Poucos temas vêm sendo mais debatidos no momento do que a “crise migratória”. Mas a Alemanha tem mesmo um problema com excesso de imigrantes? A situação é paradoxal. Enquanto há escassez de profissionais por todos os lados no mercado de trabalho, a classe política e a mídia demonstram preocupação sobretudo com um assunto: a deportação.
Hoje, em 2024, já não é mais possível fechar os olhos para as dificuldades do mercado de trabalho: empresas, o comércio varejista, o setor da gastronomia – todos procuram desesperadamente por funcionários. Entre os problemas enfrentados pela economia alemã, a “escassez de trabalhadores qualificados” ocupa um dos primeiros lugares em todas as pesquisas. Na realidade, não há procura apenas por “mão de obra qualificada”, mas a escassez atinge todos os segmentos do mercado de trabalho. Diante disso, é surpreendente que a classe política e a mídia continuem debatendo quase obsessivamente sobre a chegada de migrantes. Desde 2023 que a “crise migratória” se tornou uma espécie de bola de neve, a ponto de os partidos políticos, estejam no governo ou na oposição, praticamente concordarem que o país torna “muito fácil a vida daqueles que querem se beneficiar do nosso Estado de bem-estar social”, como afirma Christian Lindner, ministro alemão das Finanças até novembro de 2024. Para a União Democrata Cristã (CDU), seria preciso se livrar o mais rápido possível dos ucranianos que não estão empregados. Ao mesmo tempo, o chanceler federal social-democrata continua a repetir estoicamente a máxima de que as pessoas deveriam ser deportadas “em grande escala”.
Deportação de potenciais trabalhadores e contribuintes
Entre as pessoas que fugiram da guerra na Ucrânia depois de 2022, as mulheres sozinhas com filhos perfazem um total de 80%, de forma que a acusação de que elas estariam fugindo de trabalho soa um tanto quanto mesquinha. Além disso, muitos refugiados tiveram também que aprender que o recebimento de recursos do Estado dificilmente pode ser conciliado com o trabalho remunerado. Isso significa, portanto, que o Estado cria incentivos legais para que as pessoas não trabalhem. E, por fim, a Lei de Residência foi alterada nada menos que 71 vezes entre 2015 e 2023, ou seja, em média cerca de nove vezes por ano. Até mesmo advogados experientes mal conseguem acompanhar o ritmo dessas mudanças, o que torna a vida dos refugiados (e também de “trabalhadores qualificados” migrados) desnecessariamente difícil. Apesar de tudo isso, a situação dos refugiados sírios e iraquianos continua sendo uma história de sucesso: em 2022, quase 60% dos que haviam recebido benefícios básicos do Estado entre 2014 e 2016 tinham conseguido um trabalho atrelado à seguridade social – mesmo aqueles com baixa qualificação escolar. Isso suscita a questão: por que os números crescentes de asilo despertam uma agitação histérica? E uma deportação em “larga escala” não seria também uma deportação de trabalhadores e contribuintes em potencial?Talvez o barulho das disputas ideológicas possa ser melhor compreendido à luz dos recentes sucessos do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que polemiza contra a imigração para o país em termos abertamente racistas. É evidente que os partidos estabelecidos estão tentando recuperar terreno nesse âmbito. Entretanto, a AfD celebra seus melhores resultados nos estados que pertenciam à Alemanha Oriental, cuja população se reduziu drasticamente entre 1990 e 2022 – perdas que vão de 14% (Saxônia) a 25% (Saxônia-Anhalt). Ou seja, a rejeição à imigração é maior justamente onde a maioria das pessoas emigra e onde muitas vagas de emprego nem podem ser preenchidas, mesmo em regiões estruturalmente frágeis. Isso não é tão fácil de explicar, mas uma coisa é certa: as razões do sucesso da AfD estão também em outro lugar, e a repetição de seus slogans reforça uma visão de mundo racista: nesses círculos, sempre se afirmou que haveria uma “crise migratória” e que os partidos estabelecidos não estariam fazendo nada.
Crise de identidade
No entanto, a raiva dos populistas de direita também se volta contra os alemães com histórico de migração considerados “não assimilados”. Como já mencionado, a composição da população da Alemanha mudou drasticamente. Em 1998, o governo federal reconhecia pela primeira vez que a migração seria “irreversível” (até então, a visão oficial era outra); em 2000, o “jus sanguinis”, que vincula a cidadania à biologia, em vigor até aquele momento, foi totalmente liberalizado. No entanto, a mentalidade e as condutas típicas de uma era anterior nem sempre acompanharam essa mudança. Em questões relativas à imigração, continua vigente o princípio da “integração”. Isso pode ter um lado pragmático (integração no mercado de trabalho, por exemplo), mas muitas vezes se esconde por trás disso a ideia romântica de uma unidade nacional preestabelecida, o que acaba deixando as pessoas, por fim, sobretudo insatisfeitas: nunca todo mundo está suficientemente “integrado”; sempre a sociedade está demasiado “dividida” etc.Isso torna ainda mais difícil reconhecer os avanços, pois a experiência mostra que a convivência no dia a dia funciona geralmente bem e é frequentemente bem administrada pela política local. Parece evidente que a Alemanha tem menos uma “crise de migração” do que uma crise de identidade. Para quem se envolve com o tema da migração há muito tempo, como eu, isso não surpreende. Há anos que as engrenagens apresentam ruídos, enquanto a política nacional vem deixando uma impressão cada vez mais caótica e desorientada. Em uma situação como essa, os tomadores de decisão deveriam reagir menos no Instagram e, em vez disso, desenvolver e conduzir um plano para a modernização consistente do país. Afinal, uma crise mental nunca está longe do colapso.
Este texto foi originalmente publicado pela Revista Gegenüber.