José Mendonça Largo da Independência

Papa Francisco recebe o presidente angolano João Lourenço para uma audiência particular no Vaticano no dia 12 de novembro de 2019
Papa Francisco recebe o presidente angolano João Lourenço para uma audiência particular no Vaticano no dia 12 de novembro de 2019 | Foto (Detalhe): Alberto Lingria © picture alliance / AP Photo

Por José Luís Mendonça

1.
No dia em que completou 40 anos de abstinência sexual em memória da sua noiva desaparecida em 1977, Zé Mateus sonhou que caminhava nu pelas ruas de Luanda. Pelas escadas do Além desceu um espírito cor de limalha ardente e parou na sua frente. Da boca do espírito faiscou esta mensagem: “Zé Mateus, eu sou Dikumbi, o espírito do Tempo. Pela tua perseverança em honrar a memória da mulher que muito amaste, decidi compensar-te com mais 40 anos de vida para além da média normal de vida do Homem na Terra. Assim, viverás até aos 110 anos, em completa saúde e lucidez.” A seguir, o sono ficou mais pesado e sonhou que esse tempo anunciado encontrá-lo-ia de pé em frente ao mar, os olhos fixos na linha do horizonte. Zé Mateus despertou. Olhou para o relógio. Marcava 6 horas do dia 30 de maio de 2017. Abriu a janela do quarto e viu o Sol nascer cor-de-rosa, lento camaleão. Esticou o braço e retirou da parede a foto da sua eterna noiva, que o olhava a sorrir. “Descansa em paz, minha querida Joana. Até hoje, o governo não nos diz o que fizeram contigo, onde está o teu corpo, por isso fiz-te este velório de 40 anos. Estejas onde estiveres, repousa eternamente, meu amor.” Duas lágrimas escorreram dos seus olhos. 

Mateus nunca deixara de acreditar em Deus. Deixara apenas de acreditar nas igrejas. “Como é que Deus pode descansar no sétimo dia? Se Deus descansar, o Mundo cai de patas para o ar.” Essa certeza metafísica tinha-lhe sido revelada pelo próprio curso da vida. Logo após a Revolução dos Cravos em Portugal, em abril de 1974, Mateus organizou os jovens vizinhos da sua rua no bairro do Cruzeiro num grupo de ação que apelidou de Comité Amílcar Cabral. Constituíram comissões de defesa popular, distribuíam panfletos contra a reação dos colonos à revolta na metrópole. O próprio pai, que havia aportado a Angola no longínquo ano de 1930, apoiava as suas atividades nos bairros periféricos. Tinham constituído grupos de defesa perante as investidas de colonos armados nos musseques de Luanda.
 
Nos primeiros meses de 1975, o ano da independência, os três movimentos de libertação entraram na capital. Vinham armados e fardados. A guerra, a pior de todas, começara para durar 27 anos. A mãe de Zé Mateus, dona Juliana, professora primária, faleceu quando saía da escola, numa sexta-feira, atingida por uma bala perdida. Mateus nunca viu um branco chorar como uma criança, como chorou o seu pai, Sesinando Mateus, inspetor de obras públicas. O pai viria a falecer vinte anos depois, de malária, e foi sepultado na mesma campa da mãe. Quando Mateus fez uma inspeção no grande baú de couro gasto que o velho tinha trazido de Portugal, deparou com um caderno manuscrito a esferográfica vermelha. Era um longo poema, composto em quadras rimadas, que começava com estes versos: “Angola!, que forte manancial sem fim/ Hoje, que os incautos de ti são senhores/ Fazem do solo angolano holocausto e assim/ Vão vivendo os grandes exploradores.” Cada página estava autenticada com a assinatura do pseudônimo literário do velho: Chico da Beira. Zé Mateus nunca terminara a leitura do caderno. Doía-lhe demais a alma e começava a lacrimejar.

