Edição II (2025-2027)
Traducción crítica
Traducción crítica | © Goethe-Institut Chile | Foto: Felipe Hurtado
O projeto aborda a tradução não como um processo de conversão de palavras de um idioma para outro, mas como uma revelação das camadas de interpretação, distorção e ressignificação subjacentes a cada discurso, transformando o espectador em um ator que decide para onde levar sua versão de qualquer obra que presencie, interagindo a partir/com essa ferramenta.
O aplicativo permite intervir nos textos de qualquer obra em tempo real, sempre expandindo seus sentidos, pois multiplica as possibilidades de uma mensagem em vez de fechá-la. Como no sfumato de Da Vinci, onde as formas deixam de ter limites definidos, Traducción Crítica gera uma experiência de significado em constante transformação.
Entendemos a tradução como um ato de empoderamento e possibilidades. O significado nunca é fixo. Mesmo dentro do mesmo idioma, a comunicação é atravessada por tensões culturais, ideológicas e políticas que alteram a percepção de uma mensagem. Em um mundo saturado de discursos — publicitários, políticos, midiáticos — Traducción Crítica cria um espaço onde a tradução deixa de ser uma equivalência mecânica para se tornar um ato político, poético e performático de significado sempre ativo, nunca totalmente fechado.
Por isso, o app Traducción Crítica foi concebido para desvendar o significado cultural de cada obra intervencionada e suas relações conceituais e experienciais, atravessando temas como autodeterminação e sentido coletivo. Além disso, gera perguntas sobre outros possíveis significados e implicações em diferentes contextos.
Espera-se que o aplicativo possa ser usado diante de diferentes eventos, revelando seus significados culturais e políticos ocultos, ao mesmo tempo em que exalta a essência performática dessas ações aparentemente cotidianas. Trata-se de criar espaços onde os significados possam ser questionados e o consumo de ideias se torne um exercício consciente. Traducción Crítica é um processo de emancipação e uma questão de oportunidades, mais do que uma simples ferramenta técnica.
O projeto é integrado por Diego Aramburo, Claudia Pacheco Araoz e Ariel Siles, e conta com a colaboração de Diego Loza.
Traducción crítica
Novo Mérìndilogún
Novo Mérìndilogún | © Goethe-Institut Chile | Foto: Felipe Hurtado
Mérìndilogún é um oráculo de 16 búzios, com raízes africanas e reconhecimento no Brasil, com presença especial na Bahia. Inspirado na lógica algorítmica de um oráculo, o “Novo Mérìndilogún” é uma investigação em arte performática e tecnologia com o objetivo de desenvolver um dispositivo oracular contemporâneo inspirado nessa tradição afro-brasileira. Assim como no jogo tradicional, em que a queda das conchas revela caminhos e sentidos, o projeto investiga como estados psicofísicos e mentais podem se transformar em sons e ser ouvidos como consulta dentro de um evento cênico-performático — uma previsão da ação antes da ação. A pesquisa parte do corpo da performer e se expande para o público, que será convidado a experimentar a performance como um espaço oracular de leitura do presente.
O projeto busca transformar emoções, tensões e sensações em paisagens sonoras ao vivo por meio de um dispositivo híbrido que capta e traduz sinais cerebrais e corporais, adivinhando as ações. A performer atua como ritualizadora em uma performance de oráculo. Finalmente, a metodologia do “Novo Mérìndilogún” combina neurofeedback (EEG) para converter ondas cerebrais em “quedas” oraculares, o Método das Ações Físicas (Stanilavski/Grotowski) para induzir estados de fluxo e gerar dados dramatúrgicos, e a sonificação com live coding para processar e improvisar em tempo real, criando texturas e timbres que respondem aos estados físicos e mentais em cena.
O projeto será realizado de forma híbrida, combinando encontros online na fase inicial de pesquisa com imersão presencial para promover a interação direta entre artistas, espaço e público.
Novo Mérìndilogún
Grasa
Grasa | © Goethe-Institut Chile | Foto: Felipe Hurtado
O trabalho surge como continuidade das colaborações entre Valladares, Errada e C. Guevara, em linha com obras anteriores como Fisura (2020) e Práctica de culos (2024). Nesta última, foi utilizada uma câmera sob uma cadeira acrílica para projetar o corpo por baixo, juntamente com um microfone de contato que captava as frequências graves do movimento. A deformação da gordura ao entrar em contato com a superfície da cadeira, suas dobras e deslocamentos, transformavam-se em material visual e sonoro. Essa operação estética permitia evidenciar e revalorizar o que culturalmente foi marginalizado ou silenciado.
