Maldição da pedra

1. Era uma vez

A noite respirava no apartamento como um animal escuro. O tique-taque de um relógio; o ranger das tábuas do assoalho quando ele se esgueirou para fora do quarto — tudo se afogava em seu silêncio. Mas Jacob amava a noite. Ele sentia a escuridão na pele, como uma promessa. Como um manto tecido por liberdade e perigo. Lá fora as luzes berrantes da cidade faziam as estrelas empalidecerem, e o grande apartamento estava sufocado pela tristeza de sua mãe. Ela não acordou quando ele entrou de mansinho no quarto e abriu a gaveta do criado-mudo. A chave estava ao lado dos comprimidos que a faziam dormir. Quando ele voltou para o corredor escuro, o metal amoldava-se frio à sua mão.
No quarto do irmão, como sempre, a luz ainda estava acesa — Will tinha medo do escuro —, e Jacob certificou-se de que ele dormia profundamente antes de abrir o escritório do pai. Sua mãe não entrara mais ali desde que ele desaparecera, mas não era a primeira vez que Jacob o visitava às escondidas, em busca das respostas que ela não queria lhe dar.
O escritório ainda estava como se fizesse uma hora, e não mais de um ano, que John Reckless havia se sentado na escrivaninha pela última vez. Na cadeira, continuava pendurado o casaco de tricô que ele costumava usar, e um saquinho de chá usado ressecava num pires ao lado do calendário, que mostrava as semanas de um ano já passado.
Volte!, Jacob escreveu com o dedo nas janelas embaçadas, na escrivaninha coberta de poeira e nas portas de vidro do armário no qual ainda repousavam as pistolas antigas que o pai colecionava. Mas o quarto continuou silencioso e vazio, e ele estava com onze anos e não tinha pai. Jacob chutou as gavetas que já tantas noites havia vasculhado em vão, arrancou livros e revistas das prateleiras numa fúria muda, derrubou os aeromodelos pendurados em cima da escrivaninha, cheio de vergonha pelo orgulho que sentira quando obtivera permissão para pintar um deles com laca vermelha.
Volte!, ele queria gritar pelas ruas, que sete andares abaixo recortavam trilhas de luz entre os quarteirões, e para as milhares de janelas que estampavam quadrados reluzentes na noite. A folha de papel caiu de um livro sobre propulsores de avião, e Jacob só a apanhou porque pensou que a letra nela escrita fosse a do pai. Mas rapidamente percebeu seu engano. Símbolos e equações, o desenho de um pavão, um sol, duas luas. Nada daquilo fazia sentido. Exceto por uma frase que encontrou no verso da folha. O ESPELHO SE ABRE PARA QUEM NÃO VÊ A SI PRÓPRIO. Jacob se virou, e seu reflexo no espelho retribuiu seu olhar. O espelho. Ele ainda se lembrava bem do dia em que o pai o pregara na parede. Ficava pendurado entre as estantes de livros, como um olho cintilante. Um abismo de vidro, no qual se espelhava distorcido tudo o que John Reckless deixara: a escrivaninha, as pistolas antigas, os livros — e o filho mais velho.
O vidro era tão ondulado que era difícil se reconhecer nele, e mais escuro que o de outros espelhos, mas as rosas que se enroscavam na moldura de prata pareciam tão autênticas como se fossem murchar no instante seguinte. O ESPELHO SE ABRE PARA QUEM NÃO VÊ A SI PRÓPRIO. Jacob fechou os olhos. Virou de costas para o espelho. Tateou a moldura em busca de algum trinco ou fechadura. Nada.
Ele sempre voltava a olhar nos olhos do próprio reflexo. Demorou um bom tempo até compreender. Suas mãos quase não eram grandes o suficiente para cobrir a imagem distorcida de seu rosto, mas o vidro se amoldou a seus dedos como se estivesse esperando por eles, e de repente o lugar que ele via atrás de si no espelho não era mais o escritório do pai.
Jacob se virou. A luz da lua entrava por duas janelas estreitas e iluminava paredes cinzentas, e seus pés descalços pisavam em tábuas de madeira cobertas de cascas de carvalho e ossos roídos de pássaros. O lugar não era muito maior do que o escritório do pai, e acima dele teias de aranha pendiam como véus das vigas de um telhado.
Onde estava? O luar pintou manchas em sua pele quando ele se aproximou de uma das janelas. No peitoril áspero, estavam grudadas penas de pássaro ensanguentadas, e profundamente abaixo ele viu muros queimados e colinas negras nas quais ardiam algumas luzes perdidas. Ele estava numa torre. O mar de edifícios e as ruas iluminadas haviam desaparecido. Tudo o que ele conhecia não estava mais lá, e entre as estrelas pairavam duas luas, das quais a menor era vermelha como uma moeda enferrujada. Jacob olhou para o espelho e viu o medo em seu próprio rosto. Mas o medo era uma sensação da qual sempre gostara. Ele o atraía para lugares obscuros, através de portas proibidas e para longe de si mesmo. Até mesmo as saudades do pai se afogavam nele.
Não havia porta nas paredes cinzentas, apenas um alçapão no piso. Quando o abriu, Jacob viu os restos de uma escada incendiada que desaparecia na escuridão e, por um instante, pensou ver um homenzinho minúsculo escalando as pedras lá embaixo. Mas um ruído de algo raspando o fez se virar. Teias de aranha caíram sobre ele, e alguma coisa pulou em sua nuca com um rugido rouco. Soou como um animal, porém o rosto desfigurado que arreganhava os dentes em seu pescoço era pálido e enrugado como o de um velho. Ele era muito menor do que Jacob e esguio como um gafanhoto. Usava uma roupa que parecia feita de teias de aranha e tinha longos cabelos grisalhos que iam até o quadril; quando Jacob segurou o pescoço magro, os dentes amarelados enterraram-se fundo em sua mão. Com um grito, ele arrancou o agressor do ombro e precipitou-se em direção ao espelho. Enquanto lambia o sangue do menino dos lábios, o homem-aranha se pôs em pé e se lançou ao ataque novamente; antes que pudesse alcançá-lo, porém, Jacob já pressionava a mão que não estava ferida sobre o próprio rosto amedrontado. A figura esquálida desapareceu, assim como as paredes cinzentas, e ele viu a escrivaninha do pai atrás de si.
— Jacob?
A voz do irmão quase sumia em meio às batidas de seu coração. Jacob tomou fôlego e afastou-se do espelho. — Jake, você está aí?
Ele puxou a manga sobre a mão ferida e abriu a porta.
Os olhos de Will estavam arregalados de medo. Ele tivera um sonho ruim novamente. Irmão mais novo, Will o seguia como um cãozinho, e Jacob o protegia na hora do recreio e no parque. E algumas vezes até mesmo o perdoava pela mãe amá-lo mais.
— A mamãe disse para a gente não entrar no escritório.
— E desde quando eu faço o que a mamãe diz? Se contar para ela, nunca mais levo você ao parque.
Jacob pensou sentir o vidro do espelho como gelo em sua nuca. Will tentou olhar atrás dele, mas baixou a cabeça quando ele fechou a porta. Will era cauteloso onde ele era imprudente, doce onde ele era irritadiço, calmo onde ele era inquieto. Quando Jacob estendeu a mão, notou o sangue nos dedos do irmão e olhou para ele com um ar indagador, mas Jacob ficou calado e arrastou-o de volta para o quarto.
O que o espelho lhe mostrara pertencia a ele. Somente a ele.

Tradução: Sonali Bertuol