Reavaliando a história colonial Uma viagem pela Berlim pós-colonial

Exposição no Museu Histórico Alemão
História comum | Foto (detalhe): © Marcel Runge

Em um projeto do Goethe-Institut de Joanesburgo, participantes de diferentes países africanos e da Alemanha aproximaram-se de sua história em comum. Três deles relatam suas experiências.

Um grupo pouco comum de turistas circulou por Berlim no segundo semestre de 2018. Eles visitaram o bairro africano em Wedding, viram uma exposição no Museu Histórico Alemão, encontraram-se com ativistas afro-alemães, historiadores da arte e curadores. O grupo havia sido convidado pelo Goethe-Institut para visitar a cidade e mergulhar em um período negligenciado da história: o passado colonial alemão. Até recentemente, essa época vinha sendo pouco lembrada no país e, durante muito tempo, não aparecia nem mesmo nos discursos de algumas das antigas colônias. Só há poucos anos é que o debate sobre essa história em comum ganhou impulso, sobretudo no setor da cultura, em contextos nos quais se discute formas de reavaliação e representação do tema na mídia, em museus e nas universidades.

Essa discussão inclui perspectivas bastante distintas. Durante a viagem dos convidados ao país, organizada pelo Goethe-Institut, ficou evidente o quanto experiências pessoais e históricas moldam a visão sobre o passado. Por exemplo, como o diretor do Goethe-Institut em Windhoek testemunha atualmente a reavaliação do colonialismo na Namíbia, como a curadora convidada da Tanzânia avalia o trabalho do Museu Histórico Alemão e o que liga uma artista sul-africana a ativistas da decolonização na Alemanha.

 No Museu Histórico Alemão em Berlim. No Museu Histórico Alemão em Berlim. | © Marcel Runge Daniel Stoevesandt assumiu em 2018 a direção do Goethe-Institut em Windhoek, pouco antes das negociações entre os governos da Alemanha e da Namíbia serem retomadas. Enquanto o assunto tem despertado a atenção da imprensa internacional e de personalidades alemãs ligadas à cultura, na Namíbia o passado colonial parece não despertar ainda um interesse mais amplo por parte da opinião pública. “Por aqui, a guerra de libertação da África do Sul continua sendo a narrativa mais importante”, conta Stoevesandt. Uma guerra vivenciada por vários políticos ainda hoje atuantes e que por isso mantém-se muito mais presente do que as ligações da Namíbia com a Alemanha. Apenas lentamente começa a emergir um debate sobre o passado alemão: “Nos últimos anos, ruas ou mesmo bairros foram sendo renomeados”, diz Stoevesandt. A rua Kaiser Wilhelm, por exemplo, passou a se chamar Avenida Independente, e o bairro Lüderitz leva agora o novo nome de ǃNamiǂNûs.
 
Em Berlim, o colonialismo é atualmente mais provável de ser encontrado no museu. No segundo semestre de 2018, o Museu Histórico Alemão inaugurou uma grande exposição sobre o passado colonial do país, que vem sendo desde então intensamente discutida. Entre outros, foram exibidos os acordos assinados na Conferência de Berlim (também conhecida como Conferência do Congo), bem como diversos objetos, selecionados com a intenção de ilustrar as relações entre a Alemanha e suas ex-colônias. “Na minha opinião, o Museu Histórico Alemão deveria ter focado muito mais no genocídio dos povos Herero e Nama”, diz a artista sul-africana Greer Valley. Segundo ela, teria sido desejável uma classificação histórica mais crítica daquele que foi o maior crime da história colonial alemã, além de referências mais detalhadas à história da colonização europeia. Também Stoevesandt pensa que a apresentação de determinados assuntos teria sido comentada de forma muito mais incisiva, se a exposição já não tivesse sido planejada há tanto tempo. “O debate sobre o tema da decolonização começou realmente a pulsar há um ano e meio atrás. Hoje, o tema tem sido tratado em um nível bem mais amplo”, explica ele. Além disso, em Berlim discute-se também sobre a renomeação de ruas e a memória dos crimes coloniais em espaços públicos da cidade, assim como sobre a forma de se lidar com arte saqueada e a conduta possivelmente um pouco arrogante em relação ao palácio da cidade, recentemente reconstruído, e sua coleção no Fórum Humboldt.

