A arte da Independência... e algumas reflexões sobre o heroico

Que tesouro mora dentro de nossos corpos…

Pina Bausch no ensaio geral de “Café Müller”, em 15 de maio de 2003 © picture-alliance/ dpa E quantas histórias podem ser contadas, sem que seja dita uma frase sequer. Em memória de Pina Bausch.


Levantar, cair,
cambalear, desabar,
escorregar, agarrar, soltar,
saltar, avançar às pressas, dar uma cambalhota,
tombar,
rolar, buscar proteção,
se endurecer, se contrair,
fincar as garras, deitar o braço em torno de alguém,
se tocar e se afastar de novo,
se deixar erguer, se fazer carregar, se deixar cair,
baixar a cabeça, chorar, rir, se regozijar, casquinar,
jubilar, bufar, soluçar
deslizar, tropeçar, saltitar, rolar, despencar...
andar, caminhar, correr, disparar, estacar,
parar...
bancar a boba,
perder um sapato e seguir num pé sobre o outro,
estufar o peito, flanar em passo macio,
se embalar, se aninhar,
balançar, bater o pé com impaciência,
ser deixada, em pé, abandonada,
levantar o queixo,
baixar os olhos,
rastejar,
ser humilhada,
e ser idolatrada...
O batom que borrou!
A saia que escorregou!
A manga arregaçada!
A camisa que saiu das calças.
A língua pendente,
o cabelo esvoaçante,
o indicador em riste,
a espinha dobrada,
a cabeça erguida...
Homens se mexem
e enquanto esses gestos, saltos, passos...
levados à ribalta por Pina, são encenados,
destacados
e conscientizados,
muitas vezes com graça, mas sempre leves e jamais “prenhes de significado”,
de repente se a vê assim,
como se jamais antes se tivesse compreendido, nem de longe,
como cada um de nossos movimentos internos, de nossas emotions
se anunciam para fora, prosseguem, se estranham,
se transformam em motions


Excerto do discurso em homenagem a Pina Bausch na entrega do Goethe-Preis, pronunciado no dia 28 de agosto de 2008 na Paulskirche, em Frankfurt do Meno
Wim Wenders
(1945, Düsseldorf)
é um dos diretores alemães mais conhecidos internacionalmente. Em 1971 fundou, com outros representantes do “novo cinema alemão”, a distribuidora cinematográfica Filmverlag der Autoren. Recebeu inúmeros prêmios por sua produção cinematográfica. Em 2006, foi o primeiro cineasta a receber a condecoração alemã Orden Pour le Mérite. Seus filmes premiados incluem O estado das coisas, Paris, Texas, O céu sobre Berlim, Tão longe, tão perto e Buena Vista Social Club.

Tradução do alemão: Marcelo Backes
Copyright: Wim Wenders, Berlim/Verlag der Autoren, Frankfurt do Meno, 2008