Autor do Mês

O Goethe-Institut convida para a exposicão Autor do Mês, uma ação promovida pela Biblioteca.

Mensalmente, um conhecido escritor da língua alemã será homenageado pela nossa biblioteca em uma pequena exposição. Como um dos critérios de seleção, escolhemos o mês de aniversário do autor e criamos um espaço com um texto informativo sobre ele e suas obras disponíveis no nosso acervo para o empréstimo.

O objetivo dessa ação é dar vida ao acervo da biblioteca e criar um espaço de encontro entre o público e escritores de diferentes épocas. Com ela o escritor se materializa e o visitante poderá iniciar uma leitura com algum conhecimento prévio sobre vida e obra do autor.

Como tudo no Goethe-Institut, essa exposição é bilíngue (alemão e português).

* 30 de junho de 1974 em Bonn

No “The Guardian”, ela escreve sobre a crise do Euro e o futuro do exército alemão; na “Focus”, sobre a necessidade de desempoderamento dos parlamentos europeus; no “Sonntagszeitung”, sobre os direitos autorais; no “Tagesspiegel”, sobre padrões estéticos e de “vida saudável”; em programas de entrevistas, explica sua simpatia pelo Piratenpartei (partido político alemão). Ela é engajada, bem informada, tem posições claras, nunca é cínica.
(Volker Weidermann)


A jovem autora alemã não segue, nem um pouco, o clássico perfil de uma escritora. Pois observando sua carreira jurídica e sua interferência pública no mundo político, assim como sua presença midiática, mal se acreditaria que, além dos seus numerosos artigos jornalísticos, também é literariamente ativa. Com isso, inclusive, registrou sucessos consideráveis: seus romances foram traduzidos para 35 línguas. 

Juli Zeh estudou Direito em Passau e Leipzig e fez doutorado nas áreas de Direito Europeu e Direito Público Internacional. Viveu um tempo em Nova Iorque e na Cracóvia. Sua primeira obra literária, Águias e anjos (Guimarães Ed., 2005), foi um sucesso mundial, bastante marcada pelo seu histórico profissional jurídico. Seu engajamento político se reflete, por exemplo, no diário de viagem Die Stille ist ein Geräusch, que publicou em 2003. Depois de ter tomado conhecimento da falta de cobertura da Europa em relação à Guerra na Bósnia, ela mesma viajou para conhecer a região com os próprios olhos e conversar com cidadãos bósnios. Mais de vinte anos após o fim da guerra, ainda há pessoas morrendo anualmente em consequência dela. Cerca de 600 pessoas morreram, por exemplo, por causa de minas explosivas. Com a obra Die Stille ist ein Geräusch, Juli Zeh levou estes e outros fatos ao grande público.

A autora lutou também contra o registro do passaporte biométrico, considerando-o uma ofensa desnecessária à Constituição. Em 2009, criticou publicamente durante o lançamento de um livro, junto ao escritor Ilja Trojanow, alertando que o Estado invadiria dados privados do povo sob pretexto de defesa contra o terrorismo. Mais tarde escreveu uma carta aberta à Angela Merkel, na qual exigiu mais transparência em relação aos contingentes de vigilância e espionagem na Alemanha. Em 2013, entregou um abaixo assinado junto a outros 20 escritores alemães, com 67 mil assinaturas. Embora essa ação não tenha gerado resultado, Juli Zeh revalorizou a reputação do escritor como ser político ativo, algo que havia se perdido a seu ver e também na opinião de alguns colegas escritores. 

Em 2007, Juli Zeh pela primeira vez se mudou da capital Leipzig para uma província em Brandenburgo, onde mora com seu marido e seus dois filhos até hoje. A nova vida no vilarejo serviu como matéria para seu romance mais recente Unterleuten (2016), que na Alemanha é considerado “romance de vilarejo” ou “romance social”. A obra de 640 páginas trata de “rumores” e “fofocas” de uma pequena comunidade em Brandenburg e dos conflitos de interesses entre moradores e investidores, quando a construção de um parque eólico é planejada próximo ao vilarejo. Acontece um confronto grave entre defensores dos direitos humanos e dos animais e aqueles que querem ganhar dinheiro com a infraestrutura da revolução energética. O romance é dividido em seis partes, dentre as quais são relatadas perspectivas diferentes sobre as mesmas circunstâncias. A grande mudança da cidade para a província fascinou Juli Zeh desde o princípio. Em uma entrevista, mencionou que a maioria das guerras civis no mundo ocorreriam entre as civilizações rurais e urbanas. Muitas vezes, a política que é implementada nas regiões rurais parte das grandes cidades e a população mais afetada pelas medidas e decisões relativas à região, de fato, raramente é integrada às discussões.

Em artigo escrito para jornal Zeit, Zeh afirmou que não pertence a nenhum partido e que não se considera de esquerda, nem de direita. Entretanto, é constantemente convidada a participar de debates para dar opinião sobre questões políticas. Sua motivação como escritora não parte do desejo de criar opinião, mas de, através da literatura, transmitir ideias que possibilitem uma visão do mundo, não necessariamente jornalística, mas, de certo modo, política - comentou no mesmo artigo. Juli Zeh recebeu vários prêmios, entre eles o Thomas-Mann-Preis (2013) e o Hildegard-von-Bingen-Preis (2015). 


"Democracia não é um meio para conquistar um bom objetivo [...]. Democracia não é o método para a investigação do melhor resultado, mas sim um método para espalhar o poder."[1]

"Nem a realidade personificada é tão convincente como um preconceito bem sedimentado."[2]

"Para ser uma pessoa politizada, não é necessário um partido; menos ainda, uma graduação oficialmente reconhecida. É preciso sobretudo duas coisas: bom senso e um coração no peito."[3]

[1] Juli Zeh no programa de TV Philosophisches Quartett sobre o tema "As sociedades são passíveis de aprendizado"?, em maio de 2011
[2] Kleines Konversationslexikon für Haushunde, Schöffling, Frankfurt am Main 2005
[3] http://www.zeit.de/2004/11/L-Preisverleihung/seite-2
25 de junho de 1926 em Klagenfurt - † 17 de outubro de 1973 em Roma

Uma mulher que usou a arte da poesia e dos contos como resistência contra a guerra e o machismo. Sua proposta utópica de uma vida plena e pacífica marcou a literatura de língua alemã e a sociedade do pós-guerra.

