Hans Staden – 500 anos  “Pajé das sociedades ameríndias”?

Tupinambás observados por Hans Staden durante sua viagem pelo Brasil (1552). De: 'Newe Welt und Americanische Historien', por Johann Ludwig Gottfried, publicado por Mattaeus Merian, Frankfurt, 1631. Gravado por Theodore de Bry (1528–98).
Tupinambás observados por Hans Staden durante sua viagem pelo Brasil (1552). De: 'Newe Welt und Americanische Historien', por Johann Ludwig Gottfried, publicado por Mattaeus Merian, Frankfurt, 1631. Gravado por Theodore de Bry (1528–98). Coleção Particular. Domínio público.

Alemão que escreveu o primeiro livro impresso sobre o Brasil no século 16 acende debates até hoje: “Wahrhaftige Historia” faz repensar os primórdios do país e permite estudar os embates entre indígenas e europeus antes da dominação portuguesa – quando os povos originários ainda não haviam sido dizimados e deslocados para longe da costa.

Em 1549, atraído pela descoberta de metais preciosos no Novo Mundo, o mercenário alemão Hans Staden (1525-1579) embarcou num navio espanhol rumo ao Rio da Plata. Era a segunda viagem que fazia ao continente americano. Na costa Sul do Brasil, porém, a embarcação naufragou, o que alterou seus planos iniciais – após vários reveses, o aventureiro acabou sendo capturado pelos Tupinambás, apontados como adeptos do canibalismo, enquanto defendia, a mando dos portugueses, o forte de Bertioga, no litoral paulista.

Durante nove meses, consta que o alemão viveu sob constante ameaça de ser devorado pelos indígenas Tupinambás em um ritual antropofágico. Staden, que aprendeu a língua tupi e os costumes indígenas, consegue sair com vida, e, após obter permissão para retornar à Alemanha, publica, em 1557, o impressionante relato ilustrado Wahrhaftige Historia – também conhecido como Duas viagens ao Brasil.

Considerado o primeiro livro impresso sobre o país, a obra se tornou um best-seller na Europa ao narrar a saga de um cristão numa “terra de selvagens, nus e cruéis comedores de seres humanos”. Em seu testemunho, Staden atribui sua sobrevivência à interferência divina, agradecendo ao “Senhor Todo-Poderoso, criador do Céu, da Terra e do Mar, a seu filho Jesus Cristo e ao Santo Espírito” por sua salvação. Mas, para além de ser uma história de redenção pela fé ou um relato sobre a superioridade do homem cristão europeu dito “civilizado” sobre os ameríndios “selvagens”, a obra continua sendo discutida nos dias hoje, gerando novos debates 500 anos após o nascimento de seu autor, em Homberg, Alemanha.

“A Wahrhaftige Historia é mais do que uma narrativa de viagem, um livro de aventuras. Por um lado, é um relato edificante sobre o poder da fé cristã, que teve um impacto forte na Europa, ganhou várias reedições e aqueceu o mercado editorial em seus primórdios. Ao mesmo tempo, por ser o primeiro relato sobre o Brasil, com xilogravuras impactantes e descrições preciosas sobre as particularidades da cultura dos indígenas, tem grande valor histórico e antropológico”, avalia Augusto Rodrigues, arquivista sênior do Instituto Martius-Staden.

Imaginário brutal sobre o Novo Mundo

No Brasil, o livro de Staden foi traduzido pela primeira vez apenas no final do século 19, na Revista do Instituto Histórico e Geographico do Rio de Janeiro. Ao longo do século 20, o alemão se tornou um personagem presente na cultura brasileira, influenciando figuras importantes da Modernidade. Em 1927, Monteiro Lobato retirou o alemão do esquecimento com a adaptação infanto-juvenil As aventuras de Hans Staden, que se tornou grande sucesso. No ano seguinte, Oswald de Andrade se inspirou em Staden para escrever o Manifesto Antropófago, publicado na Revista de Antropofagia. Na década de 1940, o pintor Cândido Portinari realizou ilustrações para uma edição do livro nos EUA, retratando a violência das cenas de canibalismo e da guerra colonial. O trabalho desagradou o editor naquele país e essa releitura – Portinari devora Hans Staden – só veio a público no Brasil postumamente, na década de 1990.
Capa do livro “Portinari devora Hans Staden”. Editora Terceiro Nome, 1998.

Capa do livro “Portinari devora Hans Staden”. Editora Terceiro Nome, 1998. | Domínio público.