Zé Mateus vivera quarenta anos como um monge. “Para que ter filhos, neste mundo cruel?” Bastava-lhe a companhia do cão e o canto dos pardais. A voz livre dos pássaros urbanos ecoava nos seus ouvidos como o quimbundo daquela que esteve quase para ser sua sogra, mãe Zabele. Zabele gostava de lhe dizer coisas naquela língua quase em desuso em Luanda, enquanto mastigava, logo pela manhã, a cola e o gengibre. Mãe Zabele deixou de comer a cola e o gengibre no mesmo dia em que o primo dela, oficial dos Serviços de Inteligência, foi lá a casa prender-lhe a filha, sobrinha do militar. A única culpa de a levarem, foi porque a jovem tinha ido dançar três vezes na companhia do major Nito Alves, o autor da tentativa de golpe de estado de 27 de maio de 1977. O oficial da Segurança do Estado foi implacável. Quis mostrar serviço para o partido no poder. Fizera uma completa razia na rua. Vinte e cinco jovens, todos da juventude do partido, tinham sido levados. Nunca mais apareceram. Ninguém enterrou os seus corpos. Mateus fora o único jovem daquela rua que não tinha sido detido. Primeiro, nunca aderira à JMPLA, a juventude do partido. Segundo, trabalhava na embaixada da Alemanha como tradutor. Terceiro, quando rebentou a revolta popular do 27 de Maio, Mateus estava na prisão de São Paulo, devido à perseguição contra toda e qualquer oposição, incluindo os defensores dos bairros, que abriram o caminho à vitória militar do MPLA em Luanda. Os membros do Comitê Amílcar Cabral foram detidos, a mando do ministro do Interior, o próprio Nito Alves. Era a ditadura democrática do proletariado. Mamã Zabele chorou a fotografia da sua filha, porque nunca pôde chorar o cadáver. Zé Mateus jurara passar o número bíblico de 40 anos que os judeus permaneceram no deserto, sem tocar outra mulher.
 
2.
Agosto estava no seu derradeiro vento de cacimbo. Era domingo e a manhã tinha um perfume de folha crua. Enquanto se vestia, o rosto do pai com o seu bigode farto e o olhar de buganvília branca preenchia a cascata de água límpida da sua memória. Zé Mateus sentou-se na varanda da casa. A laranja madura do Sol lhe aquecia os ombros com os seus raios doces e sumarentos. Matabichou na companhia de Kapuete, o velho cão preto: “Kapuete, meu velho, hoje vamos passear a pé.”
 
O animal parou de comer no prato de esmalte amarelo e olhou-o com uma luz contente nos olhos. Ficaram os dois a mangonhar na varanda, embalados pelo chilreio dos pardais entre os dedos finos da palmeira. O passeio nas manhãs de domingo era a rotina sagrada na agenda de Zé Mateus. Saiu para a rua sempre seguido pelo seu melhor amigo, Kapuete, e caminharam até ao Largo da Independência. Um ardina parou com um maço de jornais debaixo do braço.

Apregoava: “Pai grande, compra jornal, o MPLA ganhou as eleições. João Lourenço vai ser o terceiro presidente de Angola.” 

Mateus vivia apenas do salário. Os semanários eram caros. Comprou o Jornal de Angola e um outro semanário. Às dez horas, o sol era uma mancha de vidro em brasa no ventre de esparsas nuvens. Quando o semáforo acendeu a luz verde, Zé Mateus atravessou a rua circular, sentou-se num banco de cimento defronte da estátua do primeiro presidente, Agostinho Neto, e abriu o semanário. 

Terminada a leitura do Jornal de Angola, abriu a pasta que trazia a tiracolo e tirou um pequeno pacote de bolachas. Comeu duas de uma única dentada. Deu outra ao cão. Ligou o wi-fi do celular e baixou música do YouTube, sem os fones de ouvido, que o cão também era melômano. Da sua alma voou até ao céu azul um compasso místico: Besoka-na-Besoka, na voz mitológica de Manu Dibangu. O sol desabotoou timidamente os botões de nuvens da camisa e mostrou o peito reluzente. Incendiava-lhe os cabelos. 