De origem austríaca, Ingeborg Bachmann é considerada uma das poetas e escritoras mais importantes do século XX. Após a Segunda Guerra Mundial estudou filosofia, psicologia e filologia germânica em Innsbruck, Graz e Viena e em 1950 doutorou-se em Viena com a tese intitulada “A percepção crítica da filosofia existencialista de Martin Heidegger”. Mais tarde trabalhou alguns anos na rádio. Sua carreira literária se iniciou com a premiação do Grupo 47, uma plataforma de jovens escritores que visava renovar a literatura alemã após a Segunda Guerra Mundial. Por um longo período viveu em Roma com Max Frisch. Segundo críticos e ela mesma, esse tempo teve um impacto positivo na sua produção literária, porque seus poemas passaram a ser mais sensíveis, diretos e fortes.

Em 1953 lançou seu primeiro livro de poemas Die gestundete Zeit (O tempo aprazado, Assírio e Alvim, 1992), uma contraproposta ao realismo, que dominava a literatura do pós-guerra. Sua arte poética tem como característica a relação entre símbolos e pensamentos abstratos e entre o poder da língua, a poesia e a mordacidade intelectual. Bachmann é considerada ícone do primórdios do feminismo. Os dois contos escritos de uma perspectiva explicitamente feminina, A um passo de Gomorra (“Vem, para que eu acorde quando tudo isto já não vigorar – homem e mulher. Quando tudo isto tiver acabado!”) e O adeus de Ondina (“Vocês, com os vossos ciúmes, a vossa orgulhosa condescendência e a vossa tirania”) foram uns dos primeiros depoimentos feministas da literatura de língua alemã do pós-guerra.

"A verdade é conveniente ao homem."[1]

"Se tivéssemos a palavra, teríamos a língua, não precisaríamos das armas. A guerra já não se declara, continua-se apenas. O que brada aos céus torna-se o dia a dia."[2]

"Os heróis ficam longe das batalhas."[3]

[1] Tradução livre. Reden  „Die Wahrheit ist dem Menschen zumutbar - Rede zur Verleihung des Hörspielpreises der Kriegsblinden“. em: Werke Band 4. Piper 1978, p. 277.
[1] Tradução livre. Frankfurter Vorlesungen »Über Fragen zeitgenössischer Lyrik«. I: Figuren und Scheinfragen. 1959. em: Werke Band 4 (Essays usw.). Piper 1978, p. 185.
[1] Traduções de Sephi Alter, Este poema foi traduzido a meias com Renato Suttana. Original: Poema Alle Tage. em: Werke Band 4 (Essays usw.). Piper 1978, p. 46.
* 15 de julho de 1892 em Charlottenburg − † 26 de setembro de 1940 em Portbou
 
"(...) sua erudição era grande, mas não era um erudito; o assunto dos seus temas compreendia textos e interpretação, mas não era um filólogo; sentia-se muito atraído não pela religião, mas pela teologia (...), mas não era teólogo; era um escritor nato, mas sua maior ambição era produzir uma obra que consistisse inteiramente de citações; foi o primeiro alemão a traduzir Proust (juntamente com Franz Hessel) e St.-John Perse, antes disso traduzira Quadros Parisienses de Baudelaire, mas não era tradutor; resenhava livros e escreveu uma série de ensaios sobre autores vivos e mortos, mas não era um crítico literário; escreveu um livro sobre o barroco alemão e deixou um imenso estudo inacabado sobre o século XIX francês, mas não era historiador, literato ou o que for; tentarei mostrar como ele pensava poeticamente, mas não era poeta nem filósofo."
(HANNAH ARENDT. Homens em tempos sombrios)
 
Assim como descreve a filósofa alemã Hannah Arendt as particularidades do intelecto de Walter Benjamin, apontando para a impossibilidade de classificá-lo dentro das categorias habituais da produção artístico-intelectual, pode-se acrescentar a essa descrição, a paixão especial do escritor pelo colecionismo, como forma de exemplificar e intensificar as variedades de seu pensamento. Benjamin era um colecionador de livros, obras raras e sobretudo citações. Colecionava também brinquedos antigos e escreveu diversas reflexões sobre a infância. Observava as transformações do mundo moderno desde os hábitos cotidianos dos andarilhos pelas ruas de Paris aos aparatos tecnológicos que foram determinantes à arte de sua época, sem deixar de mencionar as experiências e reflexões acerca do uso do haxixe. Era de família judaico-alemã, estudou Filosofia, Filologia Germânica e História da Arte, em Freiburg e Berlim. Sua obra - ensaios, críticas, traduções, programas de rádio e muito mais - foi tão variada e sem limites que até hoje permanece a dificuldade para classificar ou categorizar sua produção textual.

Em virtude das circunstâncias precárias na Alemanha durante o nazismo, Benjamin – que, além de judeu, era simpatizante do comunismo – teve de viver seus últimos anos exilado em Paris. Essas e outras razões foram determinantes para dificultar a publicação de seus escritos na Alemanha da época. As obras Origem do drama trágico alemão, O conceito de crítica de arte no romantismo alemão e Rua de mão única foram publicadas, mas mal chegaram ao público. Atualmente, dentre seus trabalhos mais estudados estão os ensaios "A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica", "A tarefa do tradutor", "O autor como produtor", "Pequena história da fotografia", suas teses "Sobre o conceito da história" e fragmentos da longa obra inacabada intitulada "Passagens".

Além dos seus grandes trabalhos e visões peculiares sobre o mundo, Benjamin também foi marcado por uma vida trágica. Após 10 anos em exílio, atormentado por problemas financeiros, depressões e doenças, em setembro de 1940, o escritor cometeu suicídio na cidade fronteiriça de Portbou (Espanha), após não conseguir completar sua exaustiva fuga da França para os EUA. A trajetória de Benjamin em vida, bem como sua relação com grupos intelectuais na Alemanha do século XX, como Theodor W. Adorno, Max Horkheimer, o Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt, Bertolt Brecht, Hannah Arendt, Gershom Scholem, por exemplo, representam ainda um fragmento muito importante na história social do pensamento alemão.