De fato, as informações detalhadas sobre os rituais antropofágicos trazidas por Staden teriam contribuído para a criação de um novo imaginário sobre o continente americano: “As mulheres comem as vísceras, da mesma forma que a carne da cabeça. O cérebro, a língua e o que mais as crianças puderem apreciar, elas comem. Quando tudo tiver sido dividido, voltam para casa, e cada um leva seu pedaço”, descreve o viajante.

De acordo com Melissa Boechat, professora de Literaturas Hispânicas na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, ao romper com as primeiras visões idílicas sobre o continente
encontradas, por exemplo, na carta de Pero Vaz de Caminha, escrita apenas seis décadas antes, em 1500, Hans Staden inaugurou uma nova etapa na literatura sobre o Novo Mundo. Até então, segundo Boechat, o indígena vinha associado ao ideal de homem natural, belo e puro. “Staden é uma figura fundamental para a compreensão da nossa identidade. Ele foi o primeiro a lançar um olhar para o continente a partir de uma vivência de dentro. Seu livro é um relato brutal de violência, que se opõe à versão idealizada do indígena como ‘bom selvagem’”, afirma.

Inversão de perspectiva

Em suas duas viagens ao Brasil, entre 1548 e 1555, a atitude de Staden diante dos indígenas destoou daquela de outros conquistadores e agentes da expansão colonial no continente americano. Sem deixar de ser um cristão, o alemão se deixou assimilar pelos nativos indígenas, tornando-se uma figura ambivalente no Brasil colonial, analisa Luciana Villas Bôas, professora do Departamento de Letras Anglo-Germânicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Ao transitar entre fronteiras culturais e aliar identidades múltiplas, torna-se ele próprio uma espécie de “mameluco”: “Staden se apresenta de cara como alguém ‘asselvajado’. Sua narrativa é fascinante, porque ele está em dois lugares: como um europeu preso e assimilado pelos Tupinambás e como alguém que, ao mesmo tempo, faz uma mediação com o público de Hessen, na Alemanha”, comenta Villas Bôas, autora de Encontros escritos: semântica histórica do Brasil no século 16.
 Hans Staden. Biblioteca Brasiliana Guita e José Midlin.

Hans Staden. Biblioteca Brasiliana Guita e José Midlin. | Domínio público.

O livro de Staden foi um sucesso de público na Europa, prossegue Villas-Bôas, não apenas por ser um exemplo de fé, mas porque seu processo de “asselvajamento” foi transgressor: “Numa das xilogravuras do livro, Staden aparece nu a bordo de uma canoa, observando uma caravela europeia e lutando ao lado dos seus captores indígenas. É uma imagem linda, uma inversão de perspectiva na iconografia”. Para Villas-Bôas, Wahrhaftige Historia é um dos livros mais importantes da história colonial brasileira, porque obriga a repensar o Brasil do século 16, período de exacerbação do conflito entre europeus e de redefinição das alianças indígenas. “É um momento de conflito radical em que os indígenas ainda não tinham sido dizimados e exilados para fora da costa. O livro de Staden permite estudar a guerra entre indígenas e europeus antes da dominação portuguesa”, conclui.

Protagonismo Tupinambá

À luz das questões atuais, interpretações mais recentes do relato de Staden buscam recuperar o ponto de vista dos indígenas. Embora a história tenha sido narrada em primeira pessoa e em alemão, seus verdadeiros protagonistas teriam sido os Tupinambás, defende João Marcos Cardoso, curador da biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin e doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo.

Segundo o pesquisador, a captura de Staden se deu em um contexto colonial ainda muito incipiente, e foram os indígenas que determinaram os termos da negociação: “Hans Staden costuma ser visto como uma figura que manipulou os Tupinambás para escapar da morte, mas pouca gente se perguntou quem eram os Tupinambás, como eles pensavam”, questiona o pesquisador. “Na época, os Tupi, por exemplo, não estavam submetidos à violência colonial pura e simplesmente, e sim empossados do poder de tomar decisões e de fazer valer as suas próprias condições de existência”, analisa.

Na interpretação de Cardoso, os nativos teriam poupado Staden não porque foram convencidos a agir segundo princípios cristãos, mas porque o consideraram um “caraíba”, espécie de xamã-profeta que vagava por diferentes aldeias tupi. “Os Tupinambás não podiam comer um caraíba, e isso explica por que ele foi mantido vivo”, afirma. Embora não seja ainda comprovada, a hipótese de Cardoso se baseia em dados etnográficos de outras fontes do período colonial e em estudos etnológicos posteriores. “Staden foi considerado pelos nativos um mediador, um ‘mais que humano’ capaz de intervir, por exemplo, nas condições meteorológicas, nas epidemias e no jogo cosmopolítico. Ao ser colocado na posição de um pajé das sociedades ameríndias, o alemão também agiu como se fosse um”, conclui.

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