Tirou mais duas bolachas do pacote. Enquanto as comia, olhou por cimo do ombro para a estátua do fundador da nação e guia imortal da revolução, eternamente de pé, ao sol e à chuva, com o seu livro de poemas na mão direita erguida aos céus. Zé Mateus então pensou sem pensar: “Por que é que tenho este apetite voraz por bolachas?” Esta pergunta lhe encheu os olhos e afundou-se no seu subconsciente. Tinha ele cinco anos e vivia em Marimba, um subúrbio da cidade de Salazar, nome do antigo primeiro-ministro colonial, renomeada Ndalatando depois da independência. Levantara-se um surto de fome no bairro. Apesar de o pai dele ser branco, não podiam viver juntos na cidade. Era vergonhoso um branco morar na cidade com uma negra. Numa manhã de quarta-feira, as madres da Caritas tinham assentado arraial com uma caixa enorme de bolachas e uma delas mandou ajuntar numa roda todas as crianças até aos cinco anos. Zezinho Mateus era o único menino mais novo lá em casa. A tia pegou nele, foram ao arraial das bolachas. O menino viu a madre andar de roda e doar as bolachas quadradas, grandes e tostadas. Quando a madre passava em frente de Mateus, a acompanhante da criança ao seu lado, estendia a mão e roubava as bolachas, antes de a mão dele lhes chegar. Na quarta ronda, a acompanhante do menino ao seu lado esticou a mão com garras de águia, surrupiou as bolachas da mão da madre, dizendo: “Filho de branco compra bolacha!” Voltou para casa aos soluços no colo frustrado da tia. 
 
Começou a ler a manchete principal do semanário: “MPLA é o vencedor ‘inequívoco’ das eleições gerais de 2017, em Angola. Os resultados provisórios anunciados hoje pela Comissão Nacional Eleitoral (CNE), quando já estão apurados mais de 73 porcento dos votos, apontam para uma vitória "inequívoca" do MPLA e do seu candidato a Presidente da República, João Lourenço, com…” Antes de concluir a leitura, apareceu-lhe à frente um menino sujo e descalço: “Pai grande, tenho fome!” Zé Mateus ergueu os olhos da manchete e olhou para o menino: “Como te chamas?” – “Se chamo José.” – “És meu xará, José. Moras aonde?” – “Pai, saí do Lobito, eu e o meu irmão. Dormimos aí mesmo no chão daquele prédio.” Mateus sentiu uma navalha de fogo atravessar-lhe as pernas.

Aquele rapaz era um dos muitos pedintes de várias idades que cercavam os pontos de paragem do trânsito na cidade. Depois da assinatura dos acordos de paz do Luena, a paisagem do Largo da Independência se completava no grupo de adolescentes carregando uma criancinha ao colo. Devido à inclemência do sol, o petiz ao colo trazia à cabeça um lenço. Os dois estendiam a mão direita para as janelas dos automóveis que paravam. Os rostos daquelas crianças eram secos como um galho quebrado e esquecido no chão do mato. Ao lado dos menores, também paravam mulheres vestidas de panos velhos e sujos e alguns velhos sem luz nos olhos. Quando passava por ali e parava por ordem do semáforo, os pobres cercavam-lhe o carro. Ignoravam os grandes jipes com motoristas engravatados e só iam ter com ele. Um dia, perguntou ao velho trôpego que corria quando o seu carro parava no semáforo: “Ó mais-velho, ali à frente tem dois carros grandes. Porque é que não foste lá pedir dinheiro?” – “Chefe, desculpa, eu sei que eles não vão me dar. Você és mulato. Tens a cor da sorte.” Ainda nesse Domingo, o menino pedinte nem parou no primeiro banco onde estavam três mais velhos a conversar e foi direto a ele. 

Mateus estendeu a mão e ofereceu o pacote de bolachas quase cheio ao José, que olhava para o enorme pedestal da estátua do fundador da nação, coberto de mármore e onde estava esculpido o poema mais conhecido do poeta-presidente. O irmão mais novo de José surgiu do nada e ambos começaram a trincar as bolachas. José perguntou: “Pai grande, o que é que está escrito aí?” – “Mas, ó José, quantos anos tens?” – “Tenho 15, pai.” – “Então, lá no Lobito, não estudavas? Nunca foste à escola?” – “Fui ainda, pai, até na segunda classe. Depois, o meu pai abandonou a minha mãe e fomos viver na sanzala com a minha avó e nunca mais estudei.”