Hoje, mais de 70 anos após sua morte, Walter Benjamin é considerado um dos grandes expoentes da crítica, da literatura, da história da arte e da filosofia, para além das fronteiras europeias. No Brasil, por exemplo, sua obra é estudada em todas as áreas das ditas Ciências Humanas. O modo transdisciplinar de se pensar as Humanidades está em voga e Benjamin já o praticava nos anos 1930.

"Ser feliz significa poder tomar consciência de si mesmo sem susto."[1]

"Quem observa as formas de trato, mas rejeita a mentira, é como alguém que se veste na moda, mas não usa camisa sobre o corpo."[2]

"Para homens: Convencer é infrutífero."[3]

"O sujeito do conhecimento histórico é a própria classe combatente e oprimida."[4]
 

[1] Rua de mão única em: Obras Escolhidas II, Editora Brasiliense S/A, tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. p. 37.
[2] Rua de mão única em: Obras Escolhidas II, Editora Brasiliense S/A, tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. p. 36.
[3] Rua de mão única em: Obras Escolhidas II, Editora Brasiliense S/A, tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. p. 14.
[4] Sobre o Conceito da história em: Obras Escolhidas I, editora brasiliense, tradução de Sergio Paulo Rouanet. p. 228.
* 15 de maio 1911 em Zurique; † 4 de abril 1991 em Zurique

Como se manter vivo? Essa pergunta surge cada vez mais necessária em um mundo onde muitas pessoas ficam diante do computador cerca de 8 horas por dia e 4 horas, em frente à televisão. Neste mundo, onde nosso viver é condicionado, pré-fabricado e as pessoas são sobrecarregadas por imagens e dados externos, a pergunta proposta e os textos de Frisch são mais atuais do que nunca. Eles unem a vivência à virtualidade, o essencial ao cotidiano, o político ao privado [...]. 
(Julian Schütt, no Prólogo à biografia de Max Frisch)

Max Frisch foi um escritor suíço e o primeiro autor a reconquistar, após a II Guerra Mundial, reconhecimento internacional na literatura alemã. Suas obras foram traduzidas para várias línguas e são usadas como base para o ensino da língua alemã. Com os dramas Biedermann e os incendiários (1953) e Andorra (1963), assim como os romances Homo Faber (1957) e Chamem-me Gantenbein (1964), Frisch fez o maior sucesso. 

Estudou Filologia Alemã por algum tempo sem, porém, concluir o curso, pois o currículo não lhe proporcionava instrumentação necessária ao trabalho de escritor, segundo suas expectativas. Na esperança de exercer uma profissão que pudesse lhe garantir independencia financeira, resolveu fazer um curso de Arquitetura. Enquanto isso, trabalhou para o jornal Neue Züricher Zeitung como autônomo, escrevendo textos jornalísticos baseados, em grande parte, em estudos de introspecção biográfica e processamento da experiência vivida. Após graduar-se em Arquitetura, passou a trabalhar tanto como arquiteto, quanto escritor, dedicando-se harmonicamente à rotina dos dois ofícios. 

O foco de sua obra literária é a abordagem do “self”, a percepção de si mesmo. Sua escrita é, de um modo geral, uma mistura entre elementos autobiográficos e ficcionais. Seguindo esta linha, Frisch encontrou no diário a forma de expressar e registrar perfeitamente suas introspecções e viagens extensivas. Em períodos de estadia no México, em Cuba, na China, Itália e Grécia, entre outros lugares, reuniu matéria suficiente para muito de sua escrita. Além disso, as viagens propiciavam ainda a chance de um permanente recomeço, pois era somente diante do desconhecido que se sentia um ente vivo.  Em 1954, quando seu romance Stiller tornou-se um marco em sua carreira, deixou sua família para viver exclusivamente do ofício de escritor.

Assim como para seus contemporâneos, a II Guerra Mundial foi um grande impacto na vida do autor. Ele precisou partir para a guerra e ocupar uma posição subordinada na frente de batalha. Apesar do serviço militar, Frisch não deixou de escrever. Ele produziu cada vez mais obras de teatro, que lhe consagraram sucesso. Alguns desses dramas abordam a temática da guerra: Nun singen sie wieder (1945) fala sobre o sentimento de culpa entre os soldados que seguem ordens desumanas, partindo da perspectiva subjetiva do atingido. Mesmo abordando a questão, a obra foi considerada apolítica. 

Como provam suas obras autobiográficas, Frisch vivenciou uma série de relacionamentos amorosos, que, em sua maioria, foram casos problemáticos. Em 1942 ele se casou com a arquiteta Gertrud Meyenburg, com quem formou uma família de três filhos. Em 1958 conheceu a escritora austríaca Ingeborg Bachmann e um ano depois se divorciou da sua primeira esposa. Ele pediu por escrito Bachmann em casamento, mas ela negou. Mesmo assim, em 1960 Frisch a seguiu, quando ela se mudou para Roma, e lá residiu até 1965. Viveram juntos durante uma época, mas se separaram, pois a convivência, carregada de infidelidade e ciúmes, se tornou cada vez mais problemática. Frisch superou o relacionamento com Bachmann na obra Chamem-me de Gantenbein. Seguiram outros relacionamentos com diversas mulheres. A maioria das parceiras era muito mais jovem que ele: Marianne Oellers, 32 anos de diferença; Karin Pilliod, 24 anos. O relacionamento conflitante com o sexo oposto foi também temática central em sua obra. 

Max Frisch morreu em 1991, devido às consequências de um câncer no intestino, já tendo confessado seu vício por álcool em uma entrevista. Na Universidade de Zurique (ETH), onde o escritor recebeu, em 1940, seu diploma de Arquitetura, foi criada a Fundação Max Frisch (Max Frisch Stiftung). Lá, seu espólio é conservado, recuperado e catalogado. Hoje, sua obra é leitura programada em escolas, tem valor de destaque e posição fundamental, normativa e duradoura na literatura da língua alemã.

