Donat Blum Livre como um pássaro

Vogelfrei © Moisés Patrício

Para o escritor Donat Blum, a liberdade não é nem o pássaro que pode voar para qualquer lugar, nem o controle sobre o barulho dentro e fora de nós. Liberdade é confiança – justamente o que falta às vezes.

Acordo com os pássaros. E com eles em mim. Pressiono meu ouvido sobre o colchão para abafar o barulho e em vez disso ouço como, nos espaços ocos entre as molas de metal, o eco do meu coração pulsante fica cada vez mais alto e rápido e os trinados de fora penetram através dos canais auditivos em minha cavidade abdominal. Ali os pássaros ficam cada vez mais alvoroçados, socam  folhas, grama e palhas pontiagudas no estômago, que se contrai de medo de que o grasnido de um pássaro que soa mais como um sapo, os silvos e pipios incessantes, o ruflar agitado das asas nunca cessem, de que o ruído nunca mais passe, a pressão permanente nunca venha a diminuir, de que eles venham a se sobrepor a tudo para todo o sempre. Acima de tudo, a possibilidade infinita de um dia livre iminente, as semanas sem obrigações, os dois meses inteiros que pela primeira vez desde a pandemia deveriam ser só meus, que estariam reservados só para mim e o trabalho em meu romance. Em vez disso, esse chiado e esse farfalhar se instalam, a espiral gira cada vez mais rápido. Não consigo engolir nada no café da manhã, uma coisa da qual sem dúvida precisaria para obter energia, o suor, porém, se espreme através dos poros, escorre com calafrios pela testa.

O colégio na cidadezinha onde cresci ficava no alto de uma colina acima da escola de ensino fundamental. Lembro-me exatamente de quando subi as escadas certa manhã e descrevi a uma amiga minha ideia noturna de liberdade: será que somos livres quando nos conhecemos tão bem a ponto de saber exatamente o que desencadeia quais emoções em nós? Quando conhecemos tão bem nossos processos internos a ponto de poder prever nossas reações e assim intervir antes que a angústia, o medo ou a melancolia nos subjugue – ou pelo menos de poder decidir livremente que vamos permitir essas sensações com a certeza de que elas irão embora de novo?

Imaginava que assim eu me sentiria livre até mesmo na prisão. Tudo que eu precisaria fazer no espaço de paredes nuas e janelas gradeadas seria controlar meus pensamentos, minhas lembranças, minha imaginação e minha fantasia, guiando-os em uma direção benéfica.

Mas desde a saída gradual da pandemia de cena, tenho sido tomado por ataques de pânico já quando, em viagens de leitura ou escrita, preciso dormir em algum lugar onde não posso abrir as janelas – por  causa do barulho dos pássaros, do trânsito, dos sistemas de ventilação ou de um canteiro de obras onde o concreto está sendo perfurado por um metal e onde tudo tilinta, zune, vibra e estala. Mas também a ideia de acordar em um lugar à prova de ruídos, sem ouvir nada além da própria respiração, entregue ao próprio batimento cardíaco que se acelera, estimulando a espiral de pensamentos e vice-versa, não é menos aflitiva.

“O saber liberta” foi a frase proclamada por Ada e Theodor Lessing quando fundaram a primeira Volkshochschule [escola de formação de adultos] em Hannover, em 1924. O mais tardar desde a pandemia, quando fomos inundados com saberes sobre a vulnerabilidade e a finitude de nossos corpos, entendi que saber tudo o que poderia acontecer nos ensina pelo menos com a mesma intensidade a temer. Talvez por isso eu seja tomado às vezes, quando estou sentado em frente a um parquinho infantil e observo como as crianças sobem no escorregador, viram de cabeça para baixo nas barras de exercícios, correm atrás de um pombo ou se jogam ao chão, pela nostalgia de voltar a ser uma criança que não sabe das consequências; que está convencida de que uma flauta doce e uma muda de roupa seriam suficientes para deixar a casa dos pais e seguir pelo mundo. Uma criança que não aprendeu o que poderia dar errado, que não se preocupa com o que os outros pensam, que nunca passou pela experiência nem ouviu falar sobre o que problemas de luxo como espaços confinados podem desencadear.

Quando, estudante de colégio, subi as escadas do edifício da escola, eu possivelmente não conhecia ainda o “medo” em todas as suas dimensões. Pensava que ele seria o oposto da coragem. Seria o nervosismo antes das provas. A falta de vontade de fazer alguma coisa. Ou a adrenalina que entra em ação quando você ameaça cair em um abismo real – e não em um figurado como hoje. Faltava-me o conhecimento do medo capaz de arrancar você completamente do cotidiano e, com ele, do medo do medo, do medo de sucumbir ao delírio.

Desde que os ataques de pânico me assolam, o algoritmo descarrega posts sobre o assunto no meu feed do Instagram. Outro dia tinha uma imagem de quadrinhos com um pré-adolescente deitado no escuro do seu quarto, quando a mãe pergunta do outro lado da porta aberta: “Tudo bem, meu filho?” Em uma nuvem sobre o adolescente, aparecem os pensamentos que não se tem coragem de expressar: “Mamãe, você pode simplesmente me dar um abraço?”

Pode soar ridículo, mas quando um ataque de pânico se aloja em mim, tudo espeta, pica e trepida dentro de mim e não há nada que me acalme mais do que a simples afirmação de uma das pessoas que se relacionam comigo: “Tudo vai ficar bem” – acompanhada de um abraço longo e apertado.

No momento, e quem sabe talvez em 20 anos eu veja isso de forma diferente, a liberdade não é para mim nem o pássaro em frente à janela que pode voar para onde quiser, nem o controle sobre os pássaros dentro e fora de mim. Liberdade é confiança; é a afeição frente à própria impotência e vulnerabilidade; liberdade é permitir liberdade ao mundo interior e exterior.

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