A navalha de fogo que lhe atravessara as pernas alongou-se até aos fios da alma. Leu para os dois meninos: “HAVEMOS DE VOLTAR// Às casas, às nossas lavras/ às praias, aos nossos campos/ havemos de voltar// Às nossos terras/ vermelhas de café/ brancas de algodão/ verdes dos milharais / havemos de voltar// Às nossas minas de diamantes/ ouro, cobre, de petróleo/ havemos de voltar// Aos nossos rios, nossos lagos/ às montanhas, às florestas/ havemos de voltar// À frescura da mulemba/ às  nossas tradições/ aos ritmos e às fogueiras/ havemos de voltar// À marimba e ao quissange/ ao nosso carnaval/ havemos de voltar// À bela pátria angolana/ nossa terra, nossa mãe/ havemos de voltar// Havemos de voltar/à Angola libertada/ Angola independente."

José segurava o pacote vazio de bolachas. O irmão mais novo estava colado a ele, na irmandade das bolachas. Zé Mateus lembrou-se do dia em que lhe surrupiaram as bolachas na vila Salazar, quando tinha apenas cinco anos. José levantou o rosto e quis saber: “Pai grande, o que é a pátria angolana?” – “Filho, pátria angolana somos todos nós, eu, tu, a tua mãe, o teu pai que te abandonou, a tua avó, aquele polícia que está ali de pé, toda a gente que tem o bilhete de identidade angolano e a terra, José, as casas, os carros, tudo o que tu vês, o que está perto e o que não vês, lá longe, nas outras províncias, tudo isso é a pátria angolana.” – “Ah, está bem, pai. Mas o pai falou quem tem bilhete de identidade, pai. Eu não tenho bilhete, pai, então também não sou angolano, né?” A alma de Mateus estava em chamas. Pôs a mão direita na cabeça do seu xará: “Um dia vais ter o bilhete de identidade, José.” Saiu do largo, acompanhado de Kapuete e dos dois rapazes. Na esquina do velho edifício que olhava para o dorso da estátua de Agostinho Neto, José e o irmão pararam junto de dois cartões de papelão dobrados. “Pai, obrigado das bolachas. Nós dormimos aqui.” Mateus pôs-se a caminhar para casa à frente do cão. Derramou o fogo da navalha que lhe feria a alma sobre o olhar inocente do seu amigo e desabafou: “Kapuete, estas eleições não trazem nada de novo. Perante a desgraça que o povo angolano está vivendo, em qualquer parte do mundo, nenhum povo votaria outra vez no mesmo partido que já governa há 42 anos! Achas mesmo que os votos foram bem contados?”
 
3.
Ao meio-dia, Zé Mateus entrou em casa, Comeu uma banana, bebeu chá de caxinde, vestiu um bubu africano, perfumou-se, guardou a carteira dos documentos no bolso esquerdo das calças e saiu para a rua. Verificou se havia mensagens no celular. Havia uma: “Zé Mateus, por favor, me arranja só 15 mil kwanzas. Estou mesmo precisando.” Vinha do número da sua ex-colega Milu, que trabalhava na seção do arquivo. Milu estava separada do marido. Era mãe de quatro filhos que criava sozinha desde antes da separação, porque o ex-marido perdera o emprego. Mas a causa da separação não foi o vazio orçamental do marido. Ele batia na mulher. Zé Mateus respondeu, “Amanhã vejo a tua situação”, e ia a entrar para o carro, quando uma mulher com dois filhos pequenos o aborda: “Pai grande, desculpa. Tenho duas crianças, em casa não tem nada pra comer, mi dá só qualquer coisa, faz favor!” Durante a semana, Zé Mateus já tinha distribuído um décimo da sua aposentadoria a vários pedintes. Ele próprio retirava do salário o dízimo para os pobres. Naquele momento, esgotara esse dízimo. Amavelmente, respondeu àquela mãe: “Mãezinha, não me leve a mal. Eu sei que a senhora tem fome, mas eu não sou ministro. Sou aposentado, mãe. Não tenho como ajudá-la.”
 