“Crise é um estado produtivo. Só falta tirar-lhe a conotação de catástrofe.” 

“Mais cedo ou mais tarde cada um inventa uma história, que considera, muitas vezes a custo de enormes sacrifícios, sua vida.”

“Infidelidade é [...] nossa desesperada esperança contra o definitivo. Não é o anseio, mas é a saudade do anseio.”[1]

“Tudo pode ser contado, menos a vida real. Esta impossibilidade nos condena a continuar do jeito que nossos parceiros nos vêem.”[2]


[1, 2] Interview https://www.welt.de/print/wams/kultur/article12894443/Man-kann-alles-erzaehlen-nur-nicht-sein-Leben.html
Ulla Hahn © Julia Braun * 30 de abril de 1945 em Brachthausen

Ulla Hahn é uma das poetas contemporâneas mais importantes da Alemanha. Sua coletânea de poesias Herz über Kopf (1981) foi um sucesso de vendas na Alemanha, seguida por Freudenfeuer (1985) e Unerhörte Nähe (1988). Escreveu seu primeiro romance em 1991, Ein Mann im Haus, mas o grande sucesso mesmo irrompeu com a trilogia: Das verborgene Wort (2001), Aufbruch (2009) e Spiel der Zeit (2014).

Como professora de Língua Alemã, Ulla Hahn foi docente nas Universidades de Hamburgo, Bremen e Oldenburg. Em 1978, completou seu doutorado com a tese “As tendências de desenvolvimento da literatura socialista da Alemanha ocidental na década de 60” (tradução livre). Trabalhou ainda como editora de literatura na Radio Bremen. Para ingressar no mundo acadêmico, Ulla teve de retroceder em algumas etapas de formação, pois durante a educação básica foi preparada somente para um curso técnico. Após completar a formação para profissionais de secretariado, estudou por conta própria e conseguiu chegar à Universidade.

Em 1981, a autora ganhou o prêmio de poesia mais importante para a nova geração germanófona: o Leonce-und-Lena-Preis. O júri considerou que suas poesias mostram um comportamento soberano diante das tradições líricas, que ela teria conseguido encontrar a expressão lírica para a situação atual da vida. Uma das características marcantes de sua poesia é a tensão entre emoções e as artes, luto e ironia. Embora haja opiniões divergentes, Ulla Hahn é sobretudo poeta. Porém, o sucesso e as críticas positivas à trilogia provam que a língua e as palavras têm, para ela, uma importância crucial.

A trilogia de romances descreve a essência do ano 1968 na Alemanha. O papel da protagonista Hildegard Palm (Hilla) é uma espécie de alter ego da própria autora. Trata-se de uma menina de família trabalhadora, que foi criada em um ambiente católico e hostil a todo tipo de desenvolvimento intelectual, no meio da província do Reno. Hilla esforça-se por aprender o alemão padrão e é castigada por ler livros, mas ao final consegue transgredir o ambiente intelectualmente limitado e acessar o universo das ideias. Das verborgene Wort narra o período em que Hilla cursava o ensino médio; Aufbruch, seu caminho do colégio à Faculdade de Letras; Spiel der Zeit, conta a saída de Hilla da casa dos pais para morar no alojamento estudantil, na cidade de Colônia, onde se apaixona pela primeira vez e é feliz. Um filme homônimo já foi baseado em seu segundo romance Aufbruch.

A própria Ulla Hahn é testemunha do movimento estudantil de 1968 em Colônia e seus romances são entremeados por fatos históricos e particularidades autobiográficas. Os paralelos entre a história da protagonista e o passado da autora é percebido, de início, na semelhança gráfica entre os nomes Ulla e Hilla. Hahn também teve de superar diversos obstáculos até conquistar o mundo acadêmico.

Hahn é membro da Freie Akademie der Künste de Hamburgo e do Centro PEN Alemanha. Ela assinou o Appell der 33, desenvolvido pela revista EMMA após as eleições federais em 2005, que exige um comportamento justo com os resultados das eleições. Em sua vida, Hahn é politicamente engajada, enquanto em suas obras raramente divulga posicionamentos políticos.

"Escrever é a libertação." [1]

"Sempre carregamos nossas origens dentro de nós. Isso não significa necessariamente um peso que temos de carregar pelo resto da vida. Tudo depende de transformar esse peso em mantimento, que é uma experiência proveitosa. O que já é, então, muito mais que conciliação." [2]

"Você entra em um livro, e chega a outro mundo." [3]

[1] http://www.ksta.de/22837374 ©2017
[2] http://www.ksta.de/22837374 ©2017
[3]Ulla Hahn, Das verborgene Wort, Dt. Verl.-Anst., 2001
 
* 20 de outubro de 1946 em Mürzzuschlag

Vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, Elfriede Jelinek exerce, desde os anos 70, grande influência literária e política. Honesta, sem floreios, a escritora austríaca tematiza assuntos extremamente sensíveis e polêmicos, como a superação do passado nazista na Áustria ou as atuais correntes radicais da direita na Europa. Hoje, ela é uma das autoras mais conhecidas e controversas no espaço germanófono.

Por conta de uma educação musical rigorosa, Elfriede Jelinek teve contato com as artes desde cedo. Estudou Piano e Órgão no Conservatório de Viena e, após o ensino médio, se inscreveu na faculdade de Estudos Teatrais e História da Arte, na Universidade de Viena. Na mesma época, começaram os problemas psicológicos, pelos quais foi obrigada a largar a faculdade e viver um ano em isolamento. Em decorrência de seu estado mental, sua carreira acadêmica acabou. Por outro lado, seu percurso como escritora apenas iniciava, pois foi quando escreveu seu primeiro livro de poesia, Lisas Schatten (As sombras de Lisa, tradução livre): uma análise crítica e marxista do capitalismo e da sociedade consumista, bem como uma crítica acentuada à sociedade patriarcal.