 No Museu Histórico Alemão em Berlim. No Museu Histórico Alemão em Berlim. | © Marcel Runge “Preciso dizer que o comportamento, em parte muito emotivo, de alguns opositores do Fórum Humboldt não torna o debate, a meu ver, exatamente mais fácil”, comenta Stoevesandt. Na visão de Greer Valley, a situação é completamente outra: “Dou meu apoio absoluto aos protestos radicais de iniciativas como a ´No Humboldt 21´, que examinam mais de perto os responsáveis pelas decisões políticas e culturais”, diz ela. Valley, que se considera parte dos atuais movimentos de protesto organizados nas universidades sul-africanas, vê uma conexão entre os esforços de decolonização que ocorrem em seu país e o atual ativismo na Alemanha. “Acredito que questões como a da arte saqueada e a das estruturas de poder entre curadores alemães e africanos serão certamente abordadas no Fórum Humboldt. No entanto, resta saber se todas essas diferentes perspectivas ligadas a esses assuntos serão realmente levadas em consideração, no fim das contas”, completa.

Flower Manase, curadora da Tanzânia, vê com reservas a coleção que futuramente será mostrada no Fórum Humboldt. “Como se pode falar de herança compartilhada, quando essa herança cultural foi, na verdade, obtida de forma ilegal?”, pergunta ela. Justamente por causa dessas diferentes visões é que Manase defende um intenso intercâmbio entre curadores alemães e africanos. Ela foi uma das curadoras a quem o Museu Histórico Alemão recorreu para preparar a exposição sobre o colonialismo. “Senti-me ativamente envolvida nesse projeto e os curadores alemães realmente fizeram com que eu me sentisse bem-vinda, diz ela. No entanto, Manase acredita que tanto ela quanto sua colega da Namíbia foram convidadas a participar do projeto em um momento no qual já não mais poderiam exercer uma influência significativa: “Se quisermos criar exposições e apresentar coleções que também sejam delineadas e comentadas pelo lado africano, precisamos trabalhar em conjunto de maneira muito mais estreita”, completa Manase.

Em Berlim, o colonialismo pode ser encontrado no momento no museu. Em Berlim, o colonialismo pode ser encontrado no momento no museu. | © Marcel Runge Para os participantes da viagem a Berlim, ficou claro que o intercâmbio com outros países africanos parece ser decisivo neste contexto. “Conversar com Beatrix Munyama foi a experiência mais marcante dessa jornada”, diz Greer Valley. Foi só através da bailarina que ela tomou conhecimento das crianças namíbias da então Alemanha Oriental, como eram conhecidas. Munyama atuou em uma performance de dança focada no destino dessas crianças, que foram enviadas à então RDA pela SWAPO no fim dos anos 1970. Munyama relatou a Valley e a outros participantes do grupo dados a respeito desse capítulo da história afro-alemã que a maioria das pessoas desconhece. “Na escola, todos só vêem seu próprio passado colonial e o movimento de independência”, diz Valley. “Você raramente ouve alguma coisa sobre a história de outros países”, completa.
 
Na Tanzânia, explica Manase, o passado colonial é mantido vivo através da cultura oral e da educação escolar. Na África do Sul, segundo Valley, o debate passa por uma mudança de conteúdo nas universidades. Os países da África Ocidental, diz ela, parecem recorrer a outros mecanismos: “Nossos colegas da República dos Camarões não parecem ter problemas em ver objetos de arte tirados de sua cultura sendo expostos em museus alemães. Eles até acham que esses objetos estão em melhores mãos na Europa do que na África. Um ponto de vista ao qual me oponho totalmente”, afirma, Valley. 

O intercâmbio parece, portanto, ser a chave para o desenvolvimento de uma postura aceitável para todos a partir das diferentes perspectivas, especialmente quando o Fórum Humboldt abrir , demonstrando sua ambição de estabelecer um intercâmbio global. O diálogo entre os próprios países da África será tão importante quanto a colaboração estreita entre esses países e a Alemanha.