4.
Tal como Mateus, Mamã Zabele nunca tinha saído do bairro Cruzeiro. Zabele já não comia cola e gengibre desde o longínquo ano de 1977, quando um primo dela, oficial dos Serviços de Inteligência, foi lá a casa prender a noiva de Mateus, porque a jovem tinha ido dançar três vezes na companhia do major Nito Alves. Vinte e cinco anos depois, Zabele deixara de falar e de ouvir. Transmitia a sua voz escrevendo num caderno que tinha sempre à mão. A sua surdez-mudez começou naquele dia em que estavam todos no quintal numa sentada familiar, a comer e a beber e a falar. Eram já 10 horas da noite. O segundo barril de cerveja tinha sido ligado à serpentina de gelo. Já se havia esgotado a reserva de conversas pacíficas, sobre esporte, ciúmes de mulheres, conjecturas sobre o novo ciclo de paz que o país estava vivendo. 

A enorme mesa engolia o repasto, agora composto de carnes grelhadas, e regurgitava um zumbido de vozes entrecortadas por gargalhadas de quem já nadava nos vapores da bebida. Num dos cantos da mesa, um sobrinho da anfitriã, o general Kambolo, meteu conversa antiga sempre nova com o companheiro ao lado: “Agora que o Savimbi morreu e a guerra acabou, parece que o governo vai finalmente resolver o problema das vítimas do 27 de Maio,” disse o general na reserva. “Eu próprio gostaria de saber onde para o corpo do meu irmão Ndombele.” – “Isso seria bom, na verdade,” respondeu o companheiro à sua direita, jornalista da televisão pública, “já passaram tantos anos, as armas calaram, é tempo de cicatrizar essa ferida aberta na história do nosso país. Passar, pelo menos, as certidões de óbito das pessoas desaparecidas…” – “Ó pá, vocês, jornalistas, pensam muito e, às vezes, fazem notícia por antecipação.” 

O conviva à esquerda do general, um jovem de t-shirt e calças jeans rasgadas nos joelhos, o cabelo com tranças no centro e a cabeça raspada nas laterias, meteu a colher na conversa. “Eu tenho as minhas reticências. O primo da mãe Zabele nunca vai confessar publicamente o que fez à sobrinha. Tu sabes o que é que os gajos da segurança faziam a muitas mulheres que prendiam? Uma das formas de tortura consistia em obrigá-las a comer o absorvente higiênico, quando as apanhavam no período menstrual. Isto foi o meu falecido irmão que me contou.” O general na reserva, que estava no centro da conversa, deu um beliscão pungente no braço do jovem. Ia passando atrás deles, com uma bandeja de cacussos grelhados, a própria mãe Zabele. A velhota continuou o seu caminho e depositou a bandeja no centro da mesa. “Será que a velha ouviu, mano?”,  perguntou Kambolo. “É, pá, não sei se ela esteve atrás de nós o tempo suficiente para nos ouvir… “, disse o general.

A velha Zabele retirou-se do quintal e foi para o seu quarto. Desde esse dia nunca mais proferiu nem ouviu palavra alguma. Comunicava por escrito. Zabele estava possuída por muitas vidas que a viviam. Essas vidas lhe entraram na alma, porque Mãe Zabele morreu três mortes na sua existência terrena. Morreu uma vez, quando o marido foi assassinado pelas milícias do colono, dois dias depois do levantamento armado do 15 de Março de 1961, no Norte de Angola. A vendeta dos colonos foi implacável e abrangeu a província de Malanje. Os brancos chegaram, à civil, armados de espingardas, bateram coronhadas na porta e o casal foi abrir: ”Você é que é o Benvindo Lopes da Costa, o terrorista?”, perguntou o chefe do grupo, lendo o nome numa lista que traziam. “Sim, sou, mas nunca fui terrorista.” – “Pensas que não sabemos que ligas o rádio, tu e mais dois teus vizinhos, o Damião e o Correia, mais conhecido por Kinino, todas as sextas-feiras, para ouvirem o programa dos terroristas de Kinshasa, o Angola Combatente?” 

