A atriz, diretora e produtora Sheri Hagen luta por mais diversidade na indústria cinematográfica alemã. O que precisa mudar em frente e por trás das câmeras?
Eu queria saber qual o real grau de diversidade em frente e por trás das câmeras. Se minha impressão de monotonia era enganosa, ou se os números finalmente provam que nosso cinema e televisão trabalham com exclusões.
Houve algo que a surpreendeu nos resultados?
O fato de 81% das mulheres sofrerem múltiplos abusos sexuais no contexto profissional, e de que mais de 70% das pessoas com histórico de migração se veem representadas de forma estereotipada. Isso confirma que nossos conteúdos são feitos apenas para um determinado tipo de público.
Alguma coisa mudou desde que a pesquisa foi publicada?
Ela provocou discussões em associações e instituições cinematográficas, agora só continua faltando a coragem de dar grandes passos e realmente implementar a diversidade no cinema. É necessário que os institutos de fomento ao cinema passem por uma desconstrução. As produções devem ser reforçadas financeiramente para que o acesso sem barreiras seja possível. O cinema precisa ser visto como um recurso educacional para combater a discriminação, ele deve oferecer exemplos para todo mundo e exibir as pessoas em sua diversidade.
Que papel o tema diversidade vem ocupando até hoje no fomento ao cinema?
Não tenho realmente certeza se a Alemanha deseja de fato mais diversidade. Os conteúdos não mudam quase nada, e também vejo poucas equipes diversas. Não vejo, por exemplo, quase nenhuma pessoa de pele escura em posições decisivas, nem pessoas portadoras de deficiência. Enquanto nada mudar atrás das câmeras e em termos de conteúdo, a diversidade no cinema continuará uma utopia.
Estou muito contente com a existência dessa ferramenta útil de autochecagem. A lista de checagem motivou debates e abriu espaços, proporcionando oportunidades a pessoas que contam novas histórias. Só é uma pena que não sejam muitas as instituições de fomento que seguiram o exemplo. Muitas falam de mais diversidade, mas mantêm as velhas estruturas. Uma lista de checagem para pessoas criativas também não é suficiente, precisamos além disso de algo semelhante para quem toma as decisões nas emissoras.
Críticas à lista de checagem argumentam que ela restringe a liberdade artística.
Ouço isso constantemente. Mas o que se quer dizer com liberdade artística? Será que essa suposta liberdade artística não representa um apego às velhas estruturas de poder? Tenho que aguentar isso o tempo todo. Histórias em consonância com o sistema, que não correspondem à realidade. A lista de checagem de diversidade é uma tentativa que ousa algo novo. Diversidade significa mais possibilidades de narrativa, de histórias mais complexas, mas também de ser um reflexo da realidade das equipes por trás das câmeras – uma participação igualitária para todo mundo.
Que significado a diversidade deveria ter nos filmes?
Na verdade, nenhum. Deveria ser natural que todas as pessoas fossem vistas e ouvidas. Nossa sociedade é múltipla e diversa, nossa realidade é múltipla e diversa. Por que não também no cinema, na televisão e nas equipes de produção? Quando eu era criança, nunca me vi no cinema ou na televisão alemães, assim como minhas crianças também não se veem. Espero que minhas netas e meus netos possam se enxergar de maneira natural, sem estar numa situação de exposição, simplesmente de forma humana, sem uma marca de procedência.
Acho que todas elas são corretas e indispensáveis. O desequilíbrio é simplesmente grande demais, então cada iniciativa, cada conscientização promovida por agentes da mídia é importante.
Quais suas demandas em relação ao futuro da indústria cinematográfica alemã?
Demando uma quota de 50:50 em uma base interseccional. A adaptação dos padrões de diversidade do Instituto de Cinema Britânico (BFI Diversity Standards), treinamento de atenção plena e de intimidade nos sets de filmagem e nas produções, bem como filmes com acesso sem barreiras.
A diretora Sarah Blasskiewitz declara em relação ao racismo cotidiano que as pessoas atingidas podem indicar os problemas mas não oferecer as soluções. Como você vê isso?
De forma parecida. As organizações que defendem as diferentes pessoas não privilegiadas já oferecem soluções ou sugerem medidas. Mas elas não são aceitas, inclusive pela política. São demais as vezes em que os ataques racistas permanecem sem consequências. Só que nós – todas as pessoas – temos responsabilidade perante a sociedade, especialmente quem é responsável pelas decisões, não apenas as pessoas criativas. Todo mundo é um exemplo!
Setembro de 2021