Após a morte de seu pai, Jelinek começou a se recuperar e passou a trabalhar como escritora e dramaturga independente, em Berlim e Munique. Com o tempo, a autora foi se engajando cada vez mais politicamente. Tornou-se membro do Partido Comunista Austríaco e foi ativista no movimento estudantil de 1968. Em 1975, com o romance Die Liebhaberinnen (As amantes, ASA Literatura, 2006), começou a fazer sucesso. No início dos anos 80, Die Ausgesperrten (Os excluídos, ASA Literatura, 2008) foi lançado primeiro como áudio, depois como romance e, por fim, como longa-metragem. Jelinek passou a ser mundialmente conhecida pela conquista do Prêmio Nobel de Literatura em 2004. Em mensagem honrosa, a Academia elogiou a paixão linguística da autora e assim a descreveu: “seu fluxo musical de vozes e contravozes em romances e peças de teatro que, com cuidado linguístico extraordinário, revelam o absurdo que são os clichês sociais e seu poder de subjugar”.

Elfriede Jelinek se define, acima de tudo, por uma escrita dura, muitas vezes brutal. A escritora não se deixa deter por respeito a eventuais sensibilidades, nem por conta dos limites de um pretenso “bom-gosto”. Como herdeira do pós-guerra, escreve com muita frequência sobre problemas sociais. Provavelmente parte de sua fama é fruto do seu sarcasmo e das suas provocações mordazes. O primeiro grande escândalo foi provocado com a estreia da sua peça Burgtheater (Teatro Municipal) em 1985, escrita em uma linguagem de dialeto, grotesca e cômica, que aborda o passado nazista austríaco. A partir deste momento seu nome passou a ser frequentemente relacionado a um antipatriotismo. Sua peça Stecken, Stab und Stangl e seu romance Die Kinder der Toten (Os filhos dos mortos, tradução livre), ambos de 1995 e nos quais o acentuado antissemitismo atual foi tema, foram mal-entendidos pelos críticos como um “canto de ódio” contra a própria sociedade. Ela mesma descreve a sua relação com a Áustria como cheia de ambiguidade, mas sem ser negativa. Com a publicação da sua obra Lust (Desejo, Tordesilhas, 2013), considerada em diversos momentos um “pornô feminino” em uma linguagem obscena e agressiva, provocou tumulto. Independentemente do seu posicionamento político, seus escritos estão sempre carregados de elementos autobiográficos, como se pode observar no romance Die Klavierspielerin, 1983 (A pianista, Tordesilhas, 2011), que traz paralelos evidentes da sua vida pessoal.

Soma-se ao desenrolar de suas obras, uma linha de orientação feminista. Em um ensaio sobre a escritora austríaca Ingeborg Bachmann, Jelinek assume notável atitude em relação à posição da mulher na sociedade, comparando-a, de um modo geral, a um “morador de um planeta desconhecido” e à uma “criança, que ainda não foi instruída”. “A mulher é o outro, o homem é a norma. Ele tem o seu lugar e ele funciona, produzindo ideologias. A mulher não tem lugar”. Por isso, Jelinek entende o ato de escrever como uma tentativa da mulher de se tornar sujeito.

Hoje em dia, a autora já ganhou vários prêmios. Sua popularidade aumentou bastante em razão de sua relevância contínua, ainda que suas obras permaneçam controversas até para os novos tempos.

"Você já deve ter reparado que eu nada sei e que só falo as coisas da boca pra fora, uma andante da língua."

"Eu literalmente cavo com o machado para que não cresça grama por onde as minhas personagens pisam."

"Com a visão de um estrangeiro mudo, um morador de um planeta desconhecido [...] a mulher olha de fora para a verdade da qual ela não faz parte. Assim ela é condenada a dizer a verdade e não a bela aparência."
* 23 de fevereiro de 1899 em Dresden | † 29 de julho de 1974 em Munique

O escritor, roteirista e publicista alemão, que também escrevia textos para cabaré, é um dos autores da Literatura Infantil mais importantes da Alemanha. A verdade é que Kästner queria ser professor, mas após uma série de experiências negativas no sistema educacional, desistiu e começou a escrever. Suas produções literárias infantis de maior êxito são Emil und die Detektive (Emil e os detetives, Pavio, 2009), Pünktchen und Anton (Pontinho e Antônio, tradução livre) e Das fliegende Klassenzimmer (A sala de aula voadora, tradução livre), que hoje em dia são considerados clássicos da Literatura Infantil e que já ganharam muitas adaptações para o cinema.

Erich Kästner cresceu como um pequeno-burguês em Dresden. Essa fase de sua vida foi marcada pelos problemas existenciais de seu pai, mas o desejo permanente de ascensão social de sua mãe, com quem ele tinha um relacionamento muito próximo e harmonioso; salvou a família do declínio social. Com o salário suado que ganhava como costureira e, mais tarde, como cabeleireira pôde proporcionar a seu filho uma formação que ia além da escola: leituras, aulas de piano, visitas em óperas e teatros, trilhas e passeios de bicicleta anuais. Os custos escolares, um seminário de formação de professores do ensino médio cursado em 1913, assim como uma parte dos gastos com a universidade foram custeados pela mãe Ida Amalia. A maior parte dos custos com os cursos de Língua e Literatura Alemã, Filosofia e Teatro pôde ser financiada pela “bolsa de estudos dourada” (Goldenes Stipendium) da cidade de Dresden. Tendo em conta a condição social da família, educação e cultura não eram de forma alguma natural e só foram conquistadas com muito sacrifício.

A Primeira Guerra Mundial foi um acontecimento marcante na trajetória de Erich Kästner. No seu livro autobiográfico escreveu: “A Primeira Guerra Mundial começou, e minha infância acabou.” Ele sempre foi consciente quanto a importância da infância e o poder de destruição da guerra e muitas vezes descreveu sua própria infância como “era dourada”. Ao longo da vida de Kästner, sua mãe Ida Amalia costumava alugar quartos do seu apartamento, geralmente para pedagogos. Isso contribuiu bastante com o desejo de Kästner de se tornar professor. Na escola, apesar da violência dos professores, este desejo permaneceu. Em 1917, suas experiências cruéis durante a formação militar para a Primeira Guerra Mundial fizeram dele um opositor decidido a todos os sistemas autoritários e um convencido e engajado pacifista. Após o seminário de formação de professores que cursou em Dresden – um internato com formas de vida e de comportamento similares às do exército – ele percebeu que a “instrução para subordinados” contradizia completamente com suas ideias sobre a pedagogia. Em uma de suas publicações, escreveu que não havia nada mais destrutivo para a cultura do que esta ditadura policial em áreas [...] da educação. Como consequência largou o seminário pouco antes de concluí-lo e, assim também, seu desejo pela profissão. Mas como autor de literatura infantil pôde seguir seu desejo de trabalhar como pedagogo e assim influenciar de forma ativa o desenvolvimento da sociedade, que considerou componentes essenciais da sua intervenção política.