Benvindo tremeu. Sabia que tinha chegado a sua hora. Uma saraivada de balas perfurou o seu peito e ele caiu como uma árvore cortada à machadada, no vão da porta. Os milicianos retiraram-se e mamã Zabele ficou a derramar lágrimas de desespero sobre o corpo do marido.

Zabele morreu pela segunda vez, quando lhe levaram a filha de vez em 1977. Foi quando perdeu o gosto da cola e do gengibre. Os colonos mataram-lhe o marido em 61, mas não mataram as mulheres. Só os homens. Agora, os que saíram do maquis, esses mesmos por quem o seu marido morrera, vieram levar-lhe a filha. Pelo menos então que a matassem na frente dela, para ela poder enterrar o corpo, fazer o komba e chorar sobre a sua campa.

A terceira morte de Zabele foi quando escutou, na sentada familiar, dizer que torturavam as mulheres com o próprio sangue da lua delas. Dessa vez, perdeu a fala e o ouvido. Acendeu o abajur da mesinha de cabeceira, abriu o caderno e escreveu: “Quero ver o meu genro Mateus.”

A neta de Zabele, uma menina dos seus 15 anos que cuidava da avó foi à casa vizinha chamar Mateus, ainda os pardais cantavam na velha palmeira que plantara há 42 anos, em memória da mãe morta por uma bala perdida do cano de alguma espingarda dos movimentos de libertação. A sombra da palmeira era a sombra da mãe dele. Na oração de plantação, Mateus perguntou ao vento que soprava calmo: “A minha mãe não morreu na mão do colono. Morreu na mão do próprio angolano. Foi para isto que lutamos pela independência?” O pai, velho colono angolanizado pela língua quimbundo e os hábitos da terra, chorou tanto que dos seus olhos caía uma argila transparente que se colava às paredes da sala do velório. 

A velha recebeu na face o ósculo de Mateus, olhou para ele, abriu os olhos desmesuradamente, e voltou a falar: “Meu filho, obrigado por amares tanto a minha querida Joana.” Ditas estas palavras, abraçou Mateus com força e fechou os olhos para toda a eternidade. Zabele tinha morrido pela quarta e última vez.

Durante um mês inteiro, o óbito encheu a casa da defunta de visitantes que vieram até de Malanje, sua terra natal. O passeio em frente fora inundado de cadeiras de plástico onde se sentaram os visitantes. O governo providenciou o apoio logístico, visto que o primeiro filho de Zabele fora comissário político das forças armadas nos anos 80. Oito mulheres se revezavam na cozinha, confeccionando o feijão de óleo de palma, o peixe frito e grelhado, o arroz branco, a mandioca e a batata doce cozidas, e o eterno funje de peito alto. Pela madrugada adentro, jogavam cartas e falava-se até esgotar os temas mais comuns e os temas mais altos da política. Algumas vezes só se ouviam risadas das anedotas que alguém sabia dizer com mestria. Uma máquina de tirar cerveja a copo foi instalada no quintal e os convivas dirigiam-se ao balcão das bebidas, pedindo um uísque, sucos, aguardente e café. Durante o velório, as irmãs da igreja católica cantaram salmos e hinos toda a noite. Cantaram em quimbundo. Mãe Zabele foi sepultada no cemitério do Alto das Cruzes, na campa do pai dela, funcionário dos Correios no tempo colonial. 

O enterro marcado para as 10 horas, só teve início às 11:30 h. O angolano nunca cumpre horário, nem na hora da morte. O pároco da igreja do Carmo fez a oração de encomenda da alma e Mateus proferiu o discurso fúnebre em honra da falecida: “Hoje, vamos a enterrar aquela que em vida se chamou Isabel da Conceição Lopes da Costa. Deixa-nos aos 78 anos de idade, depois de uma vida de grandes batalhas, uma vida construída ao lado do seu marido, o nosso pai Benvindo Lopes da Costa. Quem devia estar aqui hoje a acompanhar a nossa querida mãe Zabele seria a sua filha Joana. Infelizmente, a vida tem destas coisas: os filhos morrem antes dos pais. Paz às suas almas!”

