Na Alemanha, faz tempo que a liberdade da arte e da cultura não está mais garantida como parecia. É preciso fazer um apelo à classe artística para que, mesmo diante da guinada à direita, as pessoas não se resignem – e se inspirem na vizinhança europeia que tem experiência com repressões.
O que há de belo na arte é que ela não se deixa abater. Não importa quão adversas sejam as circunstâncias ou qual a grandeza do perigo representado pela censura e pela repressão em regimes autoritários – em qualquer lugar, há artistas que continuam, que se posicionam contra a censura, as proibições e a intimidação; que criam contranarrativas e espaços de liberdade, mesmo quando parece que não há esperanças e mesmo havendo perigo. Entre os exemplos disso estão os filmes críticos ao regime, rodados secretamente no Irã; os shows de punk e teatro político, que acontecem no Uzbequistão, apesar do governo autoritário; espetáculos de drags e arte queer na Geórgia, onde a divulgação de conteúdos queer acaba de ser proibida; ou livros avessos à guerra contra a Ucrânia, que são impressos na Rússia, na esperança de que não caiam nas mãos das autoridades. A arte que surge nessas circunstâncias e precisa lutar por seu espaço, enfrentando resistências, exige coragem e representa um grande risco para as pessoas envolvidas.Com as mudanças políticas, muda também a margem de manobra da arte e o grau de liberdade que ela tem.
Quando, no final de 2022, a divulgação de conteúdos queer foi completamente proibida na Rússia, foi fácil descartar o ocorrido como mais uma das muitas manobras absurdas de um Estado terrorista, como se aquilo fosse algo que acontece bem longe. Mesmo com os ataques a shows de drag queens para crianças nos Estados Unidos e as proibições de livros infantis que os conservadores consideram queer ou muito liberais, tendemos a reagir com a mesma indiferença preocupada com que reagimos à eleição de Donald Trump: assustador, terrível, mas felizmente do outro lado do Atlântico.
Ataques à cultura estão cada vez mais próximos
Não é preciso, contudo, ir tão longe: basta observar ataques semelhantes à liberdade da arte e da cultura no coração da UE. E isso não aconteceu de ontem para hoje. Desde 2021 que, na Hungria, é proibido disponibilizar conteúdos queer a menores de 18 anos. Na Eslováquia, está ocorrendo no momento um ataque sem precedentes à cultura: a ministra responsável, Martina Šimkovičová, defende que as pessoas LGBTQ são “culpadas pelo extinção da raça branca”. Com base nisso, ela define sua política cultural nacionalista. As direções das instituições culturais foram substituídas e o financiamento de algumas delas, cujos programas não correspondem às ideias do governo populista, foi suspenso.As pessoas gostam de tranquilizar a si mesmas acreditando que um cenário como esse parece estar muito distante da Alemanha, embora o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) não esconda que gostaria de interferir ativamente no fomento cultural para se opor a “temas ideológicos como ‘gênero’, ‘proteção climática’ ou ‘diversidade’” (isso é o que consta do programa do partido para as eleições nacionais no que diz respeito ao fomento do cinema). Hans-Thomas Tillschneider, responsável pelo tópico política cultural dentro da AfD, defende que a distribuição de recursos esteja vinculada a uma “declaração afirmativa da identidade alemã”.
Uma participação da AfD no governo em um futuro próximo não é algo que se queira imaginar. No entanto, em algumas regiões do país, o partido tem tanta força a ponto de influenciar as decisões sobre a cultura na esfera municipal. E, mesmo sem maioria no Parlamento, o perigo da direita é muito real: em ataques destemperados nas redes (shitstorms), radicais de direita instigam campanhas contra eventos, pressionam e intimidam. E, com frequência, têm fixação por temas queer ou projetos ligados a refugiados. O crítico de teatro Peter Laudenbach relata em seu livro Volkstheater. Der rechte Angriff auf die Kunstfreiheit (Teatro popular. O ataque da direita à liberdade da arte) os inúmeros ataques da direita a instituições culturais e artistas nos últimos anos.
Quando os recursos públicos são cortados e a dependência do pagamento de ingressos ou doações privadas aumenta, cresce o risco de que certas coisas simplesmente deixem de existir, de que certas perspectivas se tornem menos visíveis.
Entretanto, é justamente aquela cultura, que vai além dos grandes museus, teatros e das salas de concerto, que desempenha um papel importante para as pessoas marginalizadas. Projetos culturais menores e espaços não comerciais, onde acontecem exposições, performances e concertos, oferecem às pessoas queer ou afetadas pelo racismo espaços seguros e oportunidades de expressão que elas não encontram nos grandes palcos. Quando os recursos públicos são cortados e a dependência de ingressos ou doações privadas aumenta, cresce o risco de que certas coisas simplesmente deixem de existir, de que certas perspectivas se tornem menos visíveis.
Aprender com quem desafia as repressões
Mas se há algo que podemos aprender com artistas de países onde a arte política não é incentivada, mas sim punida, é isso: não desistir e defender os espaços de liberdade e os apoios que existem. E sim, também na Alemanha a classe artística precisa se preparar para enfrentar mais oposição. No entanto, ainda há muitíssimo a fazer e não há razão para perder as esperanças. Está em nossas mãos impedir que a situação na Alemanha se torne tão grave quanto já é em muitos outros países. Podemos e precisamos nos defender contra o fortalecimento da direita, não podemos aceitar que artistas sejam atacados, precisamos nos colocar na linha de frente para protegê-los. E mesmo que a situação piore, que o partido AfD ganhe mais poder – e isso pode acontecer rapidamente, como já se viu na Áustria –, não podemos desistir. Precisamos estar preparados. Quanto mais opressoras se tornam as condições políticas, mais relevante é continuar e tanto maior é a importância da arte independente: ela talvez não tenha grande influência sobre a opinião pública, mas pode ser um refúgio e atuar como uma comunidade para quem, devido às suas opiniões ou à sua identidade, se opõe à sociedade majoritária; para quem sofre discriminação ou perseguição. E sempre haverá uma pequena chance de que as pessoas se despertem e possam ser levadas a repensar ou mesmo a mudar de opinião.Devemos criar redes e trocar ideias com quem já têm experiência em fazer arte nas circunstâncias as mais adversas. Essas pessoas sabem como se proteger de ataques e, apesar da narrativa dominante da direita, seguir fazendo seu trabalho. E sabem também com quais estratégias é possível obter visibilidade sem se expor demais a perigos. Também na Alemanha há oportunidades para isso: por que não visitar uma exposição de artistas exilados da Bielorrússia e ouvir o que eles relatam sobre o que viveram e sobre como andam suas amigas e seus amigos? Por que não convidar artistas queer da Geórgia? Ou perguntar a colegas da Hungria como anda a situação em seu país? Podemos aprender muito e, acima de tudo, apoiar-nos mutuamente. Talvez no futuro, na Alemanha, em vez dos amplos espaços de liberdade do “cenário cultural,” existam apenas ilhas, onde a arte política e a arte queer sejam possíveis. Pois, mesmo em mares revoltos, uma ilha não submerge tão facilmente.
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Março de 2026