O projeto aborda os múltiplos significados da água — como base de vida física, espiritual e cultural. Em muitas cosmologias indígenas, a água é compreendida como um ser vivo: algo que limpa, cura, transforma e estabelece relações. Ao mesmo tempo, a água é um recurso em disputa, cujo acesso e uso são, até hoje, fortemente determinados por interesses econômicos e por relações de poder de cunho colonial.
“Cosmotecnologias da Água” torna visíveis essas diferentes perspectivas e as insere em um diálogo transnacional. Na América do Sul, muitas comunidades indígenas e marginalizadas vivem em estreita relação com ecossistemas ricos em água, desenvolvendo práticas sustentáveis que conectam o conhecimento espiritual a formas concretas de manejo e uso. Essas perspectivas frequentemente se opõem a uma lógica econômica que compreende a água primariamente como mercadoria — com vastas consequências ecológicas e sociais.
O projeto conecta abordagens artísticas, científicas e comunitárias, criando espaços de intercâmbio, reflexão e aprendizado coletivo. Nesse contexto, a arte é utilizada como um meio para renegociar questões ecológicas, culturais e políticas, tornando visíveis outras formas de conhecimento. Assim, a água surge não apenas como base da vida, mas também como ponto de partida para concepções alternativas de tecnologia, propriedade e sustentabilidade.
No centro estão questões como:
- Como a água pode ser tratada de forma justa como um recurso universal, mas que é distribuído de forma desigual?
- Quais narrativas podem contribuir para questionar as estruturas coloniais e capitalistas?
- Como as práticas artísticas podem fortalecer as perspectivas indígenas e comunitárias?
Através da colaboração com parceiros e comunidades na América do Sul, surge uma rede que conecta diferentes contextos entre si. Nesse processo, a água é compreendida não apenas como um recurso, mas também como um meio de relação e transformação — entre lutas locais e questões globais de sustentabilidade, justiça e participação.
Objetivo do projeto
O projeto tem como objetivo enriquecer o discurso global sobre os direitos à água, à sustentabilidade e à identidade cultural. Ele promove o intercâmbio entre atores da América do Sul e da Alemanha, conectando práticas locais a questões abrangentes de justiça ambiental, herança espiritual e participação social.
Um resultado central do projeto é a exposição no Humboldt Forum, em Berlim, na qual as perspectivas desenvolvidas e os trabalhos artísticos são reunidos. Concebida como um conjunto de vários “corpos d'água”, ela reúne cinco projetos artísticos independentes que se sustentam por si só e, ao mesmo tempo, entram em ressonância uns com os outros.
Complementando as instalações, são criados espaços de encontro, intervenções temporárias e performances, bem como uma área de aprofundamento. A exposição define-se como um lugar de intercâmbio, no qual a água torna-se experimentável também espacialmente como um elemento de conexão — e como ponto de partida para o debate sobre questões coloniais, ecológicas e sociais.
Período
2024-2027
Público-alvo
O projeto têm como público alvo geral na Alemanha, interessado em questões globais relacionadas ao meio ambiente, à justiça e à diversidade cultural. O projeto dirige-se a atores locais das artes, das ciências e da sociedade civil — em especial a comunidades indígenas e marginalizadas — bem como a instituições culturais e estudantes.
Procedimento
Partindo das questões curatoriais sobre a água como entidade espiritual e como recurso em disputa, o projeto se desenvolve em um processo colaborativo de múltiplas etapas. Perspectivas, métodos e abordagens artísticas surgem no diálogo entre os atores e contextos envolvidos. No âmbito da linha de programação “Herança e Propriedade”, um formato central é a apresentação em novembro de 2026, no Humboldt Forum, em Berlim.O projeto compreende quatro fases:
- Fase 1 (2024): Mapeamento de comunidades e coletivos, bem como as primeiras ações locais no Brasil (Amazônia, Baía de Guanabara, São Paulo e Porto Alegre) e Argentina/Chile (Wallmapu). Nesse processo, foram selecionados coletivos e artistas da América Latina que trabalham com questões de propriedade, acesso a recursos naturais, conhecimento e participação.
- Fase 2 (2025): Atividades centrais, coordenadas no Brasil e no Chile, complementadas por dois projetos menores na Colômbia (Macucú, Bogotá). O processo é documentado de forma audiovisual. Em residências, laboratórios artísticos e duplas de trabalho (tandems), as abordagens desenvolvidas no mapeamento são aprofundadas e transpostas para formatos concretos.
- Fase 3 (2026–2027): Exposição no Humboldt Forum Berlim (final de novembro de 2026 até, provavelmente, junho de 2027) no âmbito do tema anual “Herança e Propriedade”, com programa complementar e novos encontros de trabalho. A exposição cria uma experiência sensorial e afetiva que convida à imersão e à percepção. Um espaço para encontros, intervenções e performances permite o aprofundamento e o intercâmbio, tornando a ideia de que “a água conecta” acessível como um impulso vivencial.
- Fase 4 (a partir de 2027): Projetos locais de continuidade na América do Sul, bem como publicações complementares, garantem o desdobramento do projeto a longo prazo. As abordagens desenvolvidas são levadas de volta aos contextos locais e ali continuam a ser desenvolvidas. Assim, a exposição é parte de um diálogo contínuo. Um livro de trabalho (working book) documenta os processos e resultados, tornando-os permanentemente acessíveis — inclusive em línguas locais — para as comunidades envolvidas.