Mateus defendia que não se deve torturar os vivos, de pé, em redor do ato de sepultar os mortos, com discursos pomposos, repetidos e prolongados. O caixão desceu à cova funda. Mateus foi o primeiro a atirar um punhado de terra vermelha sobre as tábuas da urna envernizada e, depois que a campa ficou completamente fechada, lançaram-se flores e foi posta, pela neta que cuidava de Zabele, uma coroa de flores com o nome da falecida. 
De regresso a casa, ali perto do cemitério, Mateus imaginou-se no Egito dos faraós. Na África, nós cuidamos dos mortos e enterramos os vivos, pensou. Esteve a mãe Zabele, na sua solidão dos últimos anos, e quase ninguém a visitava. Nem um ramo de flores lhe deram enquanto respirava. Agora, depois de morrer, a casa dela encheu-se de convivas. Fechara-se um ciclo na vida do bairro do Cruzeiro.

 
5.
Em setembro, o novo presidente tomou posse e o velho presidente deixava a cadeira com uma certa renitência, depois de 38 anos lá sentado. Saía do governo, mas iria ficar mais um ano a comandar o partido no poder, o partido que sempre ganhava as eleições com maioria absoluta ou qualificada e fazia votar no parlamento todas as leis que inventava. Saía, mas ficava. Ficava acoplado à Constituição da República que ele próprio promulgara, quando o povo estava anestesiado pela disputa do campeonato africano de futebol. No jogo inaugural, Angola estava vencendo o Mali por 4 a 0. A primeira dama, ao lado do presidente, batia palmas e sorria de contente. Mas, a dez minutos do final, o Mali empatou. Se o jogo continuasse por mais um minuto, Angola perderia por 5 a 4. Ia o CAN a meio, todos os olhos estavam postos na febre do esporte-rei, quando, no dia 5 de janeiro de 2010, José Eduardo dos Santos anuncia a vigência da nova Constituição. 

No dia seguinte, Zé Mateus dirige-se à Imprensa Nacional e compra a Lei Mãe. Muita coisa na lei era igual a de quase todos os países do mundo. O que lhe chamou a atenção foi a grande mudança introduzida pelo artigo 109º: “(Eleição): 1. É eleito Presidente da República e Chefe do Executivo o cabeça de lista, pelo círculo nacional, do partido político ou coligação de partidos políticos mais votado no quadro das eleições gerais, realizadas ao abrigo do artigo 143.º e seguintes da presente Constituição. 2. O cabeça de lista é identificado, junto dos eleitores, no boletim de voto.

Então Mateus telefonou de imediato para o seu amigo e compadre, ex-preso político e membro do bureau político do MPLA, que pretendia candidatar-se às eleições presidenciais de 2012: “Meu mano, já viste a nova constituição? Lê o artigo 109º.” – “Já li, Mateus. O Zedu deve ter lido O príncipe completo de Maquiavel. Acabou o sonho da democracia em Angola. E hoje em dia, meu mano, o futebol virou a liamba do povo.”
 
6.
No dia 26 de setembro, o mais alto mandatário do país tomou posse na varanda do Mausoléu Dr. António Agostinho Neto. Um cerimonial majestático abençoado pela chuva. Mateus viu o espetáculo político pela televisão. No seu discurso, o novo presidente rendeu homenagem a todos os heróis da pátria, e disse: “A resistência à presença colonial durou séculos e estendeu-se a vários pontos do território que é hoje Angola. Os nomes lendários de Ngola Kiluanji, Ginga Mbande, Ekuikui II, Mutu ya Kevela, Mandume, entre tantos outros, simbolizam essa heróica luta que inspirou os movimentos.” Já quase a encerrar a palavra, o presidente referiu que “a redução das desigualdades sociais passa por uma maior aposta no setor social, nomeadamente no acesso à educação e ao conhecimento, à assistência de base para todos, à segurança social e à assistência aos mais vulneráveis e desfavorecidos.” 

Mateus gostou desta parte e disse para o cão ao seu lado, vendo também televisão: “Meu velho Kapuete, parece que, desta vez, vamos ter um presidente de verdade.” O cão rodou a cabeça e apenas anuiu com um grunhido abafado.