Depois de mim o dilúvio? Natureza – Cultura: Arte

Sempre uma jogada a mais

“Cristo”, trabalho em progresso, de Manuela Infante (Chile, 1980) Compañía Teatro de Chile; Foto: Álvaro BenítezApontamentos sobre o simpósio “Câmbio de olhar: câmbio de imagem”.

Com acerto e plasticidade, uma crítica comparou a um jogo de futebol os debates do simpósio intercultural “Câmbio de olhar: câmbio de imagem”, realizado no âmbito do programa paralelo das XXXIV Jornadas de Teatro de Mülheim “Stücke 09”, organizado em cooperação com a Sociedade de Teatro e Mídia da América Latina e o Theater an der Ruhr. Vivacidade e flexibilidade. “A arte do bate-bola marcou os debates sobre como as imagens determinam nosso raciocínio, expressam uma visão de mundo, uma forma de ver os outros – dentro de uma cultura ou entre culturas diferentes –, na vida e no teatro. O simpósio de Mülheim mostrou, particularmente através das explicações acerca da essência das imagens, que o encontro com as imagens – muitas vezes só aparentemente – rígidas na ciência, na arte e em especial no teatro revela seu caráter dinâmico e pode dar impulsos ao jogo no trato da realidade, da percepção e do entendimento.

Com sua intervenção inicial, “Pensar em imagens”, Kati Röttger, professora de Ciências Teatrais em Amsterdã e presidente da Sociedade de Teatro e Mídia da América Latina, lançou no campo de debates ideias substanciais acerca do tratamento das imagens no teatro, na arte e nos meios de comunicação. Ela tematizou a traduzibilidade, a explosividade, a valia e o valor agregado da imagem na nossa época de avalanche global de imagens, muitas vezes de conotoção negativa e que foi descrita há anos por Guy Debord como a “era do espetáculo”. Kati Röttger focou concretamente a relação entre a linguagem e a imagem no teatro, questionando a traduzibilidade idiomática de “What bloody man is that?”, de Macbeth, para o alemão e, além disso, refletindo sobre sua implementação em atos teatrais e performáticos no palco. Será que o teatro, com sua comunicação viva entre seres humanos, se encontra em pé de guerra com a imagem no palco, pensada muito mais estaticamente?

Kati Röttger lançou a bola de suas reflexões para a seguinte questão: por que, apesar disso, faz sentido falar de imagens no teatro? Abandonou a divisão hierárquica de ideia e imagem que desde Platão até hoje marca o pensamento ocidental e seguiu a argumentação do teórico da imagem Tom Mitchell no sentido de “voltar a ver as ideias efetivamente como imagens”. Ela retomou a proposta de Mitchell de observar “a forma como ilustramos o ato da ilustração, apresentamos a atividade do poder imaginativo e representamos a prática da representação”. Segundo Röttger, Mitchell convida o espectador a “transformar-se em espectador de imagens da reflexão em e sobre imagens”. O que nos permite uma reflexão em e sobre imagens não é só o “teatro na cabeça, mas o teatro vivo diante de nossos olhos”, acrescentou Röttger. Referindo-se ao teórico das imagens Hans Belting, para quem as imagens mentais e materiais não existem separadamente no comutador que é o corpo humano, Röttger observou que “na linguagem do teatro, a percepção e a execução de imagens acontecem entre a produção, a apresentação e a representação”. Dessa forma, o cenário pode visualizar a reflexão em e de imagens, permitindo a compreensão dos processos de transmissão. Para além da função da linguagem de dar sentido às coisas, o teatro assume um poder de mostrar, como expressou certa vez o historiador da arte Gottfried Boehm.

Como conhecedora da América Latina, uma região em cuja história cultural as imagens impostas foram frequentemente subvertidas, Röttger mostrou que particularmente o teatro pode contribuir para aguçar a visão e “romper a dinâmica da transmissão de imagens em relação a traduções (e isso através dos meios mais diversos, como linguagem, corpo, espaço etc.)”, sem ignorar as diferenças em um mundo globalizado. Sem dúvida, nesse contexto os olhares encontram-se sempre embasados em relações de poder. Baseando-se em seu colega Alexander Jackob, Röttger fez menção ao acontecimento do olhar que ocorre no teatro, “esse contraste essencial com o entorno no qual se mostra a imagem. Isso acontece na encenação do olhar”. Na ocorrência do olhar consuma-se, segundo ela, uma tensão entre imagens visíveis e invisíveis, sempre unida ao invisível, ao indeterminado e ao ausente no nosso olhar. Em particular, o trabalho teatral do argentino Rafael Spregelburg é para ela um exemplo de como “na desconfiança com respeito à visibilidade se esconde uma desconfiança com respeito às palavras que reclamam um direito à realidade”.

Segundo Röttger, a atenção dedicada aos mal-entendidos e ao não ver, que se deriva em parte do temor de influências, deveria ser sempre levada em conta no diálogo entre diferentes culturas. Nesse contexto, o teatro representa olhares e imagens em níveis muito diferentes, apresentando-os como modelos de pensamentos transformáveis. Nisso, o teatro desempenha um papel-chave para a reflexão em imagens e o entendimento intercultural, como Kati Röttger tornou tangível em sua exposição teórica.

A perita em meios visuais Dorothée Bauerle-Willert, moderadora da mesa-redonda “O valor da mudança das imagens”, ressaltou “a sedução como lógica própria das imagens” que nos leva para além das fronteiras que talvez nós mesmos não podemos traçar. Assim como a autoconcepção cultural de América Latina é comparada certas vezes a um espelho cheio de rachaduras, de forma parecida os mal-entendidos, as transposições e as mudanças demonstram ser produtivos, porquanto mostram que costumes visuais são rompidos e incluídos em um jogo sedutor e sobretudo desafiante.

