Este especial de literatura para a revista Humboldt passa a palavra a escritores alemães e latino-americanos, sobretudo brasileiros, que – ao longo de sua obra ou em livros recentes – têm revelado um interesse especial em renovar sua dicção e estranhar a própria língua por meio da incorporação de outros idiomas ou da permeabilização radical do texto a referências intertextuais e mídias extra-literárias. Sobretudo procedimentos como a tradução em sentido lato e o multilingüismo podem ser considerados, de certa forma, intrínsecos ao fazer literário dos autores aqui reunidos.
– Eh bien, je risquerai d'abord, avant de commencer, deux propositions. Elles paraîtront, elles aussi, incompossibles. Non seulement contradictoires en elles-mêmes, cette fois, mais contradictoires entre elles. Elles prennent la forme d'une loi, chaque fois une loi.
Le rapport d'antagonisme que ces deux lois entretiennent chaque fois entre elles, tu l'appelleras donc, si tu aimes ce mot que j'aime, antinomie.
– Soit. Quelles seraient donc ces deux propositions? Je t'écoute.
– Les voici:
1. On ne parle jamais qu 'une seule langue.
2. On ne parle jamais une seule langue.
(Jacques Derrida, Le monolinguisme de l’autre ou la prothèse d’origine)
"Um diálogo quase visceral com a tradução"
Por meio de sua tradução-arte, o poeta Augusto de Campos propagou no Brasil os mais inventivos escritores, dos
trobadours provençais a James Joyce, influenciando de forma marcante o repertório literário das gerações seguintes. Entre os poetas de língua alemã que traduziu para o português estão Angelus Silesius, Quirinus Kuhlmann, Hölderlin, Arno Holz, Rainer Maria Rilke e August Stramm. Neste trecho de uma entrevista inédita, o poeta fala de suas "intraduções", textos poéticos autônomos gerados a partir da tradução de outros autores.
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"A observadora é parte do sistema"
Em seu mais recente livro,
Niemands Frau – Gesänge (Mulher de Ninguém – Cantos), a poeta alemã Barbara Köhler resgata a
Odisséia, de Homero, como um novo impulso à sua prática de subversão pela linguagem. Ela comenta, em entrevista, que a inventividade da poesia também pode provir de um estranhamento em relação à própria língua, algo também a ser despertado pelo trabalho lúdico com outros idiomas.
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HumboldtA outra língua – Edição especial sobre literatura
Concepção e redação: Simone Homem de Mello
Tradução: Ricardo Bada (do português para o espanhol), Claudio Daniel (do espanhol para o português), Simone Homem de Mello (do alemão para o português), George Sperber e Karin von Schweder-Schreiner (do português e espanhol para o alemão)
Revisão: Renata Dias Mundt (português), Karin von Schweder-Schreiner (alemão), Julio Mendívil (espanhol)