GRASA retoma e expande essas explorações, abordando a gordura como um tecido historicamente carregado de preconceitos. Em contextos em que predomina a normatividade corporal, a gordura é muitas vezes interpretada como excesso, descuido ou doença. No entanto, o projeto propõe uma visão alternativa: a gordura como reserva energética, como proteção dos órgãos, como reguladora térmica e como superfície sensível que vibra, emite sons e se transforma.
Longe de oferecer uma representação tradicional do corpo, a proposta apresenta uma experiência imersiva que interpela os sentidos e as construções sociais do espectador. Ao articular ferramentas tecnológicas com práticas performáticas, GRASA instala uma poética da vibração, da pressão e da densidade, convidando a reconfigurar os afetos e discursos que se aderem ao corpo e seu volume.
Este trabalho não busca falar “sobre” a gordura, mas fazê-la aparecer, desdobrá-la como fenômeno estético e afetivo, como um lugar a partir do qual repensar a relação entre matéria corporal e a visão social. Nesse sentido, GRASA é também uma ação política: desmonta imaginários normativos, desestabiliza cânones e abre um espaço de visibilidade para corporeidades não hegemônicas.
GRASA transforma a matéria gorda em um território de exploração, resistência e criação, propondo diversas formas de ouvir, ver e sentir o corpo.
Casi materia
Casi materia | © Goethe-Institut Chile | Foto: Felipe Hurtado
O projeto Quase matéria propõe a pesquisa e a criação de uma encenação híbrida que explore a maternidade em um contexto meta-contemporâneo. Por meio da criação de hologramas, propõe-se gerar uma criança virtual que acompanhe a protagonista em cena até sua morte. Nos interessa investigar a relação entre dispositivo - solidão - maternidade, entendendo que as novas mídias redefinem os laços emocionais.
A partir deste trabalho, nos perguntamos: como a experiência humana muda quando a presença física é substituída por um simulacro digital?
Tomando como referência a pensadora norte-americana Sandy Stone, pensamos a identidade como um processo performativo e não fixo, onde seria possível alcançar a humanização do artificial. Para desafiar os limites do biológico, tomamos como referência a teoria ciborgue da filósofa Donna Haraway, que teoriza os corpos mediados pela tecnologia e rompe com a noção conservadora do que significa “ser humano”.
O que significa ser humano?
O projeto propõe um formato híbrido de trabalho que possibilita a interação entre o corpo físico da performer Ximena Echevarría e a presença de um filho virtual, desenvolvido pela realizadora audiovisual María Victoria Parada, que projeta e pesquisa com tecnologias de projeção interativa. Esta narrativa transmídia é codirigida por Ximena Echevarría e Bruno Acevedo Quevedo, os três artistas irão desenvolver a dramaturgia integral do projeto com a intervenção da IA. O resultado é uma experiência imersiva que pode ser montada tanto em salas de teatro como em espaços não convencionais, nos quais trabalha a Implosivo Artes Escénicas, responsável pela produção do projeto.
“Nossas máquinas estão inquietantemente vivas e nós, terrivelmente inertes”
-Donna Haraway, Manifesto Ciborgue.
Entre la vigilia y el sueño. Transcodificaciones entre lo escénico y lo digital.
Entre la vigilia y el sueño | © Goethe-Institut Chile | Foto: Felipe Hurtado
Projeto cênico-digital que explora a fronteira entre o sonho e a vigília por meio de palimpsestos visuais, sonoros e de realidade virtual.
Este projeto aborda a relação entre sonho e vigília como uma experiência poética e coletiva, vinculando-a à criação artística em contextos de privação de liberdade. Ele cruza linguagens cênicas e tecnologias imersivas para gerar novas formas de dramaturgia e participação, ao mesmo tempo em que alimenta um arquivo vivo de sonhos que se transformam em material criativo e narrativo. Seu caráter flexível permite a adaptação a diferentes espaços e contextos, problematizando o social a partir do estético e do digital, com base em três dimensões transversais:
O estético: O sonho e a vigília são concebidos como conceitos inseparáveis, explorados como uma forma poética de entender o “mundo-sonho” coletivo. Para isso, são utilizadas histórias escritas e orais de pessoas privadas de liberdade, transformadas em materiais criativos com múltiplos significados.
O cênico-digital: Experimenta-se com a Realidade Mista Compartilhada, onde os espectadores participam ativamente a partir de diversas perspectivas. A obra é vivida entre o íntimo e o coletivo, em tempos simultâneos ou diferidos.
O arquivo: Os sonhos coletados formam um arquivo sonoro aberto e em constante construção. Mais do que um registro, os sonhos são matéria-prima para criar e narrar problemáticas sociais, afastando-se de versões finalizadas por meio da transmídia.
Plasticidade: O projeto se baseia na capacidade de adaptação de seus materiais e espaços. Com um dispositivo cênico simples, mas flexível, pode habitar teatros, salas de exposições ou espaços penitenciários.