Para quem procura uma trégua na guerra entre os gêneros, a Netflix pode não ser o endereço certo. Em “A crise dos caras”, quatro homens perdem seus antigos privilégios e buscam seu lugar em um admirável mundo novo. A disputa cultural começa ao dar as mãos ao melhor amigo, mas não termina, nem de longe, na festa excêntrica dos pais aposentados. Como é bom quando o sorriso malicioso substitui a indignação.
Antigamente, tudo era realmente melhor! Para não ser rotulado de machista retrógrado – o “cancelamento” ainda não tinha sido inventado –, nos anos 1990, bastava zombar de apliques de pelos do peito, dos carros Manta e do bronzeador com aroma de coco. [O cantor e ator] Herbert Grönemeyer ainda soltava com sua voz singular: “Quando um homem deixa de ser um homem?” E pronto.Mesmo assim, as mulheres ainda continuavam evidentemente de fora dos banquetes do privilégio. Os líderes alfa da esquerda da época, Gerhard Schröder e Joschka Fischer, se casavam pela quarta vez (e aquelas não foram as últimas uniões dos dois). Enquanto isso, o protagonista Thomas Heinze nos ensinava, em Allein unter Frauen (Sozinho entre mulheres), que as poses machistas podiam estar fora de moda, mas, no fim, até mesmo a república de feministas (!!) mais reprimidas (!) só queria uma coisa. Moral da história: nenhum “cowboy feminista” jamais abateu um mamute!
Corta para os dias de hoje, com [o veterano do rock alemão] Heinz-Rudolf Kunze ficando sem ar frente à linguagem neutra de gênero. A cultura do cancelamento já não é apenas um conceito, mas se transformou em série para maratonar. Na disputa, não se trata mais apenas de equidade, mas de justiça. No entanto, não há acordo entre os combatentes culturais nem mesmo a respeito do número de gêneros a serem convidados para possíveis negociações de paz. É bem complicado!
Neste momento assustador em que vivemos, a Netflix lança a série de oito episódios Alphamännchen (traduzido no Brasil como A crise dos caras) para quem busca uma pausa em meio a tantas discussões. Trata-se da adaptação alemã da série original espanhola Machos alfa, que conta a história de quatro melhores amigos na casa dos 40. Até há pouco, a posição deles no ecossistema de gênero era garantidamente definida por uma masculinidade de peito peludo e dominante. De repente, isso passou a não valer absolutamente nada.
Até então, tudo bastante realista: nenhum dos quatro cometeu, no sentido estrito, algo que justificasse um “cancelamento”. Os antigos símbolos do poder masculino simplesmente perderam valor. O pomo de Adão da virilidade já estava ultrapassado faz tempo, só Ulf e os outros é que não tinham percebido. Até outro dia, o reconhecimento simplesmente pendia entre as pernas. De repente, os quatro precisam conquistá-lo por meio de atitudes socialmente aceitáveis.
É impossível não se divertir ao ver esses quatro melhores amigos tentando recuperar o atraso de 25 anos. Cada um por si, mas todos juntos em busca da resposta para a pergunta: quando foi que ser homem deixou de significar ser um bom homem? Os mergulhos ocasionais no terreno do constrangimento (palhaçada com plug anal) da equipe de roteiristas, formada por Arne Nolting, Jan-Martin Scharf, Tanja Bubbel e Fabienne Hurst, podem ser perdoados. E também não vamos ser mais rigorosos que a própria autora feminista Sophie Passmann deixando de dar um desconto quando a série recorre a clichês fáceis do gênero (a mulher do personagem Andi tem um caso – não é piada – com o personal trainer).
O verdadeiro mérito de A crise dos caras está no fato de abordar o assunto sem empáfia moral – algo raro no mundo onde a indignação espreita a cada esquina. Quando Ulf, por exemplo, se aproxima brevemente do universo misógino de Andrew Tate e passa a oferecer seminários motivacionais para masculinistas chorões, teria sido fácil julgar o personagem a partir de uma superioridade moral. Mas Ulf tem permissão para continuar sendo um ser humano.
É também reconfortante notar que os únicos defasados são Ulf, Erik, Andi e Cem. São eles que perderam o bonde da história; o resto do mundo vai bem. Não faz tanto tempo assim – Deus que nos perdoe! – que, na televisão, a mulher era considerada “culpada” de tudo e precisava “tomar jeito” para que a ordem voltasse a reinar.
Enquanto pessoas inteligentes se desesperam todos os dias na tentativa de encontrar uma maneira de salvar a família global da desintegração, A crise dos caras mostra que mandar uma série leve e bem-humorada para a linha de frente da guerra cultural não faz, pelo menos, mal algum.
“A CRISE DOS CARAS”
Oito episódios de 35 minutos
Elenco: Tom Beck, Moritz Führmann, Serkan Kaya, David Rott, Mona Pirzad, Franziska Machens, Marleen Lohse, Jaëla Probst, Valentina Leone
Direção: Jan-Martin Scharf, Tobi Baumann
Roteiro: Arne Nolting, Jan-Martin Scharf, Tanja Bubbel, Fabienne Hurst
Produção executiva: Hana Geissendörfer, Jan-Martin Scharf, Arne Nolting
Produção: Hana Geissendörfer, Geissendörfer Pictures GmbH
Streaming “A crise dos caras”
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Setembro de 2026