Com o Nazismo, ficou cada vez mais difícil se posicionar criticamente contra o governo ou se assumir antimilitarista. Durante sua longa estada em Berlim, teve que presenciar seus livros serem queimados. Com isso foi obrigado a renunciar a qualidade pedagógica no seu trabalho e teve que produzir exclusivamente literatura infantil de entretenimento, que não fosse ofensiva aos nazistas. Em 1942, por ter sido proibido de escrever, teve que renunciar até mesmo os roteiros para a adaptação para o cinema do seu livro Das doppelte Löttchen (Cachos e tranças, Pavio, 2009). Só após a guerra, ele pôde retomar este trabalho. Durante a guerra, exilou-se na Suíça, onde não permaneceu por muito tempo, retornando pouco tempo depois à sua terra natal; porque acreditava que a cultura alemã era a única com a qual se identificava de verdade. “Sou como uma árvore que cresceu na Alemanha. Se necessário for, morrerei na Alemanha.” Suspeita-se que sua mãe tenha sido o motivo real do seu retorno à Alemanha. Quando a guerra acabou, mudou-se para Munique e lá se engajou no recomeço da vida literária. Como jornalista e cabaretista, produziu comentários críticos sobre acontecimentos políticos e sociais durante a fase da “reconstrução”, formação e consolidação da Repúblida Federal. Ele nunca pôde encontrar uma verdadeira relação com a literatura do pós-guerra, o que provavelmente era uma razão de seus problemas com o álcool, que o levaram a produzir cada vez menos.

Além de livros infantis escreveu romances e poemas crítico-satíricos para adultos. No entanto, seu público-alvo sempre foi mais as crianças e os jovens. Foi editor da revista juvenil Pinguin, escreveu roteiros e foi narrador em diversas adaptações de suas obras para o cinema. Embora Kästner nunca tenha se casado, teve longos relacionamentos e um filho chamado Thomas, a quem dedicou sua obra Der kleine Mann (O homenzinho, tradução livre, 1963).

"O homem é bom. E por isso ele vai mal. Pois se ele estivesse melhor, ele seria mau."[1]

"A política – mais a sua direção conservadora – começou de uma maneira insuportável a ter a tutela do espírito. Porém nada parece mais destrutivo para as culturas que essa economia policial em áreas do pensamento, da arte e da educação."[2]

"Vida sempre é risco de vida."[3]

"Não há nada de bom, a menos que alguém faça algo de bom."[4]

[1] Tradução livre. Gesammelte Werke Band I Gedichte, Der Mensch ist gut, Munique : dtv, p. 34
[2] Tradução livre. Gesammelte Werke Band VI Publizistik, Die Jugend als Vorwand, Munique : dtv, p. 61
[3] Tradução livre. Gesammelte Werke Band I Gedichte, Munique : dtv, p. 271
[4] Tradução livre. Gesammelte Werke Band I Gedichte, Munique : dtv, p. 277
  
Foto: Heinrich Mann © S. Fischer Verlag GmbH Foto: Heinrich Mann © S. Fischer Verlag GmbH * 27 de março de 1871, Lübeck | † 11 de março de 1950, Santa Mônica (Califórnia)

O autor como crítico da sociedade. Heinrich Mann foi o primeiro a cunhar este papel na Alemanha e o preencheu com substância e dignidade conforme a cultura europeia. Há que se lembrar sempre de sua análise acerca do espírito alemão, quando as autoridades exigem nossa submissão. (Joachim Scholl)

Desde cedo, Heinrich Mann começou a escrever críticas e reflexões políticas. Teve uma juventude rebelde e abandonou o ensino médio, assim como a formação de livreiro - iniciada apenas para satisfazer seus pais - e o voluntariado em uma editora. Após uma série de fracassos na tentativa de seguir um caminho profissional padrão, decidiu morar em Munique, depois Berlim e algumas vezes na Itália, buscando trabalhar como escritor independente. Seus primeiros romances Im Schlaraffenland (Na terra da abundância, tradução livre, 1900), Die Göttinnen (As Deusas, tradução livre, 1903) e Die Jagd nach Liebe (A caça pelo amor, tradução livre, 1903) foram escritos no estilo fin-de-siècle, porém com um toque antissemita. No ano de 1904, publicou o romance Professor Unrat, uma caricatura da elite intelectual alemã da época. O autor mostrou a que ponto pode chegar a dúbia moral burguesa, quando entregue a valores superficiais, e a obra tornou-se um registro sobre a mentalidade alemã antes das duas grandes guerras.

Heinrich Mann foi o primeiro de cinco filhos de uma família de negociantes considerada, à época, uma das mais nobres de Lübeck. Sua mãe, Julia Silva-Bruhns, emigrou do Brasil para Alemanha ainda na infância. Apesar das raízes brasileiras na vida de Mann, suas obras nunca revelaram alguma possível influência cultural. A fazenda onde sua mãe vivera os primeiros anos de vida, ainda existe em Paraty, mas está abandonada.

Seu pai, Thomas Johann Heinrich Mann, foi senador para assuntos financeiros e proprietário de uma grande empresa comercial. A riqueza da família Mann se extinguiu com a morte do patriarca e o concomitante e inevitável fechamento de sua empresa. Este declínio social foi documentado pelo irmão de Heinrich e também escritor, Thomas Mann, no romance Buddenbrooks (Os Buddenbrooks: decadência de uma família, Companhia das Letras, 2016). Só após esse declínio e degradação, os dois irmãos passaram a se dedicar verdadeiramente à literatura, ainda que em diferentes direções.

