No momento, a democracia está sendo submetida a um teste de resistência – também na Alemanha. Quanto mais sólida ela se torna, mais vai sendo questionada e atacada por dentro. Nestes tempos difíceis, a contestação através do humor seria inútil ou até ingênua? De forma alguma. Isso fica evidente não apenas nas manifestações de massa nas ruas, mas principalmente na atuação dos comediantes com histórico de migração, que usam o humor como ferramenta para abrir espaços destinados a protestos sérios.
Quando recebi o pedido para escrever este texto, minha reação foi de ceticismo. Constava que as democracias atravessavam uma crise de legitimidade e que o resultado das eleições fortaleceria justamente as forças que queriam abolir os princípios democráticos. Até aí, tudo verdade. Mas, em tempos de crise, as pessoas recorrem principalmente a um instrumento para protestar contra tais tendências: ao humor. Será mesmo...Em um filme de Woody Allen, há a seguinte fala: “Humor é tragédia mais tempo”. Mas o que acontece quando o tempo simplesmente não passa? Como em um delírio febril, hoje não conseguimos escapar de uma sucessão de manchetes sombrias: por todo lado, guerras e crises, os avanços constantes dos adversários da democracia, meu implante dentário que vem por aí, enfim, e todo o resto.
Será que o humor, como forma de protesto, ainda é capaz de atingir alguém? Certamente! Rapidamente percebi que o humor é, antes de tudo, um recurso poderoso que nos permite voltar o olhar para dentro de nós, mesmo quando a tragédia persiste. Isso aprendi por experiência própria: ele empodera quem protesta e, em sua melhor expressão, incentiva simpatizantes a se alinharem à causa. O riso liberta e desarma o medo – para especial irritação daqueles que fazem justamente do medo um instrumento político. Os psicólogos concordam: o humor fortalece a capacidade de resistência! E ouso afirmar que ele pode fazer ainda mais: o humor é uma força mobilizadora da solidariedade.
Um exemplo: no início de 2026, ocorreram na Alemanha manifestações de massa contra a extrema direita. O estopim foram votações conjuntas, no Parlamento, de alguns partidos democráticos alinhados com a extrema direita – para muita gente, uma quebra de tabu. Naquelas semanas, em meio à indignação, uma imagem bem-humorada começou a circular: os pais haviam colocado uma placa de dupla face em volta do pescoço do filho, uma criança, com os mesmos dizeres na frente e no verso: “a resistência está crescendo”. Raramente a expressão running gag se encaixou tão bem. A imagem provocou risos nas ruas, virou tema de conversas e viralizou. A ideia foi celebrada nas redes e repetida inúmeras vezes. E pronto!
De fato, a internet se tornou um palco imenso para o protesto bem-humorado. Neste caso específico, não como terreno para shitstorm, mas como forma de empoderamento. E é justamente aí que um grupo de pessoas particularmente afetadas pelo enfraquecimento da democracia entra em cena: são pessoas não brancas e, como tais, integrantes de uma minoria. Personalidades conhecidas, com grande alcance nas redes, elas colocam a sociedade majoritária diante de um espelho. Além de cultivarem o gosto pelas boas tiradas e por uma narrativa envolvente, praticam um ativismo empático nas redes sociais.
Falamos aqui de artistas com o que se costuma denominar de “origem migratória oriental”. Na Alemanha, eles representam milhões de pessoas frequentemente tratadas de maneira diferente em razão de sua origem e aparência. E que acabam sendo alvo da maioria dos debates sobre política interna. Estão em casa na Alemanha, mas não raramente são indesejados dentro do próprio país.
Três deles são apresentados aqui como exemplo. Nem sempre concordo com suas opiniões, mas compartilho da dor com a qual encaram o presente:
A comediante e ativista Enissa Amani, Enissa Amani nasceu em Teerã, em 1981. Seus pais foram perseguidos politicamente por serem de esquerda e fugiram para a Alemanha. Em 2018, ela foi a primeira comediante alemã de stand-up a ter seu próprio programa solo na Netflix. Ao ser entrevistada na época, declarou: “Gosto de ser uma mulher feminina. Na minha casa, o álbum de rap fica na estante ao lado dos livros de Voltaire e do manual de maquiagem da Bobbi Brown”. Em diversas ocasiões, Enissa Amani se manifestou de forma inequívoca em programas de entrevistas sobre temas como extremismo de direita, racismo e misoginia. O que define a comediante: seu humor que parte de uma perspectiva feminista com sólida base intelectual e busca fortalecer comunidades marginalizadas. Uma humorista por vezes provocadora e polêmica, quase sempre de salto alto.
Tahsim Durgun, nascido em 1995, criador de conteúdo da Baixa Saxônia, de origem yazidi-curda, cujos pais vêm da Turquia. Ainda estudante de licenciatura, escreveu recentemente seu primeiro livro: Mãe, por favor, aprenda alemão, que tem como subtítulo a frase Nossa tentativa de integração em uma sociedade fechada. O livro ficou durante semanas no primeiro lugar das listas de best-sellers. Durgun aponta que muitos filhos de imigrantes precisam assumir responsabilidades mais cedo do que seus amigos não imigrantes – e como isso os afeta. O que define o comediante: um humor que escancara as injustiças estruturais do dia a dia e transita entre a crítica social, a autoironia e uma apresentação carinhosa de sua família. Tudo a partir do labirinto infinito da gramática alemã.
E, por último, mas não menos relevante Abdul Kader Chahin, nascido na Renânia do Norte-Vestfália, em 1993, filho de pais palestinos. Seu som é o dialeto áspero e simpático do Vale do Ruhr, uma antiga região de mineração no oeste da Alemanha. O comediante e poeta de slam aborda, em vídeos, podcasts e no palco, sua infância em um conjunto habitacional de prédios pré-fabricados, experiências racistas e as banalidades do dia a dia. Desde o dia 7 de outubro de 2023, ele vem sendo convidado para programas de entrevistas, onde é um dos poucos a abordar o sofrimento dos palestinos sem silenciar sobre o dos israelenses. O que define Chahin: um humor cru, mas com coração e postura, profundamente enraizado na realidade da vida das famílias de migrantes da região do Vale do Ruhr.
Nas redes sociais, os três somam, juntos, mais de dois milhões de seguidores. Além dos discursos de haters de sempre nos campos de comentários, muitas pessoas expressam agradecimento, discutem os assuntos em pauta e dão força umas às outras.
Amani, Durgun e Chahin personificam o protesto contemporâneo contra as injustiças: um protesto bem-humorado, mas nunca inócuo. Suas punchlines não são uma distração do que realmente importa, mas um convite ao debate. Seu humor cria espaços, nos quais os temas podem ser discutidos com seriedade e os protestos podem ser elaborados. Esses humoristas tornam visível aquilo que muitas vezes é ignorado. O que fazem é político – no melhor sentido da palavra. Não apesar de suas piadas, mas justamente por causa delas.
Bem, no fim das contas, não sobrou nada do meu ceticismo inicial — nada, nos dois sentidos. Seja por seu impacto interno ou externo, o humor e o protesto continuam sendo uma combinação poderosa mesmo em tempos de ares distópicos. Espero que isso também se aplique a mim e a meu implante dentário.
Agosto de 2026