Multilinguismo

Projeto faz registro de línguas ameaçadas de extinção no Brasil

Projeto Yawanawa; Copyright: PROGDOC/Museu do Índio, Rio de Janeiro.
Projeto Yawanawa; Copyright: PROGDOC/Museu do Índio, Rio de Janeiro.
O que fazer quando uma língua está prestes a deixar de ser falada por seus povos? Com o objetivo de impedir o desaparecimento completo de línguas indígenas em risco no Brasil, um projeto de documentação registra os códigos linguísticos das mesmas, a fim de garantir o conhecimento para gerações futuras e estimular o uso dessas línguas entre os falantes.

Os registros são feitos em arquivos multimídia, incluindo áudios, vídeos e textos, com a participação dos próprios indígenas. Eles atuam não apenas como fornecedores das informações, mas também como produtores do processo. São treinados e, junto a não indígenas participantes do projeto, fazem a captação dos dados.

Parceria entre a Fundação Nacional do Índio (Funai), por meio do Museu do Índio, a Unesco e a Fundação Banco do Brasil, o Programa de Documentação de Línguas Indígenas começou nos anos 1990 e está sendo aplicado, hoje, em 13 línguas faladas em diferentes regiões do país. O objetivo é chegar a 20 línguas ao fim de uma primeira fase.

No orçamento do governo federal para 2012, há previsão de liberação de recursos para o projeto, que tem também apoio do Instituto Max Planck de Psicolinguística, um dos 80 institutos da Sociedade de mesmo nome. Com sede na Holanda, ele é um dos poucos Institutos Max Planck situados fora da Alemanha e o único no mundo a se voltar única e exclusivamente para a Psicolinguística, ou seja, para a pesquisa sobre a produção e compreensão da linguagem e sobre como desenvolvemos essas capacidades na condição de aprendizes de uma língua materna ou de idiomas estrangeiros.

Línguas perdidas

Projeto Paresi; Copyright: PROGDOC/Museu do Índio, Rio de JaneiroO número de etnias envolvidas no projeto parece baixo diante do tamanho da ameaça. Não há números precisos, mas a estimativa é de que entre 150 e 180 línguas estejam deixando de ser faladas no Brasil. Há povos cujos falantes das línguas originais resumem-se a menos de dez pessoas, às vezes apenas duas, no geral os mais idosos do grupo. Em algumas aldeias, a língua não é falada por ninguém. Já foi perdida. É o caso, por exemplo, dos povos Maku, que vivem em Roraima, na região Norte do Brasil. Não há nenhum falante entre as 2.603 pessoas. No caso dos Apiakás, em Mato Grosso, na região Centro-Oeste, o último falante fluente morreu aos 70 anos, em 2010.

Há um leque variado de situações, com casos de todos os integrantes de uma aldeia ainda falarem a língua original, segundo relata Bruna Franchetto, antropóloga do Museu Nacional do Rio de Janeiro. “Mas, no nosso entendimento, todas as línguas minoritárias estão ameaças e, em um futuro não muito distante, podem desaparecer”, diz.

Falta de escolaridade e exclusão das mídias

O risco de extinção, em função da quantidade reduzida de falantes, foi um dos critérios para selecionar as primeiras línguas a serem documentadas no projeto. “As línguas minoritárias são submetidas às pressões social, política e religiosa, ou até à repressão declarada. Somam-se a esse quadro a falta de escolaridade em línguas indígenas e a exclusão das mídias, uma vez que é o idioma nacional que as domina”, afirma José Carlos Levinho, diretor do Museu do Índio, para explicar o desaparecimento da língua dos povos nativos do Brasil e que foram marginalizados desde o início da colonização há cinco séculos.

Segundo ele, a documentação é importante para tentar proteger, reforçar e revitalizar as muitas línguas e culturas nativas ainda existentes no Brasil. “Todo o material coletado é disponibilizado para uso em escolas e centros de documentação nas aldeias e terras indígenas. Esperamos, a partir da utilização desses materiais pelas comunidades, incentivar o uso da língua nativa pelas crianças e pelos jovens”, diz Levinho.

O professor Aryon Rodrigues, coordenador do Laboratório de Línguas Indígenas do Instituto de Letras da Universidade Federal de Brasília (UNB), relata que, no ano de 1500, havia cerca de 1200 povos indígenas no Brasil, falantes de 1200 línguas distintas. Hoje, são cerca de 230 povos e cerca de 180 línguas. Em 50 aldeias, a língua original deixou de ser falada. “Temos que salvar o que está aí”, defende Rodrigues.

Educação bilíngue para crianças indígenas

Projeto Maxakali; Copyright: PROGDOC/Museu do Índio, Rio de JaneiroSegundo ele, um dos problemas do Brasil é o não reconhecimento da diversidade linguística. Mas o professor vê avanços nesse processo, como o fato de o ministério da Educação admitir, hoje, a educação bilíngue de crianças indígenas. A língua materna é usada como primeira língua e o português, como segunda. O fato de a alfabetização indígena ter sido historicamente em português foi um dos fatores que levaram à situação de perda de falantes das línguas nativas nas aldeias.

Jurema Machado, coordenadora do setor de cultura da Unesco no Brasil, destaca a metodologia utilizada para documentação, que envolve não só o conhecimento e o detalhamento da língua, mas também as especificidades culturais de seus povos. “Você não consegue identificar os códigos linguísticos, ou mesmo os mecanismos para preservar a língua, se você não compreender essa língua dentro do contexto cultural em que ela se situa. O vocabulário pode estar ligado ao ambiente do grupo populacional, da mesma forma que as expressões estão ligadas às visões de mundo, aos conhecimentos tradicionais e à própria cosmologia”, diz.

A metodologia não é brasileira. Denominada Dobes (Dokumentation bedrohter Sprachen, ou seja, Documentação de Línguas Ameaças), foi desenvolvida pelo Instituto Max Planck e levada ao Brasil por meio de um acordo entre as instituições envolvidas. Em contrapartida ao uso da metodologia, o Instituto se dispõe a ser um dos guardiões do material documentado. Machado ressalta que a documentação não implica na salvação automática da língua. “Mas significa, pelo menos, dar às gerações atuais e futuras a possibilidade de trabalhar pela recuperação dessas línguas. E, na pior das hipóteses, se isso não acontecer, ter os conhecimentos sobre as mesmas preservados por meio do registro”, conclui.

Fábia Prates
é jornalista. Vive e trabalha no Rio de Janeiro.

Copyright: Goethe-Institut Brasilien
Outubro de 2011

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