O conservadorismo no sentido político já habitava o meio social da família Mann. Possivelmente esse fora um motivo pelo qual Thomas se deixou levar pela empolgação das massas para a guerra, antes que ela de fato estourasse. Heinrich, ao contrário, se rebelou desde cedo contra formas de pensamento militarista e imperialista. Essas divergências de opinião resultaram numa interrupção de contato, durante muito tempo, entre os dois irmãos. Só após a Primeira Guerra, quando Thomas se revelou abertamente a favor da República de Weimar e seus valores democráticos, deu-se a reaproximação. Com o fim da guerra, o livro Der Untertan (O súdito, Mundaréu, 2014), que antes sofrera censura, passou a ser vendido a milhares de pessoas. Mesmo com o súbito sucesso, Heinrich não se acomodou. Continuou a luta mantendo postura crítica, engajado pela jovem democracia, pela compensação com a França e por uma organização intergovernamental (“Völkerbund”) que tinha como objetivos a paz, o desarmamento internacional e a segurança coletiva. O filme O anjo azul (1930), protagonizado por Marlene Dietrich, foi baseado em seu romance Professor Unrat, aquele escrito em 1904.

Quando Hitler passou a ganhar cada vez mais aprovação e apoiadores do povo alemão, Heinrich já havia se dado conta do perigo. Após a tomada de poder e sua exclusão da Academia das Artes, o escritor se exilou na França. No mesmo ano, foi privado de sua cidadania alemã. O exílio na França redobrou suas forças publicistas na luta contra os nazistas, mas, por conta das circunstâncias precárias resultantes da invasão alemã, se viu obrigado a seguir em fuga para os Estados Unidos. Essa decisão salvou a vida de Heinrich, mas o levou à pobreza e à solidão, pois não conseguiu se sustentar com a profissão e acabou ficando financeiramente dependente do irmão Thomas (o apoio foi mantido de forma discreta para que Heinrich não se sentisse humilhado). Além dos problemas existenciais, a queima dos seus livros e a perda da identidade pela expatriação, Heinrich enfrentou uma série de fatalidades em sua vida privada. Suas duas irmãs, Carla e Julia, cometeram suicídio ainda antes da Segunda Guerra. No exílio, sua esposa Nelly Schröder, após um longo período de dependência alcoólica, tomou a mesma decisão.

Foram inúmeras as vezes em que Heinrich Mann foi ensombrado pela figura do irmão, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, Thomas Mann. Talvez as opiniões políticas de Heinrich tenham colaborado para isso, por ser visto como um radical esquerdista. É possível que suas severas críticas sociais tenham distraído a recepção de sua obra, enquanto Thomas, se abstendo da plataforma política, pode alcançar um público maior.

A volta de Heinrich Mann para a Alemanha, após a Segunda Guerra, era esperada pelo governo socialista da antiga Alemanha Oriental, que desejava nomeá-lo presidente da Academia das Artes Alemãs. Mas isso nunca chegou a acontecer. Heinrich Mann faleceu antes de retornar, em 1949, nos Estados Unidos e nunca pôde receber a honra merecida.

"Democracia, no fundo, é o reconhecimento de que todos nós, de modo social, somos responsáveis uns pelos outros." [1]

"A República é [...] o Estado aberto aos pensamentos. Não tem dogma, nem o deve ter; pois esse Estado é a expressão relativa às pessoas, de ordem mutável. Falta-lhe a hereditariedade do poder. Para isso, ele tem o direito à ideia." [2]

"A República tem de manter o sentido aberto. Tem de continuar sendo livre adaptando-se a novas ordens mentais e econômicas." [3]

[1] Tradução livre. Der tiefere Sinn der Republik, in: Mann, Heinrich. Essays. Berlim : Claassen Verlag, 1960. p. 547
[2] Tradução livre. Der tiefere Sinn der Republik, in: Mann, Heinrich. Essays. Berlim : Claassen Verlag, 1960. p. 545
[3] Tradução livre. Der tiefere Sinn der Republik, in: Mann, Heinrich. Essays. Berlim : Claassen Verlag, 1960. p. 545
 
* 14 de setembro de 1817 em Husum - † 4 de julho de 1888 em Hanerau-Hademarschen

Foi um escritor alemão – relevante poeta, autor de novelas do período realista – com origem e influências da cultura do norte da Alemanha. Na sociedade burguesa, exercia a profissão de jurista. Ao lado de Theodor Fontane e Gottfried Keller, Storm é atualmente um dos mais importantes representantes do realismo alemão.

Filho de advogado, criado no cerne de um mundo patriarcal, Theodor Storm seguiu a carreira do pai e estudou Direito, em Berlim e em Kiel. Ainda na faculdade publicou, juntamente com seus amigos, os primeiros escritos “Livro de canções de três amigos” (1843). Devido ao seu engajamento contra a soberania dinamarquesa, foi privado do exercício da advocacia em 1852 e obrigado a exilar-se durante 12 anos. Nesse período, escreveu poemas de cunho político-patriótico. Somente após a retirada dos dinamarqueses, Storm pode retornar à sua terra natal, Husum. Embora escrevesse sobretudo poemas – salvo determinados momentos em que se dedicava mais à prosa, gênero que de fato lhe rendeu fama – sabia mesclar com talento diferentes gêneros. Tal referência pode ser observada na obra “Histórias de verão e canções” (1851), uma excelente mistura de trechos prosaicos, contos de fadas e poesia. Sua última obra, “A assombrosa história do homem do cavalo branco”, se tornou seu romance mais conhecido e até hoje é leitura obrigatória nas escolas alemãs.

Aquilo que para Fontane representava os vilarejos do antigo Brandemburgo e a aristocracia prussiana; para Keller, os Alpes e o Reno Superior, os artesãos e camponeses; para Storm eram a costa do Mar do Norte, a cidade pequena, com seus pescadores, comerciantes e funcionários públicos. Quase sempre, os principais cenários da sua obra se passam em Husum, na costa do Mar do Norte. Paisagens que ele, bem ao estilo característico do realismo poético alemão, costumava descrever artística e detalhadamente. Ele escrevia histórias de família, histórias ternas de paixões e uniões afetivas que duram vidas, com foco na maioria das vezes na sua terra, na família e no amor. Às vezes autobiográfico, na maioria das vezes novidades do cotidiano: histórias que ele escutava, lia, casos do seu trabalho como juíz. O centro criativo dos seus pensamentos, sentimentos e do seu ato de escrever, girava em torno da vida e do amor que não deram certo.

