Cinema e política “O sonho é o único direito que não se pode proibir”

© Anna Azevedo © Anna Azevedo

A partir dos anos 1960, o cinema acabou se tornando uma espécie de braço audiovisual de movimentos sociais e políticos da América Latina. Um sonho comum.

Em 1958, um média-metragem documentando o cotidiano miserável de crianças da periferia de Santa Fé, na Argentina, alterou a trilha do cinema produzido, até então, na América Latina. Tire dié foi filmado na cidade natal do diretor, Fernando Birri, (1925-2017), cineasta que afinou obra e discurso político com o diapasão do sonho e da utopia, sem jamais perder o foco da realidade. Ou melhor, partindo dela. A imagem de meninos e meninas correndo ao lado das janelas de um trem em movimento, rogando por trocado, espalhou a semente de um outro cinema possível, e que viria a ganhar forma ao longo dos anos 1960. Reconhecido e admirado internacionalmente, o Novo Cinema Latino-Americano se impôs com personalidade e ousadia, à margem dos grandes estúdios, levando para as telas a realidade crítica de uma região marcada por uma imensa desigualdade social.

Pois se Birri foi o poeta e semeador do sonho que impulsionou o cinema latino-americano, o brasileiro Glauber Rocha (1939-1981) projetou com força delirante e inovadora a arte revolucionária daquela geração, conhecida ainda pela intensa produção textual. A estética da fome, manifesto lançado por Glauber Rocha em 1965, pode ser lido como a síntese impressa das pretensões éticas, estéticas e políticas da nova expressão cinematográfica que, no Brasil, passou a ser chamada de Cinema Novo. No ano seguinte, o diretor lançaria Terra em transe, um manifesto prático da Estética da fome.

Em 1971, o diretor baiano publica um novo texto, A estética do sonho, no qual a experiência onírica surge como uma vereda capaz de fornecer a devida dimensão artística do pauperismo do colonizado. “O sonho é o único direito que não se pode proibir”, diz o manifesto. “Arte revolucionária deve ser uma mágica capaz de enfeitiçar o homem a tal ponto que ele não suporte mais viver nesta realidade absurda. (...) Não justifico nem explico meu sonho porque ele nasce de uma intimidade cada vez maior com o tema dos meus filmes, sentido natural de minha vida”.

Sonhos de grandeza e esperança

Silvio Tendler, 71 anos, era o caçula do Cinema Novo – uma turma que reunia, além de Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Ruy Guerra, Leon Hirzman, Paulo César Saraceni, o fotógrafo Dib Lutfi, entre outros. Em 2003, Tendler lançou o documentário Glauber, o labirinto do Brasil, uma homenagem ao realizador baiano que morreu com apenas 41 anos. Nas sequências de texto do filme, Tendler escreve: “Glauber viveu um tempo em que os sonhos eram sonhos de grandeza e esperança. O mundo fundia-se em uma festa libertária e a revolução viria do casamento da arte com a política, da realidade com a utopia, da verdade com o delírio. (...) E viveu seu sonho de forma luminosa e trágica”.
 
Trailer de Glauber Rocha Labirinto do Brasil


Glauber Rocha, contudo, não sonhou sozinho com um cinema livre. O universo do diretor de filmes como Deus e o diabo na terra do sol (1964), Terra em transe (1967) e O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1968) encontrava eco nas películas produzidas no continente latino-americano por realizadores que raramente tinham oportunidade de estarem juntos. A almejada “reunião em casa” aconteceu tardiamente, em 1967, durante o I Encontro de Cineastas Latino-americanos, parte da programação do Festival de Viña Del Mar, no Chile. Lá estavam, entre outros, Fernando Birri e Fernando Solanas, da Argentina; Jorge Sanjinés, da Bolívia; Miguel Littín, do Chile; Santiago Alvarez, de Cuba; e os brasileiros Geraldo Sarno e Sergio Muniz. “Esse dado geográfico é de grande simbologia, pois passamos a nos reconhecer enquanto grupo. Ficou claro que, apesar da falta de comunicação, havia uma espécie de ponte clandestina que revelou o enorme parentesco de cinematografias que mantinham uma unidade na diversidade”, afirma Muniz.

Sonho e utopia

O cinema acabava se apresentando como uma espécie de braço audiovisual dos movimentos sociais e políticos da América Latina. “Nós considerávamos possível que uma película pudesse mudar o mundo. Quer dizer, sabíamos que era mentira, não vamos nos enganar, nenhuma película muda o mundo, nem muda nada, mas devemos fazer como se isso fosse possível", revelou o cubano Alfredo Guevara (1925-2013) no documentário Rocha que voa, lançado em 2002 – um filme, no qual Eryk Rocha, filho de Glauber, revisita o exílio do pai em Cuba entre 1971 e 1972.
 
Trailer Rocha que voa


Trazer o sonho para o cotidiano foi, diga-se de passagem, uma regra cumprida à risca por Fernando Birri. Constantemente indagado sobre o que era e para que servia, afinal, a utopia que tanto o alimentava, o cineasta argentino dizia: “A utopia serve exatamente para nos fazer caminhar”. Na abertura da 34ª Jornada de Cinema da Bahia, em 2007, Birri lembrou à plateia brasileira que o mantra fundamental e fundacional do sonho latino-americano é a integração continental. “E há formas de fazer com que um sonho não envelheça, uma delas é a resistência”.

E foi com esse espírito de resistência e união que o sonho do cinema como arma de libertação dos países colonizados, semeado nos anos 1960, foi renovado e ganhou endereço fixo em dezembro de 1986, quando Birri e o prêmio Nobel de Literatura, o colombiano Gabriel García Márquez, inauguraram a Escuela de Cine e TV de San Antonio de Los Baños. A ideia era fazer daquela escola, a 30 quilômetros de Havana, um centro de formação de artistas herdeiros do sonho do Novo Cinema e oriundos da América Latina, África e Ásia. Ainda hoje, Los Baños, também conhecida como Escola dos Três Mundos, é uma referência no ensino de cinema, aberta a alunos de todo o mundo.

Abandono após expansão

No embalo da pulsão cinematográfica do período, surgiram empresas estatais de apoio à produção e à distribuição em alguns países – tais como o Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica (ICAIC), o Instituto Nacional de Cine, na Argentina, e a Chile Films, que foi revitalizada com a implementação de leis de incentivo fiscal. Em 1969, o Brasil ganhou a Empresa Brasileira de Filmes (Embrafilme), que chegou a produzir e distribuir 200 filmes até seu fechamento inesperado, em 1990, por decreto presidencial. A produção audiovisual brasileira passou por um apagamento de cerca de dez anos. Em 2001, foi fundada a Agência Nacional de Cinema (Ancine), responsável por uma poderosa reidratação da produção brasileira. Sonho que vem sendo minado desde 2016, quando começou o processo de desvitalização do órgão e interrupção nos fomentos.

Foi quando o que era sonho virou pesadelo. “Com o corte nas fontes de financiamento, poucos estão conseguindo filmar. É uma angústia não só ligada à asfixia da profissão, mas também à atual crise sanitária e política brasileiras”, observa o cineasta Silvio Tendler sobre o momento atual. “Toda utopia é pura, é desejo, faz uma ponte entre o real e o sonho. Nos anos 1960, o sonho era fazer cinema e todos conseguiram. Se tem algum sonho que se cumpriu, foi o dos cinemas novos. Mas sigo acreditando que o cinema é um instrumento de combate”, completa.

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