Referir-se a toda a África, excetuando-se o Norte predominantemente árabe, como “Subsaara”, não apenas desafia os fundamentos da geografia como também remete a uma rotulação estereotipada e racista, segundo Herbert Ekwe-Ekwe. Um ensaio do historiador e cientista político recentemente falecido.
Parece estar cada vez mais na moda para várias emissoras internacionais, agências de notícias, jornais e revistas, Nações Unidas e suas agências aliadas, assim como para alguns governos, escritores e acadêmicos, o uso do termo “África Subsaariana” para se referir à África (54 países), com exceção dos cinco Estados predominantemente árabes do Norte do continente (Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e Egito) e o Sudão, um país do Centro-Norte africano. Embora seu território esteja predominantemente localizado ao sul do deserto do Saara, o Sudão é excluído da marcação com o rótulo “África Subsaariana” por aqueles que promovem o uso do epíteto, porque o regime que detém o podem em Cartum descreve o país como “árabe”, apesar de sua população majoritariamente africana.Que ciência?
O conceito “África Subsaariana” é, porém, absurdo e enganoso, para não dizer que é um esquema classificatório inteiramente sem sentido. Seu uso não apenas desafia os fundamentos da geografia, como também cheira a uma rotulação estereotipada e racista. Não é óbvio, diante disso, quais dos quatro possíveis significados do prefixo “sub” seus usuários embutem na rotulação “África Subsaariana”. Ela está “abaixo” do deserto do Saara ou “parte do”/“em parte no” deserto do Saara? Ou, presumidamente, “parcialmente”/“quase” deserto do Saara, ou mesmo a muito improvável (espero?) aplicação de “no estilo de, mas inferior ao” deserto do Saara, especialmente considerando que há um povo árabe ensanduichado entre o Marrocos e a Mauritânia, no Noroeste da África, chamado Saharauí?O exemplo da África do Sul é apropriado aqui. Crucialmente, esta é uma referência sublinhada na literatura relevante da época, em especial aquela que emana do Ocidente, das Nações Unidas (sobretudo Pnud, FAO, OMS e Unctad), do Banco Mundial e do FMI, das assim chamadas ONGs/dos grupos de “ajuda”, e de alguns membros da academia, que são todos responsáveis, em níveis variados, por começar e sustentar a operacionalização desse dogma da “África Subsaariana”. O ponto é que, antes da restauração formal de um governo de maioria africana, em 1994, a África do Sul nunca foi designada por ninguém neste quadro como “África Subsaariana”, ao contrário do resto dos 13 Estados liderados por africanos no Sul da África. Frequentes eram as referências a esses últimos como “Estados da linha de frente”, devido a seu suporte estratégico ao histórico movimento de libertação da África do outro lado de suas fronteiras na África do Sul. A África do Sul também era classificada como “África do Sul branca” ou “África do Sul subcontinental (como no uso Índia subcontinental, por exemplo), significando “quase” ou “parcialmente” um continente – de maneira muito clara uma expressão de “admiração” ou “elogio” empregado por seus usuários para essencialmente projetar e valorizar os potenciais ou as capacidades geoestratégicas percebidos no país outrora liderado pela minoria europeia. Porém, logo depois que os movimentos pela libertação da África triunfaram lá, a África do Sul se tornou parte da “África Subsaariana”, no esquema rapidamente ajustado dessa representação! O que aconteceu de repente à geografia sul-africana para ser classificada de forma tão diferente? É uma liberação ou um controle africano que torna um Estado africano “subsaariano”? Essa classificação pós-1994 que o Ocidente designou à África do Sul torna a definição “África Subsaariana” mais compreensível?
