7 perguntas para...

Maria Aparecida Barbosa

Nasceu em 1961 em Patrocínio-MG

2004 Doutorado em Teoria Literária, UFSC.

2012 Pós-doutorado sobre Modernismo e Movimentos Históricos de Vanguarda, WWU-Münster.

http://literatura.ufsc.br/

aparecidabarbosaheidermann@gmail.com


Bolsas e premiações

2010 Preis der National Bibliothek: Jugendliteratur, die beste Übersetzung ins Portugiesische, (A Janela de Esquina do meu Primo).


Como você chegou à tradução?
Sempre gostei de ler: literatura brasileira e também literatura escrita originalmente em línguas estrangeiras, nesse caso através de traduções. Nos anos 90 eu morei em Colônia, na Alemanha, e, na ocasião, me dei conta de que estava lendo algumas coisas fascinantes em alemão e pensei que poderia apresentá-las ao público do Brasil. Quando eu me refiro a público, penso em alguém como eu, que se interesse pela literatura e não conhece a língua respectiva. Por conta dessa intermediação sinto gratidão pelos trabalho dos tradutores do russo, do húngaro, do espanhol: O Passado eu li através da Joselly, os ensaios do Piglia, da Heloísa Jahn. Da mesma maneira, eu gostaria de ver alguém instigado, curioso, completamente absorvido pela ficção que eu traduzo.

Sob quais critérios você busca um texto para traduzir?
São textos que me seduzem e que eu gostaria muito de ler. Os textos de Hoffmann, Schopenhauer e Freud possuem uma densidade aliada à fluência, muitas vezes até em frases longas e elaboradas, o que me agrada demais para a leitura e consequentemente para a tradução. Um desafiador exercício de pensamento.

Para você, o contato com o autor da obra é importante? Justifique.
Não acho importante contatar o autor. Prefiro me ater ao texto dele, escrito. Mas se ele escreve magistralmente a respeito da Literatura, além de querer ler os ensaios, também o entrevistaria ou conversaria com ele. O Daniel Kehlmann escreve ensaios sobre leitura e narrativa e o que ele fala é importante demais pelo fato de se tratar de excelente escritor e leitor - algo borgiano.

Qual obra traduzida por você se distanciou mais da cultura brasileira?
Literatura de todo modo não é realidade. Devido à textura e aos métodos narrativos não realistas a literatura romântica, os contos maravilhosos etc. parecem ainda mais distantes da realidade. Independente das características realistas, digamos: do gesto mais explicitamente engajado, eles cumprem um papel imprescindível à existência social: a função poética. A poesia não tem fronteiras de nação, é universal. Essa semana meu marido escreveu um artigo para o jornal QORPUS sobre peças de teatro, que não se prestam à tradução ao português e ele reflete sobre a tradução alienada e sem critérios. Precisamos tanto de transitar pelos textos de culturas diferentes, como também de criar, com muita identidade, uma literatura própria, na língua materna.

Em uma tradução, qual dificuldade linguística já levou você ao desespero?
A atual literatura pop, o chiste e o jornalismo trazem consigo as dificuldades da narrativa fragmentária, das metonímias (por exemplo: nomes de marcas ou alusivos a sutilezas culturais/atuais) e a ironia afiada e rápida. Isso pode ser muito difícil! Em todo o caso, interessante como desafio. Tradução poética não leva ao desespero, mas embriaga, alucina!

Autor(a) ou livro alemão preferido:
Além dos que mencionei - Os Elixires do Diabo e O Gato Murr são sensacionais! - incluo as peças teatrais de Brecht, de Max Frisch e Dürrenmatt, romances de Musil, Uwe Timm, Daniel Kehlmann e obras isoladas como Die Entdeckung der Langsamkeit (a descoberta da lentidão), Die Ästhetik des Widerstands (a estética da resistência), O Colecionador de Mundos etc...

Qual livro gostaria de traduzir e por quê?
Obras do século XX como a novela dadaísta Die Tiegerin de Walter Serner, que estou lendo, ou Der Mantel de Franz Tumler. Narrativas instigantes, bem escritas e, de algum modo, plenas de auto-crítica, humor.

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Obras traduzidas do alemão para o português:

Schwitters, Kurt
Contos mércio / Kurt Schwitters.
Florianópolis: Editora da UFSC,
2013. 180 p.
ISBN 978-85-328-0660-4


Hoffmann, E. T. A.
Reflexões do gato Murr : e uma
fragmentada biografia do
compositor Johannes Kreisler
em folhas dispersas de
rascunho, editado por E. T. A.
Hoffmann
/ E. T. A. Hoffmann.
São Paulo: Estação Liberdade,
2013, 434 p.
ISBN 978-85-7448-225-5
Título original: Lebensansichten des Katers Murr


Hoffmann, E. T. A.
A Janela de Esquina do meu Primo / E. T. A. Hoffmann.
São Paulo: Cosac Naify,
2010, 80 p.
ISBN 978-85-7503-890-1
Título original: Des Vetters Eckfenster


Tieck, Ludwig
Feitiço de Amor e outros contos / Ludwig Tieck.
São Paulo: Hedra, 2009 - 208 p.
ISBN 978-85-7715-139-4
Título original: Phantasus