Cultura da tradução – Tradução da cultura

Sobre Humboldt

A Humboldt promove e acompanha o intercâmbio cultural entre a Alemanha e a América Latina, Espanha e Portugal. Para além de outras opiniões internacionais, a revista também contém artigos de autores oriundos de regiões de expressão ibérica e germânica. A Humboldt dedica-se a debates da atualidade sobre temas da vida intelectual e cultural de ambos os lados do Atlântico.

O clássico e o novo

Não há nenhum lugar no mundo igual à Avenida Corrientes, no coração de Buenos Aires: ali encontra-se uma livraria atrás da outra. Também não existe na América Latina lugar algum onde a densidade de livrarias supere a da Argentina, onde para cada 15 mil habitantes há uma loja de livros. A Feira do Livro de Buenos ­Aires atrai todos os anos em abril mais de um milhão de visitantes. Com cerca de 465 editoras, o país ao largo do Rio da Prata detém, depois do Brasil, seu vizinho gigante, a maioria das editoras do continente e, apesar da crise econômica, terá 20 mil títulos novos publicados este ano. Os autores e autoras argentinos mostram-se, acima de tudo, extremamente criativos. Muitos de seus temas são de interesse que ultrapassa as fronteiras, há muito não se limitam ao realismo mágico e ao fantástico. O país austral, que este ano comemora 200 anos de independência da Espanha, está bem preparado para se apresentar como convidado de honra da Feira do Livro de Frankfurt 2010. O Ministério das Relações Exteriores da Argentina aprovou 320 mil dólares de subsídios para a tradução de cem títulos e, segundo o diário La Nación, já existem 135 obras traduzidas para línguas estrangeiras tendo em vista o evento de Frankfurt. Jorge Luis Borges poderá ser lido, por exemplo, até em malaio. Nas editoras de língua alemã a maior parte dos títulos argentinos para 2010 já está decidida há tempos. Nossa autora informou-se antecipadamente sobre os programas e as expectativas geradas por eles e nos informa aqui sobre o estado em que tudo se encontra a cerca de meio ano da maior feira literária do mundo.

A Wagenbach Verlag, editora há muito encantada pelo Rio da Prata, dedicará pela primeira vez uma de suas “campanhas” a um país não europeu e lançará nove títulos argentinos. “Uma experiência de grande porte que não seria possível se a Argentina não fosse o país tema da feira de 2010”, segundo Marco Bosshard, editor da Wagenbach. Há quatro reedições planejadas, e Boss­hard está extremamente orgulhoso de que El túnel, de Ernesto Sábato, esteja entre elas. Embora o clássico tenha sido publicado em 1958 por uma pequena editora austríaca, essa obra de até hoje tamanha importância para os argentinos ainda não conseguiu impor-se no mercado de língua alemã. Uma nova tradução do romance de Juan José Saer La ocasión pelo genial Erich Hackl também faz parte da campanha da Wagenbach.

Hackl também está trabalhando para a editora suíça Rotpunktverlag em uma nova tradução de Operación masacre, uma reportagem – agora com posfácio escrito por ele mesmo – de Rodolfo Walsh sobre um massacre nunca esclarecido, ocorrido em 1957, sob a ditadura militar de Pedro Eugenio Aramburu. A Rotpunkt também incluirá em seu programa de livros para a feira os contos policiais do jornalista Walsh, assassinado pelos militares em 1977.

A Wagenbach apresenta ainda a tradução de quatro novos títulos: um livro de Ricardo Piglia (de quem a editora já publicou outras obras) e um segundo romance de Lucía Puenzo (La maldición de Jacinta Pichimahuida), cujo livro de estreia, El niño pez (traduzido para o alemão por Rike Bolte), conseguiu convencer este ano a crítica alemã. Ao lado desses dois já renomados autores alguns novos também estarão presentes. Com tradução de Carsten Regling, será lançado Un tango para Gardel, uma biografia literária do legendário cantor, escrita por um dos maiores conhecedores do tango argentino, Pedro Orgambide, falecido em 2003. Ao engajamento da Wagenbach soma-se uma antologia da jovem literatura argentina.

Poucas pessoas fizeram tanto pela literatura latino-americana e argentina no mercado de língua alemã como Michi Strausfeld, que trabalha como consultora para a S.Fischer Verlag. Ela, inclusive, aproveitará a feira de 2010 para apresentar em uma antologia de contos latino-americanos nove jovens autores argentinos nascidos depois de 1960. Com relação aos romances, Strausfeld aposta em autores já estabelecidos. Seu programa para a S. Fischer Verlag inclui ainda a tradução de duas obras dedicadas ao tema central da literatura argentina apresentada na feira de livros, a reflexão sobre a ditadura militar de 1976 a 1983. Elogiado pela crítica de seu país de origem ao ser lançado, o romance Todos los hombres son mentirosos, de Alberto Manguel, lida com os assassinatos e o exílio sob o governo dos militares. Também a protagonista de Purgatorio, a nova obra do bem-sucedido autor Tomás Eloy Martínez (a Editora Suhrkamp lançou em 1996 Santa Evita com tradução de Peter Schwaar), procura seu marido em meio aos milhares de desaparecidos durante a ditadura militar. “Martínez incluiu nesse romance muito do que ele mesmo viveu”, conta Strausfeld.

