Arte decolonial Açúcar negro

Da série "Sapatos de açúcar" (2018), de Tiago Sant’Ana. Performance no antigo Engenho de Freguesia, em Candeias
Da série "Sapatos de açúcar" (2018), de Tiago Sant’Ana. Performance no antigo Engenho de Freguesia, em Candeias | Foto: Maiara Serqueira © Tiago San't Ana

Artes visuais contra o esquecimento: Tiago Sant'Ana mantém viva a memória da arquitetura e dos artefatos coloniais no Brasil. Ele utiliza contrates em preto e branco com especial frequência.

“Faço performances em antigos engenhos de açúcar na região onde nasci. É muito doloroso notar que as histórias da violência colonial nesses lugares não estão mais sendo contadas.”

Da série "Refino", performance em vídeo de Tiago Sant’Ana (2017), feito no antigo Engenho de Oiteiro, Terra Nova, Bahia. Da série "Refino", performance em vídeo de Tiago Sant’Ana (2017), feito no antigo Engenho de Oiteiro, Terra Nova, Bahia. | © Tiago San't Ana Em sua arte – fotos, vídeos, performances – Tiago Sant'Ana frequentemente tem o açúcar como mote central de imagens em preto e branco sobre o tema da escravidão no Brasil: o açúcar branco produzido por negros, primeiro por pessoas escravizadas africanas e depois por seus descendentes também escravizados, os afro-brasileiros.

“Sempre tive sérios problemas com o termo ‘pós-colonial’. A razão é que isso implica que haja um ‘pós’ – um tempo depois do colonialismo – ou que, talvez, o tempo colonial tenha acabado. Essa expressão pode causar ruído na comunicação”, explica o artista brasileiro no chat do Latitude sobre o assunto: “Será que realmente vivemos na era do pós-colonialismo?”. Tiago Sant’Ana: “E sabemos que não há pós-colonial, porque ainda vivemos em um ambiente que atualiza os sistemas coloniais”.
 
  • Da série de Tiago Sant’Ana intitulada "Sapatos de açúcar" (2018). O artista faz um retrato de si mesmo em frente à Ilha de Maré, localizada na Baía de Todos os Santos. Foto: Maiara Serqueira © Tiago San't Ana
    Da série de Tiago Sant’Ana intitulada "Sapatos de açúcar" (2018). O artista faz um retrato de si mesmo em frente à Ilha de Maré, localizada na Baía de Todos os Santos.
  • Da série de Tiago Sant’Ana intitulada "Sapatos de açúcar" (2018). O artista faz um retrato de si mesmo em frente à Ilha de Maré, localizada na Baía de Todos os Santos. Da série de Tiago Sant’Ana intitulada "Sapatos de açúcar" (2018). O artista faz um retrato de si mesmo em frente à Ilha de Maré, localizada na Baía de Todos os Santos.
    Da série de Tiago Sant’Ana intitulada "Sapatos de açúcar" (2018). O artista faz um retrato de si mesmo em frente à Ilha de Maré, localizada na Baía de Todos os Santos.
  • Da série de Tiago Sant’Ana intitulada "Sapatos de açúcar" (2018). O artista faz um retrato de si mesmo em frente à Ilha de Maré, localizada na Baía de Todos os Santos. Foto: Maiara Cerqueira © Tiago Sant’Ana
    Da série de Tiago Sant’Ana intitulada "Sapatos de açúcar" (2018). O artista faz um retrato de si mesmo em frente à Ilha de Maré, localizada na Baía de Todos os Santos.
  • Instalação da série "Cana-coluna" (2018), de Tiago Sant’Ana: cana-de-açúcar feita de gesso Foto: Fernando Souza © Tiago San't Ana
    Instalação da série "Cana-coluna" (2018), de Tiago Sant’Ana: cana-de-açúcar feita de gesso
  • Da série de Tiago Sant’Ana intitulada "Sapatos de açúcar" (2018). Performance no antigo Engenho de Freguesia, em Candeias Foto: Maiara Cerqueira © Tiago Sant’Ana
    Da série de Tiago Sant’Ana intitulada "Sapatos de açúcar" (2018). Performance no antigo Engenho de Freguesia, em Candeias

Em 2018 houve uma grande exposição no Brasil sobre o tema "Histórias Afro-Atlânticas", conta Tiago Sant’Ana no chat do Latitude. “Nessa exposição, a ideia do trauma colonial foi central na discussão. Foi uma das exposições mais bem-sucedidas no Brasil nos últimos anos. E deu visibilidade a artistas que pensavam criticamente sobre os fluxos de colonização nos continentes africano e americano. Existem hoje no Brasil muitas pessoas que pensam arte e educação como setores que mudam o imaginário da população. Acredito que ambas operam no campo das micropolíticas, ou seja, elas mudam subjetividades”.

Sapatos como símbolo

De forma análoga ao uso do material açúcar como um símbolo da história do Brasil, Tiago Sant’Ana utiliza frequentemente a combinação entre pés descalços e sapatos em sua arte: pés nus de pessoas negras carregando seus sapatos pendurados nos ombros. Lilia Moritz Schwarcz explica o que isso significa em seu ensaio Com açúcar e sem afeto, sobre a exposição “Casa de purgar”, de Tiago Sant’Ana (2018), que passou pelo Museu de Arte da Bahia, em Salvador, e pelo Paço Imperial, no Rio de Janeiro:

“No Brasil, os sapatos sempre foram uma forma de distinguir os escravizados das pessoas livres. O impedimento nunca consistiu em uma lei escrita, mas persistiu através da incontestável força do hábito. De fato, sapatos eram proibidos aos cativos que, não importando a forma como se vestissem, fossem eles escravos domésticos, mineradores ou urbanos, eram sempre representados com seus pés no chão, no cimento das cidades, próximos à sujeira. O peso da ‘falta’ foi tamanho que, logo após o 13 de maio de 1888, data da abolição formal da escravatura no Brasil, testemunhas disseram que muitos correram às lojas para comprar os desejados objetos. No entanto, como seus pés estavam acostumados à dura rotina do dia a dia, à fúria do trabalho pesado, em pouco tempo as bolhas e calos cresceram. Assim, muitos homens e mulheres libertos foram vistos, felizes e orgulhosos, carregando sobre seus ombros sapatos amarrados um ao outro por seus cadarços, como se fossem troféus de liberdade. E eles de fato eram… Símbolos fortes, os sapatos se tornaram sinônimos de liberdade”.
  • Da série "Ao rés do chão", de Tiago Sant’Ana, 2018 © Tiago San't Ana
    Da série "Ao rés do chão", de Tiago Sant’Ana, 2018
  • Da série "Ao rés do chão", de Tiago Sant’Ana, 2018 © Tiago San't Ana
    Da série "Ao rés do chão", de Tiago Sant’Ana, 2018
  • Da série "Ao rés do chão", de Tiago Sant’Ana, 2018 © Tiago San't Ana
    Da série "Ao rés do chão", de Tiago Sant’Ana, 2018
No chat do Latitude, Tiago Sant’Ana descreve sua visão do futuro: “Não haverá mudança se não criticarmos a visão oficial (normalmente branca e eurocêntrica) da história da colonização. Continuo pensando que a mudança só virá através da imaginação política de uma nova realidade”.