A educação – entre o coração e a razão

O ideal da formação humanista

De que formação – entre o racional e o emocional – os jovens precisam em tempos de concorrência econômica e pragmatismo?

São diversas as propostas de reforma da educação formuladas na América Latina. A maioria delas parece se orientar pelos mesmos princípios criticados pela filósofa norte-americana de origem judaica Martha C. Nussbaum em seu livro Not For Profit: Why Democracy Needs the Humanities (Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades, Princeton University Press, 2010). Nesse livro, a autora assinala que hoje a educação se orienta pelo rendimento econômico, tanto da iniciativa privada como das instituições públicas, que se esforçam para formar profissionais em administração e áreas afins, tudo em função da economia. As humanidades, a filosofia e as ciências sociais são negligenciadas, como se fossem um estorvo. Hoje não se dá muito valor ao ideal de Wilhelm von Humboldt, que defendia uma educação na solidão e na liberdade, a formação da pessoa para a cooperação e uma educação superior que conciliasse docência e pesquisa. Esses ideais do humanismo, que em nenhum momento descuidaram da formação profissional, enfatizavam certos valores na educação, começando pelos do Iluminismo, como – por exemplo – a capacidade de pensar e de se comprometer com uma cultura política. Chegamos a um estágio tal no domínio da ciência, da técnica e da tecnologia na condição humana que nós, especialmente os não religiosamente musicais, parecemos ser levados a desconfiar da sensibilidade moral e a reagir aos seus apelos de forma racional, ou seja, ignorando-a ou adaptando-nos aos ideais de êxito, de competitividade e de produtividade. Por outro lado, fato é que a mesma tradição religiosa se encarregou de menosprezar o caráter profundamente humano dos sentimentos. A educação da sensibilidade acabou muitas vezes em sua repressão. A asquese da formação religiosa, herdeira – de uma forma negativa – da catarse da tradição grega, transformou em ideal de formação humana um controle racional das paixões, especialmente de seu enraizamento nos sentimentos. A pessoa com uma boa formação controla suas paixões e tem domínio sobre sua sensibilidade. Um dos resultados positivos da assim chamada pós-modernidade tem sido precisamente questionar o racionalismo que, em termos de modernização, se apoderou da própria modernidade. O fato de a minha racionalidade e de a minha concepção do bem não precisarem necessariamente coincidir com as de outras pessoas requer que compreendamos a racionalidade do outro, especialmente em se tratando de valores. Trata-se do reconhecimento do outro como diferente em sua diferença e, portanto, como interlocutor legítimo. E isso está relacionado à crítica pós-moderna a uma modernização que acabou colonizando nosso mundo da vida. Esse mundo tem que ser reencantado, já que a ciência e a tecnologia o desencantaram, a fim de que nos reencontremos nele como se estivéssemos em casa. A própria Martha Nussbaum reivindica uma educação das emoções, que – a partir do sentimento de compaixão em sua acepção etimológica de “sentir com” o outro – nos leve a enriquecer nossas relações interpessoais para a construção de uma sociedade mais humana, mais solidária, mais compreensiva e mais pluralista. Para tal, ela insiste na formação da imaginação narrativa, nos estudos culturais, na estética e nas letras em geral, a fim de ampliar o horizonte de compreensão cosmopolita. Os jovens de hoje são tachados de intolerantes, desprovidos de valores e indiferentes. Na verdade, trata-se do contrário. Se os submetermos a uma educação não só da razão, como também do coração, podemos descobrir que os valores dos jovens de hoje são exatamente de tolerância e pluralismo, de compromisso com a igualdade e respeito às diferenças, de fidelidade como complemento da reciprocidade e da solidariedade. Se eles fossem expostos à sensibilidade moral e não à repressão, a uma educação de valores e não a ameaças de castigo, à consciência de justiça como igualdade e não à Justiça e a anos de cadeia, veríamos como vale a pena buscar a paz e não a guerra. A juventude é, por natureza, pacifista.
Guillermo Hoyos Vásquez
(1935, Medellín, Colômbia), licenciado em Filosofia e Letras, estudou Teologia em Frankfurt e se doutorou em Filosofia na Universidade de Colônia (Aleman-ha) em 1973. É professor emérito da Universidade Nacional da Colômbia, na qual lecionou Filosofia durante 25 anos. Atualmente dirige o Instituto de Bioética da Pontifícia Universidade Ja-veriana de Bogotá. É autor de numero-sas publicações sobre filosofia moral, política e do direito.

Tradução do espanhol: Simone de Mello
Copyright: Goethe-Institut e. V., Humboldt Redaktion
Dezembro 2012
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