A dinâmica mediadora de literatura prepara ainda uma antologia com narradores, poetas e ensaístas para a Die Horen. Zeitschrift für Literatur, Kunst und Kritik. “O que eu pretendo é apresentar textos ainda nunca traduzidos que de outra forma nunca teriam a chance de entrar no mercado de livros de língua alemã”, descreve Strausfeld seu projeto. Embora ainda não estejam confirmados todos os autores, é certo que entre eles estarão tanto contemporâneos quanto clássicos como Silvina Ocampo (1903­–1993) ou Macedonio Fernández (1874–1952).

O fato de os romances de Macedonio Fernández continuarem sem uma editora de língua alemã, apesar de a Argentina ser o país convidado da feira do livro, decepciona o agente literário especializado em literatura argentina Matthias Strobel. Afinal de contas Fernández influenciou, entre outros, ninguém menos do que Borges. “Tesouros como esses continuam escondidos. Pode ser que a razão disso sejam as limitações econômicas agora intensificadas pela crise”, supõe Strobel. Nicole Witt, da Agência Literária Mertin, também lamenta o fato de os volumes de contos de Silvina Ocampo não terem despertado interesse. Além do mais, há muitos autores jovens que não obtiveram tanta receptividade das editoras de língua alemã como ambos os agentes esperavam. Um dos motivos pode ser o de tratarem de temas já abordados por autores alemães. Esse é, por exemplo, o caso de Laura Meradi, autora de 28 anos representada por Strobel e que escreve sobre o divórcio (Tu mano izquierda, 2009). “Muitos editores aguardam um segundo romance antes de se decidirem por um autor jovem”, comenta Strobel sobre a hesitação. De uma maneira geral, Nicole Witt se alegra com o significativo aumento de interesse pela literatura argentina, embora esperasse que o celebrado romance El colectivo (2004), de Eugenia Almeida (nascida em 1972), no qual um casal provinciano mantém um relacionamento de ódio durante a ditadura militar, tivesse encontrado uma editora alemã.

Andreas Simmen, diretor do programa da já citada Rotpunktverlag, esteve em 2009 na Feira do Livro de Buenos Aires à procura de algum jovem autor ou autora, mas ainda não se decidiu por uma obra específica: “Existe uma quantidade enorme de ofertas, mas muitas delas só interessam aos argentinos”. O que já está de qualquer maneira decidido é que o segundo romance sobre imigração de Antonio Dal Masetto, La tierra incomparable, será incluído no programa do próximo ano. Sua primeira obra sobre esse tema, Oscuramente fuerte es la vida – bastante apreciada pelos argentinos pelo fato de muitos deles se identificarem com o destino de imigrante nela descrito –, já está no mercado alemão desde 2008, com tradução de Susanne Mende.

“Os textos dos autores mais jovens não me convenceram tanto quanto os da geração anterior”, fundamenta Ann-Catherine Geuder, da Berlin Verlag, sua decisão de recorrer a autores já estabelecidos, como por exemplo a Martín Caparrós, de quem já existe em alemão o romance Valfierno (Eichborn 2006, tradução de Hans-Joachim Hartstein) sobre o roubo da Mona Lisa. Em seu novo romance, A quien corresponda, Caparrós enfoca o tema de como a esquerda vê a si mesma e do papel da Igreja durante a ditadura, com um padre que apoia os crimes de torturadores e assassinos, inspirado no tristemente célebre pastor de origem alemã Christian von Wernich. Para a editora, o importante nesse autor é que “Caparrós trabalha com uma grande diversidade de recursos estilísticos, e não apenas reflexiona sobre o passado como também cria uma ponte para o presente”.

Este último aspecto também agradou a Heinrich von Berenberg na série de sete contos de Félix Bruzzone (nascido em 1976), publicada em alemão sob o título 76, o mesmo que na versão original, e que fala sobre os filhos de desaparecidos durante a ditadura: “Um livro redondo em termos literários, que traz histórias atuais”. A Berenberg Verlag lançará ainda a tradução de Falsa calma, livro de relatos literários da jornalista María Sonia Cristoff.

Um autor que, embora não seja jovem, é novo para o mercado alemão é Eduardo Sacheri, que será apresentado pela Berlin Verlag com um tema “velho”: o futebol. Primeiro será lançada na primavera de 2010 uma coleção de contos de futebol que são best-sellers na Argentina. No outono segue o romance de Sacheri Aráoz y la verdad, a história de um homem decidido a descobrir o motivo de sua equipe de futebol ter perdido o campeonato muitos anos atrás.