Já familiarizado com a filosofia popular materialista e adversário aos privilégios aristocratas e à ortodoxia teológica, Storm escreve sobre as contradições entre a afirmação da vida e a sensação de ameaça ao seu ideal de ser humano harmônico. Em alguns poemas, Storm retrata estados bucólicos com nostalgia e um sentimento de perda.

Apesar dos seus poemas políticos, após a Segunda Guerra Mundial, Storm é visto mais como escritor apolítico de novelas sobre o destino e de poesia atmosférica sobre a natureza. Por conta de seu foco na região natal, é normalmente considerado um autor da “Heimatkunst”. Husum é, até hoje, conhecida como cidade litorânea cinzenta, por razão de seu poema “A cidade”.

"Ó permaneças fiel aos mortos, que vivendo entristecestes;
Ó continues fiel aos mortos, que vivendo te amaram."

"Lá para o norte voa a gaivota,
Lá para o norte voa o meu coração; [...]
os dois voam rumo à terra natal."

"Nestes tempos, crueldades douradas são refrescantes como tempestades."
* 28 de novembro de 1881 em Viena - † 22 de fevereiro de 1942 em Petrópolis

“Zweig não acha ou espera que possa mudar o mundo com seus escritos; a sua única ambição é ajudar a diminuir a amargura do sofrimento humano, ensinando-nos a conhecer mais detalhadamente sua raíz e motivos. Sua metodologia diante da verdade não é idealista, nem materialista no sentido marxista. Ele não conhece nenhum método, por meio do qual o ser humano possa ser julgado ou classificado. O único que ele exige e reconhece é a civilização, que serve ao ser humano.“ (KLAUS MANN)

Stefan Zweig era judeu austríaco, filho de um industrial. Estudou Filologia Germânica e Românica em Viena e Berlim, e viajou o mundo. Na Primeira Guerra Mundial, mudou-se para a Suíça, depois se instalou em Salzburg, obrigado a fugir de Hitler, em seguida, para Londres, depois para Nova Iorque e, por fim, para o Brasil. Em seu tempo de vida, foi o autor de língua alemã mais traduzido. Apesar disso, seu nome constava na lista dos “autores proibidos” do Terceiro Reich. No exterior era famoso e valorizado, tinha um bom casamento e podia dar sequência aos trabalhos literários mesmo em exílio de forma bem-sucedida, o que costumava ser raramente possível com pessoas politicamente perseguidas. Mesmo assim, em 1942, Zweig decide cometer suicídio. Os motivos permanecem enigmáticos, devido a uma vida aparentemente boa. Se a guerra e a destruição das ciências humanas na Europa despertaram uma melancolia incurável no espírito convictamente pacífico e humanista do autor, ou se outros fatores determinaram o acontecimento, sobre isso só restam especulações.

Zweig escreveu ensaios, traduziu obras de Verlaine, Baudelaire e sobretudo Émile Verhaeren. Trabalhou ainda como jornalista. Como intelectual engajado, foi veemente contra o nacional-socialismo e o revanchismo, promovendo a ideia de uma Europa unida através dos valores humanistas. Razão suficiente para os nazistas colocarem seu nome na lista dos autores que teriam seus livros publicamente queimados. Sua terra natal, a Áustria fazia parte do Reich Alemão (incluída oficialmente em 1938) e seus livros acabaram sendo proibidos nos dois países.

Sobre Zweig, é comum falar-se de três vidas: uma, o mundo da burguesia, aparentemente seguro, no qual ele foi criado; outra, na terra escolhida para viver, Salzburg; e a terceira vida, em exílio. Sua obra Autobiografia: o mundo de ontem (Zahar, 2004) faz uma retrospectiva dessas três vidas.

Um traço marcante na escrita do autor é a influência da Psicanálise. Correspondia-se frequentemente com Sigmund Freud e assim surgiu uma íntima amizade entre os dois. Muitas de suas obras são cunhadas pela psicanálise freudiana: Segredo ardente (Zahar, 2015), Amok (Nova Fronteira, 1993), Xadrez (Nova Fronteira, 1993) e Confusão de sentimentos (Zahar, 2015). Em seu único romance concluído Coração inquieto (Editora Guanabara Waissman Koogan, 1951) quase criou um gênero próprio, que pode ser considerado como um “naturalismo psicanalítico” ou um “realismo da alma”. Sua aspiração por compreender as coisas a partir de um prisma psicológico era refletida no jeito de tratar as pessoas ao seu redor. Seus amigos e conhecidos o descreviam como uma pessoa bastante sensível, compreensiva e gentil.

Aquilo que lhe confere certo heroísmo é o fato de que ele, em gritante contraste com outros escritores judeus de sua época, foi reconhecido não somente após a morte. Apesar da censura e da queima de seus livros, foi muito valorizado e respeitado no exterior já ao longo da sua vida. O governo brasileiro, inclusive, insistiu em um funeral oficial e a uma rua no Rio foi dado seu nome. Seu último domicílio em Petrópolis foi transformado no Museu Casa Stefan Zweig. Este ano foi lançado o filme Antes da aurora – Stefan Zweig na América (tradução livre), da diretora Maria Schrader, que acompanha o escritor austríaco durante o exílio no Brasil. O título faz referência a uma frase da sua carta de despedida.

"Eu acredito, que chegará o dia no qual passaportes e fronteiras farão parte do passado. Duvido, no entanto, que ainda viveremos isso."

"Meu desejo de ser imparcial em todas as coisas, e pela vontade inabalável de apreciar sempre os povos, tempo, formas e obras apenas no seu sentido positivo e criador, e de servir através de tal “querer compreender” e “fazer compreender”, humilde porém fielmente, ao nosso indestrutível ideal: a mútua compreensão entre homens, pensamentos, culturas e nações."

"Tudo aquilo que esquecemos da própria vida, na verdade já tinha sido  condenado a ser esquecido por um instinto interno."