Consciência ambiental  Ruptura de comportamento: necessária, mas ainda lenta

“Ruptura e bloqueio”. Lula Ricardi, 2016/2020.
“Ruptura e bloqueio”. Lula Ricardi, 2016/2020. © Lula Ricardi

Embora uma parcela da população global esteja mais atenta a questões ambientais e ávida por informações sobre a crise climática, a percepção sobre o planeta se mantém insuficiente para gerar mudanças de fato. Eleger governos que reduzam as emissões de gases de efeito estufa e o desmatamento seria a conduta mais eficaz, apontam especialistas.

Enquanto o mundo aguarda a confirmação sobre a intensidade do fenômeno natural El Niño neste final de 2026, notícias sobre as possíveis consequências climáticas do evento se tornam onipresentes. Se, por um lado, nunca se falou tanto e tão amplamente sobre o acontecimento que poderá ter dimensões históricas, a percepção geral sobre o aquecimento global parece não ser forte o bastante para provocar uma mudança de rumo e evitar consequências piores.

“Comparado aos El Niño de 2015/2016 e 2023/2024, este é o que mais tem cobertura da imprensa”, afirma o climatologista José Marengo, coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), sediado em Brasília. “As pessoas estão mais atentas, buscando informação, e isso é uma coisa boa, mas há muita gente disposta a fornecer informação, por vezes errada, o que é um problema”, completa o especialista.

Memória curta

No Brasil, os anos com El Niño costumam trazer precipitações intensas na região Sul e estiagem ou seca no Norte e Nordeste. Os brasileiros ainda guardam fortes lembranças das chuvas e inundações de 2023 e 2024 no Rio Grande do Sul e da redução excepcional do nível dos rios da Bacia Amazônica. “Já há uma nova mentalidade, uma mudança na consciência das pessoas. Só esperamos que não seja uma coisa de momento, porque às vezes termina o evento e todo mundo esquece”, alerta Marengo.

Ele explica que o El Niño sempre existiu e continuará acontecendo independentemente da atividade humana. Porém, a ação antrópica soma-se aos impactos do fenômeno natural, que ocorre de forma cíclica com intervalos que podem variar de dois a sete anos. “Agora estamos juntando dois aquecimentos. Um grau de aquecimento no Pacífico em 2026 tem mais impacto do que um grau de aquecimento nos anos 1970, porque a temperatura média global era menor do que hoje”, ressalta.

O preço da falta de ação

Cientistas alertam sobre os riscos do aquecimento global desde a década de 1990, mas a emissão dos gases de efeito estufa na atmosfera continua a aumentar ano a ano – sem que as populações reajam de forma incisiva, obrigando governos e empresas a, por exemplo, reduzir drasticamente o consumo de combustíveis fósseis e acelerar a transição energética. Especialistas enfatizam que, do ponto de vista econômico, a opção pela prevenção, que romperia com comportamentos de inércia hoje sedimentados, é muito mais vantajosa do que a resolução posterior de problemas decorrentes do desequilíbrio no clima.

No Brasil, um relatório publicado em março de 2026 pelo Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento e pelo Instituto Clima e Sociedade estima que o custo da inação climática chega a 55 bilhões de reais por ano (cerca de 0,45% do PIB) no país, considerando perdas de atividade econômica e danos materiais relacionados a secas e chuvas extremas. No entanto, mesmo com todos os alertas e sinalizações, governantes e instituições seguem letárgicos em suas decisões – algumas delas, inclusive, vão no sentido oposto, de acelerar o aquecimento global.

Percepção do problema

“É certo que as mudanças no ambiente do planeta já podem (e devem) assustar, uma vez que estamos nos aproximando de limites críticos sem volta na questão climática em vários ecossistemas”, diz o psicólogo José de Queiroz Pinheiro, professor no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que estuda há décadas a percepção da mudança climática e seus efeitos sobre a população, a comunicação e o engajamento com o tema.

Segundo Pinheiro, o conhecimento de cunho científico e técnico não é suficiente para promover uma conexão e o empenho das pessoas frente às temáticas ambientais. “Nosso estilo de vida e nossas visões de mundo estão há muito tempo apartados da natureza. Aspectos emocionais e afetivos, assim como os contextos cultural, político e econômico, são essenciais para o estabelecimento de um compromisso de cuidado ambiental”, afirma o psicólogo. Para Pinheiro, o distanciamento espacial e temporal entre causa e efeito transforma a mudança climática em um fenômeno complexo e abstrato. “Não há um encadeamento rápido e claro entre fatores causadores da mudança climática e suas consequências”, diz.

