social tem a mesma relevância e urgência que as ideias do conto original de Kleist.

Cheguei em Düsseldorf em fevereiro com a peça escrita e traduzida (por Hedda Kage) e ali me deparei com o incrível sistema do teatro alemão. A imensa importância que o teatro tem para a vida da cidade e a expectativa que cada nova peça cria no público local e nacional me surpreendeu. Vindo do teatro independente, foi um prazer sentir-me respaldado com a infraestrutura e a eficiência da administração e das equipes artísticas. Além disso, por sorte, visto que não falo o idioma, os alemães com quem trabalhei em Düsseldorf eram poliglotas generosos que entendiam tudo o que eu dizia em espanhol, se falasse devagar.

Os atores aceitaram afavelmente o fato de serem dirigidos em inglês. Escutaram-me com paciência antes de se entregarem com liberdade ao universo da peça. Encantou-me descobrir como começaram o processo de ensaios com uma atitude rigorosamente intelectual e o terminaram em uma dispersão de maravilhosa irracionalidade emocional. Sua atitude em geral é estóica diante da rigorosidade e intensidade de um trabalho como o que se faz no Düsseldorfer Schauspielhaus. Eles têm um horário de trabalho que deixaria exausto o corpo de outros atores no mundo, mas parecia haver um orgulho em trabalhar até o limite da resistência. A atitude e firmeza dos atores que dirigi servem de permanente testemunho da tradição cênica alemã. Quando chegou a estreia, encantou-me ver que o público e os críticos recepcionaram o trabalho com generosidade e rigor, sem uma gota de condescendência com um dramaturgo e diretor de um país do fim do mundo.
No geral, acredito que nunca havia visto tão claramente como na Alemanha que o teatro é um lugar privilegiado para pensar e examinar o mundo. O Chile tem uma ampla relação com a Alemanha, envolvendo imigração e exílio. Convidar-me para escrever e dirigir é uma forma de seguir, por outros meios, essa ampla relação entra as duas culturas nacionais. Neste caso, permitiu-me devolver à Alemanha a visão que Kleist teve da destruição imaginária de minha cidade há duzentos anos. Essa devolução reelaborada da imaginação existencialista de Kleist aconteceu sobre um cenário e permitiu aproximar dois mundos teatrais cada vez mais generosamente entrosados.

No fim da experiência já começava a primavera e eu conseguia entender um pouco do alemão que os atores repetiam nos ensaios e nas apresentações. Além disso, conseguia falar o básico para cumprimentar e pedir comida nos restaurantes. Mas não era suficiente. Minha única e grande frustração em Düsseldorf é nunca ter podido ler o conto que inspirou BEBEN em seu idioma original. As pessoas com quem trabalhei me diziam que um dos maiores valores da obra de Kleist é a elegância e a beleza de seu estilo. Talvez por isso sempre falem dele com tanto carinho. Morreu muito jovem e há muito tempo, mas seu trabalho me acompanhou em toda minha aventura alemã. Acredito agora que Kleist vai seguir me acompanhando, forçando-me a aprender alemão para poder finalmente ler sua obra na língua em que ele a escreveu.
Guillermo Calderón
(1971) é autor e diretor teatral. Aposta num novo teatro político e é considerado hoje um dos dramaturgos mais interessantes do Chile. Após seus estudos no Chile, Estados Unidos e Itália, fundou o Teatro en el Blanco. Além de suas próprias obras, encenou Fassbinder e Tchekhov. Seu primeiro trabalho na Alemanha foi Beben, em 2012, para o teatro Düsseldorfer Schauspielhaus.

Tradução do alemão: Douglas Pompeu e Anna-Katharina Elstermann
Copyright: Goethe-Institut e. V., Humboldt Redaktion
Dezembro 2012
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