Aliás, durante a Feira do Livro deverá ser apitado um jogo amistoso entre a Alemanha e a Argentina. Dentro desse contexto vale a pena lembrar a intenção da presidente da Argentina, Cristina Kirchner, de viajar a Frankfurt acompanhada da estrela do futebol Diego Maradona como um dos representantes da cultura argentina. Além de Maradona, ela tinha escolhido Che Guevara, Evita Perón e Carlos Gardel como ícones culturais argentinos. Ao ser lembrada de que a feira é de livros, incluiu Borges e Cortázar na lista…

A Suhrkamp não só relançará contos de Julio Cortázar como também homenageará o futebol com a tradução do romance Vivir en Springfield, de Sergio Olguín. A já conhecida equipe de El equipe de los sueños (traduzido para o alemão por Matthias Strobel, em 2006) viaja para os Estados Unidos para aprender como traduzir os gritos da torcida de futebol corretamente para o inglês e lá passa por todos os tipos de aventuras. A editora lançará no mercado oito títulos literários, apostando numa mistura de rostos novos e outros já conhecidos. A bem-sucedida autora Elsa Osorio (da qual já foram publicados em alemão A veinte años, Luz, traduzido por Christiane Barckhausen-Canale, 2000, e Cielo de tango, por Stefanie Gerhold, 2007) estará presente com Callejón con salida, narrativas sobre a crise econômica e também sobre a ditadura militar. Outro livro aguardado com interesse é Ciencias morales, de Martín Kohan, que depois de abordar a tortura (Dos veces junio, tradução de Peter Kultzen, 2009) de maneira brilhantemente bem estruturada e comovente, agora se ocupa neste da opressão numa escola de elite durante a guerra nas Malvinas. A editora Corinna Santa Cruz ainda tem um longo dramalhão de Leopoldo Brizuelas para oferecer: Lisboa, un melodrama, que se passa na Segunda Guerra Mundial e tematiza a fuga de judeus portugueses para a América.

A Suhrkamp atreve-se também a incursionar por um território inexplorado, com histórias curtas e perturbadoras da obra El núcleo del disturbio, de Samanta Schweblin, autora de 31 anos que lida com pessoas cujo comportamento foge à norma; e também o livro de Carlos María Domínguez La costa ciega, que gira em torno da traição, da violência e da ditadura; assim como a crônica autobiográfica em forma de romance de Laura Alcoba sobre sua vida como filha de montoneros em La Plata, La casa de los conejos.

A Unionverlag tem com Claudia Piñeiro uma das mais interessantes autoras argentinas contemporâneas sob contrato, da qual já publicou Tuya (tradução de Peter Kultzen, 2008) e Elena sabe (tradução de Peter Kultzen, 2009), e que estará representada na feira de 2010 com a tradução de Las viudas de los jueves, um romance que se desenvolve no mundo das aparências dos cercados condomínios de classe média alta, fortemente vigiados por seguranças, que pipocam aos arredores de Buenos Aires. “Nós nos concentramos nos autores que já pertenciam à família e juntamos para a feira dedicada ao país tudo o que teríamos editado de qualquer maneira”, esclarece Lucien Leitess a política de sua editora. Assim ele apresentará na feira de 2010 a versão alemã de Siempre la misma canción, de Raúl Argemí, e a novela de Pablo de Santis El enigma de París, que reúne Arsenio Lupín, Miss Marple e Sherlock Holmes para esclarecer um enigmático assassinato ocorrido durante a construção da Torre Eiffel em Paris. Segundo a experiência do editor, quando um país é convidado de honra da feira, no ano seguinte acontece um retrocesso e uma depressão. Porém, ainda que ele com essa declaração jogue um pouco de água fria na fogueira, ele enxerga a chance de através do tema central da feira trazer à luz do palco uma literatura que de outro modo ficaria escondida.

Existem ainda aqueles que têm expectativas maiores. Michi Strausfeld, por exemplo, espera que com a Argentina toda a América Latina recupere as atenções dos leitores de língua alemã. Levando-se em conta os livros e autores aqui apresentados, realmente há justificativa para essa esperança.


Artigo publicado em LiteraturNachrichten, N°102, outono 2009
Eva Karnofsky (1955)
doutorou-se em Ciências Políticas. De 1993 a 2003 foi correspondente do Süddeutsche Zeitung em Buenos Aires, tendo se especializado como autora e crítica literária em América Latina. Em 2010 lançará pela ed. Unionsverlag Reise nach Argentinien. Kulturkompass fürs Handgepäck, uma seleção de textos literários e ensaios da e sobre a Argentina.

Tradução do alemão: Gisela Pimentel
Copyright: LiteraturNachrichten Afrika Asien Lateinamerika.
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Especial: A outra Língua

Este especial de literatura para a revista Humboldt passa a palavra a escritores alemães e latino-americanos, sobretudo brasileiros, que – ao longo de sua obra ou em livros recentes – têm revelado um interesse especial em renovar sua dicção e estranhar a própria língua por meio da incorporação de outros idiomas ou da permeabilização radical do texto a referências intertextuais e mídias extra-literárias