No Rio Grande do Sul, pesquisadores ligados ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neurociência Social e Afetiva (INCT-SANI) fazem um levantamento da saúde mental entre os moradores de bairros que foram alagados em 2024 em Porto Alegre e Canoas. “Estamos testando a efetividade de uma oficina para lidar com o estresse em situações difíceis, elaborada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que é uma ação preventiva baseada em psicoeducação. Ou seja, procura informar as pessoas sobre o estresse e sobre como lidar com ele, com base na terapia cognitivo-comportamental. É natural que as pessoas se sintam estressadas, ansiosas e tristes depois de eventos climáticos extremos, inclusive muito tempo depois, mas muitas vezes elas não conseguem perceber essa relação”, diz a psicóloga Lisiane Bizarro, professora no Laboratório de Psicologia Experimental, Neurociências e Comportamento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do INCT-SANI.

“Hoje, é possível estar endividado, estressado, não dormir direito, estar mais agressivo, com muitos problemas, com filhos que não estão acompanhando direito na escola, um rolo em cima do outro. E você não liga necessariamente isso ao fato de ter passado pela enchente, pelo evento climático recente. Muitas vezes as coisas acontecem um ou dois anos depois e as pessoas não relacionam um fenômeno ao outro”, analisa Bizarro.

Seu grupo de pesquisa investigará também o quanto as pessoas se sentem próximas da possibilidade de vivenciar um novo episódio de evento extremo. “A gente acha que essa ideia – não de distanciamento, mas de proximidade psicológica – pode fazer diferença em como as pessoas reagem a eventos. A ideia de que a vida está por um fio, de que é possível perder tudo novamente, o pensamento sobre quanto investir num imóvel ou em recursos para a educação dos filhos, o quanto acreditar na política, votar, participar como cidadão, em planos coletivos de longo prazo. São essas perguntas que a psicologia tem que responder”, propõe Bizarro.

Ignorância e despreparo

De acordo com Pinheiro, da UFRN, uma forte barreira psicológica para o engajamento na ação climática é a ignorância. “Além de as incertezas gerarem dificuldades de se perceber a crise como urgente, há o despreparo sobre como enfrentar e prevenir o problema”, afirma o pesquisador. Ele salienta que populações desprovidas de saber técnico podem muitas vezes adotar posições ambientalmente adequadas, quando percebem suas vias de subsistência ameaçadas por mineração, zonas industriais, barragens etc. Por outro lado, o excesso de informação, a ampla difusão de mensagens falsas e a falta de criticidade no manejo delas também podem levar à inação.

Rivalidade de objetivos, quando a pessoa tem metas mais prioritárias; desmotivação, ao perceber que outros estão se esforçando menos ou que o problema é grande demais; o custo de se livrar de um hábito inadequado que pode induzir à inação; o embotamento ambiental (numbness) ou a dormência que paralisa iniciativas – todos esses pontos podem explicar a inércia em relação à crise climática, conforme Pinheiro.

Políticas públicas

Ele ressalta, no entanto, que isso não depende exclusivamente do indivíduo e de suas barreiras psicológicas. “Elites econômicas e políticas agem no sentido de manter seus privilégios, formatando regras sociais, financiando desinformação e bloqueando ações climáticas que contrariem seus interesses”, afirma. Mobilizações coletivas, críticas ao sistema e ativismo político são decisivos para o enfrentamento do desastre climático e não apenas ajustes menores no nível individual, salienta o professor.

Para José Marengo, do Cemaden, muito mais do que fazer reciclagem em casa ou andar de bicicleta, a medida de maior impacto que a população pode tomar é eleger um governo que reduza as emissões de gases de efeito estufa e o desmatamento da Amazônia e do Cerrado. “Isso teria muito mais peso e poder do que reciclar ou aproveitar água que cai do ar-condicionado. Reciclar ajuda um pouco in loco, mas não podemos pensar localmente, temos que pensar globalmente, porque o que acontece no planeta é global”, conclui.

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