A arte da Independência... e algumas reflexões sobre o heroico

EntreMundos

Nikolai Grube em Uxul, Foto: particular © N. Grube Um perfil.

O homem tem muitos planos: workshops na Guatemala, um livro sobre o manuscrito maia Código Dresden, escavações arqueológicas nos confins mexicanos. O olhar de Nikolai Grube se perde na distância. Flocos de neve dançam na janela de seu escritório no Instituto de Estudos da América Pré-Colombiana, em Bonn. Grube parece tremer de frio. Com certeza, o mais famoso pesquisador da cultura maia da Alemanha prefere o calor úmido de uma floresta da América Central ao inverno alemão.

Desde 2004, Grube é diretor do Instituto de Estudos da América Pré-Colombiana e Etnologia na Universidade de Bonn. Um ano depois, teve início sob a sua direção o mais ambicioso projeto atual do instituto: a escavação arqueológica de Uxul, a cidade maia desaparecida no sul do México. Uxul, que traduzido significa “no fim do mundo”, foi descoberta em 1934 por dois arqueólogos norte-americanos. Mas aquela cidade na fronteira com a Guatemala, na floresta úmida do estado de Campeche, caiu rapidamente no esquecimento. Passaram-se mais de 70 anos até que Grube partisse com uma equipe de 20 pessoas para tirar Uxul pela segunda vez do esquecimento.

Grube relembra, com os olhos brilhando, das imensas dificuldades enfrentadas na busca da cidade perdida, abrindo caminho na floresta metro por metro de machete em punho. As imagens de satélite serviam de orientação precária em meio ao verde sem fim da mata. E isso fez a descoberta dos primeiros restos da muralha mais bonita ainda, embora no começo não se tivesse certeza de que aquelas ruínas realmente fizessem parte de Uxul. “Existe uma infinidade de ruínas na floresta”, diz Grube. As gravações encontradas em uma estela, uma coluna de pedra isolada, trouxe finalmente a certeza: a equipe de Bonn tinha encontrado a cidade no fim do mundo. Em 2009, iniciaram-se as primeiras escavações, com prosseguimento em fevereiro de 2010.

Em resumo, um empreendimento muito árduo. A próxima localidade fica a 100 km de distância. Com tempo ruim leva-se até quatro dias para chegar ao sítio arqueológico. “Nestas condições, espírito de equipe e resistência física de todos os participantes são fatores imprescindíveis para o sucesso do projeto”, é o que consta no site do instituto onde se procuram colaboradores para as novas escavações.

Grube explica os propósitos científicos do ambicioso projeto: “Esperamos encontrar nas escavações, dentre outras coisas, respostas para perguntas tão importantes como a razão de os Maia terem abandonado suas cidades no século IX d.C.”. Será que foram eventualmente mudanças climáticas que provocaram o abandono de metrópoles como Chichen Itza, no México, ou Copan, em Honduras? Um problema extremamente atual: “Como se comportam os homens quando o clima de suas regiões muda?”.

Aprender com os Maia? Por que não? Até agora, segundo Grube, a ciência da Antiguidade foi muito eurocentrista. “Muitas de nossas antigas teorias sobre a história da humanidade, a introdução da agricultura, do urbanismo, estão baseadas em exemplos europeus.” Na América construíram-se grandes culturas que “não tiveram contato algum com o Velho Mundo, mas que no entanto chegaram a resultados semelhantes. Elas conheciam o jogo de bola, desenvolveram um sistema de divindades e tinham reis e nobreza.”

“Construir pontes entre os mundos me fascina”, diz Grube. Desde a juventude, este bonnense, que tem hoje 47 anos, trabalha para decifrar a escrita maia, hieróglifos que então eram muito pouco decodificados. Até meados da década de 1970, havia poucos livros sobre o tema. “As revistas empoeiradas” que ele encontrou em parte no Rautenstrauch Jost Museum em Colônia tinham dezenas de anos de idade. Somente no início da década de 1920, alguns cientistas começaram, muito hesitantes, a pesquisar a cultura maia. Mas Grube continuou no páreo. “Queria pesquisar algo que fosse totalmente desconhecido e onde ninguém pudesse se intrometer”, diz ele, recordando as ambições da juventude. Junto com estudantes e jovens pesquisadores de todo o mundo, começou a decifrar os símbolos e caracteres dos Maia, com sucesso. Atualmente, 70 por cento da escrita está decifrada e o interesse de Grube está mais voltado para a interpretação de seu conteúdo do que para a decodificação de outros caracteres. Já é possível reconstruir dinastias inteiras de reis a partir dos sinais conhecidos. Também se sabe qual era o papel da mulher na sociedade e que ela sabia ler e escrever.

Mas ainda existem muitos mistérios a decifrar. Desde a metade dos anos 1980, o interesse do mundo ocidental por esse povo da selva só tem aumentado. É possível que o filme de catástrofe 2012, de Roland Emmerich, tenha dado mais um impulso para a popularidade do tema. No filme, a vida na Terra desaparece em 21 de dezembro de 2012, segundo uma antiga profecia maia. “Isso é naturalmente uma idiotice”, diz Nikolai Grube, enquanto olha pela janela a neve caindo lá fora.


Kölner Stadt-Anzeiger do 29 de dezembro de 2009
Petra Pluwatsch
(1955, Düren)
estudou Germanística, História e História Antiga em Colônia. Desde 1982, é redatora do diário Kölner Stadt-Anzeiger; desde 2008, chefe de reportagem.

Tradução do alemão: Maria José de Almeida Müller
Copyright: Kölner Stadt-Anzeiger, www.ksta.de
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