Resumo
Criança nº 95: minha odisseia germano-africana

Kind Nr. 95: Meine deutsch-afrikanische Odyssee
Berlin: Ullstein Taschenbuchverlag, 2004
256 S.
ISBN 978-3-548-25892-8
(Edição original de bolso)
Lucia Engombe tem sete anos e vive no campo de refugiados Nyango na Zâmbia, um lugar que mais tarde irá recordar como a selva africana. Aí pergunta ela um dia a um branco: "Queres ir comigo para a Alemanha?" Juntamente com outras crianças, em Dezembro de 1979, Lucia é levada para uma mansão de campo transformada em lar de infância em Bellin, na República Democrática Alemã. A vida no novo ambiente é sentida por Lucia como um luxo, apesar de muitas das coisas que nunca tinha visto antes lhe parecerem estranhas e inquietantes e de achar que está à mercê das educadoras alemãs; mas "Na Alemanha há sempre comida que chegue". Lucia descobre por que ela e outras crianças foram levadas para a RDA através de um oficial da SWAPO: As crianças devem formar a "nova elite" da Namíbia.
Depois das mudanças políticas ocorridas na Alemanha e na Namíbia em 1989, inesperadamente, Lucia voltou para África e, de um momento para o outro, viu-se num mundo estranho e exótico para si. Na Namíbia, Lucia é uma estranha, pois, após onze anos de educação em internatos da DDR, há muito que se tinha tornado alemã. Lucia é agora uma jovem adulta sem identidade cultural própria. Sem relação com os pais, apenas com vagas lembranças da tenra infância da "selva africana", Lucia dá por si na solidão da paisagem desértica da Namíbia, na triste vida rural dos primeiros habitantes da terra, em Ovamboland. Para Lucia começam os profundos conflitos culturais com os pais e a restante família e uma busca da sua própria identidade cultural.
Comentário
Lucia Engombe:
Kind Nr. 95: Meine deutsch-afrikanische Odyssee
(Criança nº 95: minha odisseia germano-africana)
Como narrativa autobiográfica, o foco do livro está na pessoa de Lucia Engombe e nas mudanças por que passa, da criança africana ligada à natureza à negra alemã que nunca teve hipótese de desenvolver uma identidade cultural própria. A sua personalidade está entrelaçada com a luta pela libertação da SWAPO na Namíbia e da desintegração da RDA, ganhando, assim, o valor do exemplo. Aos poucos, as memórias que tem de África vão-se desvanecendo no triste quotidiano da RDA, e com elas a capacidade de falar a língua mãe. Para Lucia e para as outras crianças africanas em Bellin é quase impossível identificarem-se com a sua terra natal. Isto está patente na incapacidade de interpretar as inscrições violentas feitas por jovens alemães orientais como xenófobas e parte de um pensamento racista: "Quando lia nas paredes da escola coisas como "os negros cheiram mal" até as achava cómicas; nós não éramos negros e por isso não nos sentíamos afectados".
Apesar de Engombe sentir a rejeição da sociedade durante anos, ela não consegue fazer a distinção entre os actos arbitrários das educadoras e os dos oficiais enviados da SWAPO. Contudo, os ataques racistas dos jovens alemães de leste são cada vez mais evidentes. Engombe tenta explicar isto apenas com base nos supostos privilégios das crianças africanas; enquanto que os insultos e as lutas com os jovens alemães de leste eram vistos como medição de forças, as motivações racistas nem sequer são consideradas.
A história de vida de Lucia é um calvário que não tem, contudo, a ver com o facto de ter sido separada de pais e irmãos e ter sido criada num país estrangeiro, um destino comum a muitos órfãos, mas sim por, aos 18 anos, ter sido enviada para a Namíbia e, devido à sua experiência de vida, não se conseguir entender, do ponto de vista cultural, nem com os pais, nem com outros familiares. A realidade de vida que Engombe encontra na família na Namíbia continua a ser tão estranha para ela como o tinham sido as primeiras impressões da Alemanha. Experiencia o segundo choque cultural da sua vida, pois, após 13 anos num lar de infância da Alemanha Oriental, educada por alemães, o modo de vida tradicional na Namíbia parece-lhe estranho. Seja por o pai de mais de 50 anos manter uma relação sexual com uma jovem de 18 anos, por em Ovamboland por vezes se servir cão à refeição ou por a mãe de Engombe manter um romance secreto com Sam Nujoma, o primeiro presidente da Namíbia. Estas são realidades da vida que ela, depois de ter passado tanto tempo na RDA, já não consegue assimilar culturalmente, continuando a ser uma estranha no seu próprio país.
A história de vida de "Kind Nr. 95" (Criança n.º 95) está escrita num tom familiar e descontraído e é de fácil leitura. No entanto, Lucia Engombe, com a ajuda de Peter Hilliges, consegue um fascinante relato autobiográfico, que aproxima o leitor de um capítulo desconhecido da história entre a Alemanha e a Namíbia. Com as descrições de experiências de estranheza nos dois países, o livro de Engombe é um contributo importante para repensar a história recente entre a Alemanha e a Namíbia, e indicado para aguçar a curiosidade do leitor sobre os 120 anos de passado comum germano-africano, pouco presente na consciência pública dos alemães.










