A literatura como um espelho da sociedade Um tigre não anuncia sua tigritude, ele ataca!

Uma mulher escolhe livros em uma estante no pavilhão do país anfitrião Brasil na feira do livro em Frankfurt am Main 2013
Uma mulher escolhe livros em uma estante no pavilhão do país anfitrião Brasil na feira do livro em Frankfurt am Main 2013 | Foto (detalhe): Daniel Reinhardt © picture alliance /dpa

O sistema racista coloca na mesma prateleira e trata como “bloco monolítico mulher negra” um amplo e diverso grupo de autoras, aponta a escritora brasileira Cidinha da Silva.

Por Cidinha da Silva

Para discutir a questão proposta “o que minha identidade negra representa para a literatura que produzo”, é mister contextualizar brevemente o lugar ocupado pelas mulheres negras no sistema literário brasileiro, que inclui o mercado editorial e livreiro, as políticas públicas para o livro, leitura, literatura e bibliotecas – a produção autoral dessas mulheres, sua recepção e crítica.

Somos poucas. Somos raras. Mas isso não é o suficiente para sermos consideradas em nossa singularidade. Ao contrário, o sistema racista vale-se do expediente de agrupamento, com o objetivo de dizer que “somos todas a mesma coisa e por isso podemos ser colocadas na mesma prateleira e tratadas como o bloco monolítico ‘mulher negra’”. Em atitude complementar, existe uma forte tendência de um conjunto de mulheres negras escritoras de se apresentarem coletivamente como estratégia de proteção e fortalecimento. Daí decorrem expressões como: “A mulher negra escreve de tal jeito, sobre este ou aquele tema, considerando tais e tais premissas”, como se existisse a entidade “escritora negra” que nos representasse de maneira indistinta.

Adicionalmente, estamos agora solapadas por um debate epitelial sobre o “lugar de fala”, entendido como o direito de abordar ou não certos temas restritos aos sujeitos sociopolíticos que os protagonizam. A maneira rasa como essa demanda política tem sido enunciada na chave da também superficial noção de “empoderamento” oblitera a questão profunda proposta por feministas e grupos de esquerda há décadas, no sentido de exigir condições para que a voz dos que eram calados, apagados, subalternizados, pudesse ser pronunciada em alto e bom som e que houvesse escuta adequada.

Disputa de poder: algo maior que “empoderamento”

A expressão “lugar de fala”, em larga medida, tem funcionado como um tropo na contemporaneidade para dizer: “Você (branco, homem, pessoa cis) não pode falar porque já me apagou (pessoas negras, LGBTQI+, não binárias, mulheres negras), ignorou, violentou por tanto tempo que agora é minha vez de falar e você vai ficar calado”. É um tropo, haja vista que machismo, racismo, LGBTQfobia, entre outras estratégias de conquista de manutenção de poder de uns grupos humanos sobre outros, constituem-se como sistemas complexos, intrincados e bem maiores do que as pessoas. E disputa de poder é algo maior do que “empoderamento” de pessoas subalternizadas, mera ação externa à pessoa esvaziada de poder, ao supostamente investi-la de poder (“empoderá-la”).

Esse quadro inclui, entre outros resultados no mundo do livro, o surgimento recente da pequena seção “literatura de mulheres negras” em livrarias grandes e médias, uma espécie de “frango com tudo dentro”, na qual se misturam autoras de livros de autoajuda, de empoderamento, abordagens teóricas para todos os níveis de exigência e também literatura. Livros escritos por autoras brasileiras, estadunidenses, africanas e da Diáspora, notadamente aquelas que tiveram ou têm destaque nas principais plataformas e festivais de literatura legitimados e incensados pelo sistema literário, e que também gozam de lugares destacados no sistema midiático. Eu adoro essas seções, não se enganem. Acho importante que existam, torço (e trabalho) para que cresçam e tornem-se mais estruturadas, menos um “armarinho de secos e molhados”.

Enclausuramento na masmorra do “lugar de fala”

Dado esse contexto, como me posiciono? Como o tigre de Soyinka, eu ataco. Não peço autorização para falar, nem para ser quem sou. Tampouco me apequeno nos “lugares de fala” que o sistema literário e o sistema racista tentam definir para mim, pois isso nos circunscreve numa caixinha e deixa o restante do mundo para eles. A gente se enclausura na masmorra do “lugar de fala”, enquanto a política de geração, garantia e propagação de privilégios da branquitude segue ditada das torres do castelo.

Minha identidade negra me define e inscreve no mundo. Sei de onde vim, quem sou, onde estou (porque estou aqui) e onde quero chegar. Sou uma mulher negra e experimento todos os atravessamentos que isso engendra numa sociedade estruturalmente racista e racializada como a brasileira. Isso posto, sou livre e me proponho a discutir os processos envolvidos na produção dos 16 livros que publiquei em 13 anos de carreira.

Racismo subliminar

Dissecarei o racismo todas as vezes que ele se apresentar de frente ou se esconder nas entrelinhas, no que é subliminar, no não-dito dos processos criativos em que esteja envolvida. Mas esse é um entre os inúmeros temas que me interessam, me atravessam ou se impõem. E haverá sempre o desafio de como abordá-los, pois o “como” é o maior definidor do texto literário.

Os temas que de fato me entusiasmam, para além daqueles que a ética, o respeito absoluto aos direitos humanos e meu posicionamento crítico como mulher negra me obrigam a disputar, são: africanidades, orixalidades e o diálogo e tensão entre tradições (africanas, afro-brasileiras e afro-indígenas) e contemporaneidade. Sempre orientada pela máxima de que um tigre não anuncia (tampouco pede licença para) sua tigritude: ele ataca e impõe ao mundo sua existência.