Interessantemente, assim como no exemplo da África do Sul “subcontinental”, a aplicação de “quase” ou “parcialmente”, ou mesmo o significado “parte de” ou “em parte” do prefixo “sub-” para “África Saariana”, foca sem ambiguidades nos seguintes países africanos: Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e Egito, cada um dos quais com 25-75% de seus territórios (em especial no sul) cobertos pelo deserto do Saara. Foca também na Mauritânia, no Mali, no Níger, no Chade e no Sudão, que de forma variável também têm de 25-75% de seus territórios (em especial no norte) cobertos pelo mesmo deserto. Em efeito, esses dez Estados criariam a “África Subsaariana”.
Novo esquema classificatório?
Replicando essa farsa óbvia de classificação em outras regiões do mundo, o seguinte exercício aleatórionão é um cenário tão indistinto para uma referência universal e cotidiana.- A Austrália, consequentemente, torna-se “Austrália Sub-Grande Deserto Arenoso”, em referência aos grandes desertos quentes que cobrem grande parte da Austrália ocidental e central.
- A Rússia oriental, a leste dos Urais, se torna “Ásia Subsiberiana”.
- China, Japão e Indonésiasão reclassificados como “Ásia Subgobiana”.
- Butão, Nepal, Paquistão, Índia, Sri Lanka, Bangladesh, Myanmar, Tailândia, Laos, Camboja e Vietnã se tornam “Ásia Sub-himalaiana”.
- Toda a Europa se torna a “Europa Subártica”.
- A maior parte da Inglaterra, incluindo os condados centrais e meridionais, é renomeada como “Europa Subpeninos”.
- O leste e o sudoeste da França, a Itália, a Eslovênia e a Croácia são “Europa Subalpina”.
- As Américas se tornam as “Américas Subárticas”.
- Toda a América do Sul, ao sul da Amazônia, é proclamada “América do Sul Subamazônica”; o Chile poderia ser a “América do Sul Subatacama”.
- A maior parte da Ilha Sul da Nova Zelândia é renomeada “Nova Zelândia Sub-Alpes do Sul”.
- México, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Panamá tornam-se “América do Norte Sub-Rochosa”.
- O Caribe inteiro torna-se “América Subapalachiana”.
Assinatura geopolítica racista
Portanto, em vez de ser um conceito benigno, “África Subsaariana” acaba sendo, no fim das contas, um código exógeno de nomenclatura, usado por usuários para distinguir um Estado “soberano” localizado em algum lugar da África e governado por africanos, em vez de um Estado liderado por árabes. A não inclusão do Sudão nesse grupo (apesar de sua população de maioria africana e de sua localização geográfica) e a inclusão da África do Sul apenas depois do movimento de libertação de 1994 acabam, no entanto, com o jogo! Falando sério: “África Subsaariana” é uma classificação empregada para criar na imaginação popular o impressionante efeito de uma massa geográfica supostamente encolhida, combinada à “irrelevância” geoestratégica global supostamente associada ao continente.“África Subsaariana” é, sem dúvida, uma assinatura geopolítica racista, através da qual seus usuários tentam repetidamente apresentar a imagem de desolação, aridez e “desesperança” de um ambiente desértico. Isso apesar do fato de que a esmagadora maioria da população africana de um bilhão de pessoas não vive em nenhum lugar próximo ao Saara, nem tem sua vida tão afetada pelo impacto implícito no significado tão carregado que esse dogma pretende transmitir. A menos que esse uso constante de “África Subsaariana” seja robustamente desafiado por uma academia centrada com rigor na África e por um grande esforço publicitário, seus proponentes terão sucesso, eventualmente, em substituir o nome do continente “África” por “África Subsaariana”, e o nome de seus povos, “africanos”, por “africanos subsaarianos”, ou pior ainda, “subsaarianos”, no domínio da memória e da percepção pública.
Este ensaio é uma versão ligeiramente atualizada de uma palestra intitulada “O que é ‘África Subsaariana’ ?”, feita pelo falecido professor Herbert Ekwe-Ekwe na Conferência IDeoGRAMS, que aconteceu na Universidade de Leicester em 14 de setembro de 2007.
Junho de 2020