O diretor, dramaturgo, ator e escritor Rafael Spregelburd esboçou em sua apresentação “A imagem perpétua” – que gerou um debate polêmico – uma história da imagem e dos meios de comunicação, “um processo entrópico, uma diminuição da energia simbólica desde o ídolo até o virtual”, na qual o ícone com conotação divina da Antiguidade é substituído na era moderna pela imagem artística e na era digital da avalanche global de imagens por um turbilhão de imagens virtuais, flutuantes e públicas, mas que são simultaneamente consumidas de forma privada. O interessante é que os trabalhos de Spregelburd contradizem esta versão apocalíptica de um mundo de imagens sem alteridade, no qual nada há de oculto. Seus textos teatrais brincam com o oculto nas e por trás das imagens, ainda que eles, segundo o próprio autor, justamente nas encenações alemãs sejam mal-entendidos e levados ao palco com imagens excessivamente concretas.

O teatrólogo de Frankfurt Hans-Thies Lehmann retomou a bola da história dos meios de comunicação, que Spregelburd lançara no jogo, mas desviou para outra direção, rebatendo a tese de uma diminuição do valor de troca das imagens na avalanche digital de imagens e refletindo sobre as possibilidades que a imagem oferece na arte e no mundo, no sentido de “uma estética e das técnicas de chamar atenção e focalizar”. Também Lehmann referiu-se a imagens com lacunas e fraturas, através das quais os seres humanos “se transformam em sócios no esboço de mundos possíveis”. Seguindo Brecht, definiu a arte como uma espécie de imitação antecipada” (Vor-ahmung), através da qual particularmente o teatro se transforma numa forma artística de expressão estética das relações intersubjetivas, considerando, no entanto, menos uma comunidade de significados do que uma “comunidade não representável” (Jean-Luc Nancy), na qual se trata de uma “investigação dispersa, multifacetada, imperfeita e muitas vezes sem sentido das relações humanas no teatro contemporâneo e na perfor­mance”.

O diretor e teórico brasileiro Sérgio de Carvalho focalizou o tema de outro ângulo. Baseando-se em suas experiências de muitos anos com o teatro grupal em São Paulo, atribuiu a questão sobre o valor de troca da imagem a uma análise crítica das manifestações capitalistas tardias da sociedade: “É no combate trans-estético que a imagem reencontra a chance de alienar seu valor de troca em função de uma nova utilidade. Nesse sentido, vale a pena voltar a pensar na possibilidade de representação e narrativa, desde que a vivência crítica da dimensão presencial do teatro seja capaz de romper o presente absoluto no tempo”. Carvalho descreveu o trabalho teatral com membros do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), integrado através de fragmentos fílmicos na encenação de O Círculo de Giz Caucasiano da Companhia do Latão. Dessa forma, o texto de Brecht foi ampliado com o debate contemporâneo sobre o direito à propriedade da terra no Brasil, e no jogo com os espectadores foi introduzida a própria realidade histórica. Carvalho enfocou a força explosiva das imagens em sua dimensão política por meio do exemplo concreto das discussões socioculturais no Brasil.

Com autoironia, a autora e diretora chilena Manuela Infante descreveu por sua vez como o conhecimento e a orientação são determinados hoje pelas buscas no Google, passando em seguida ao tema da hibridação cultural da América Latina que cunha tanto o modo de lidar com a identidade como a criação artística. Na encenação de Cristo por seu grupo Teatro de Chile, a figura de Cristo se transforma numa “realidade construída por repetições de representações, por citações de citações e cópias de cópias, como a produção em retrospectiva de uma origem [...], criando uma estrutura abismal do original, do representado, do real, porque tornar algo visível é sempre converter algo em invisível”. Através de Cristo, Manuela Infante convidou para uma viagem no carrossel das imagens que devolveu à percepção do espectador as dúvidas acerca de seu imediatismo, sua presença cênica e sua espontaneidade. “Cristo enfoca assim a quantidade, o fluxo e a sobreposição das imagens, mais do que as imagens em si.” Manuela Infante apresentou Cristo como uma peça de teatro emaranhada, mas simultaneamente esclarecedora, quase purificadora da nossa percepção atual, por trás da qual surgem a “história como construção de uma realidade” e a “realidade como construção histórica”.

Na partida “Câmbio de olhar: câmbio de imagem” em Mülheim, as lacunas e fraturas, o desconcertante e diferente constituíram o jogo intercultural de equipe dos participantes. Não tanto o esteio cultural concreto da arte, mas os espaços intermediários, as interrupções e a estranheza continuam repercutindo como desafios. Resta o desejo de outras partidas, de um mundo (da arte) tão marcado pela ambiguidade das imagens: tanto aqui como lá.
Uta Atzpodien
é dramaturga, organizadora de projetos e autora. Em 2005 publicou seu livro sobre o teatro brasileiro da atualidade Szenisches Verhandeln. Brasilianisches Theater der Gegenwart. Desde a década de 1990, tem trabalhado para festivais internacionais de teatro e dança e para projetos teatrais na América Latina e na Alemanha. É membro da Sociedade de Teatro e Mídida da América Latina.

Tradução: Maria José de Almeida Müller
Copyright: Goethe-Institut e. V., Humboldt Redaktion
Novembro 2009
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