A diretora brasileira Eliza Capai volta ao Festival Internacional de Cinema de Berlim com seu quinto longa. “A fabulosa máquina do tempo”, que compete pelo Urso de Cristal na Mostra Generation Kplus, integra também uma lista de apenas 16 filmes, de várias seções, selecionados para concorrer ao Prêmio de Melhor Documentário da Berlinale.
No Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2019, Eliza Capai exibiu seu documentário Espero tua (re)volta, protagonizado por jovens escolares de São Paulo, que lutavam pelo direito básico de ter acesso à educação. A diretora volta agora àBerlinalecom um filme que aborda temas em certa medida relacionados ao de seu outro longa, mas contados a partir do ponto de vista de crianças e pré-adolescentes do interior dopaís.As protagonistas de A fabulosa máquina do tempo têm entre 7 e 11 anos e configuram a primeira geração de meninas que, nascidas no Piauí, em uma região marcada pela miséria extrema, já crescem com o direito de comer, frequentar a escola e sonhar com futuros diferentes. Em entrevista, a realizadora comenta como seu filme discute a educação, o machismo estrutural e as perspectivas de futuro neste contexto.
Você poderia contextualizar esse filme em sua trajetória como cineasta?
Em 2013, ganhei uma bolsa da Agência Pública de Jornalismo Investigativo para pesquisar os impactos do Bolsa Família [programa que destina recursos para núcleos familiares em situação de extrema pobreza] na relação entre os gêneros. Falamos aqui de valores ínfimos por pessoa, mas ainda assim capazes de tirar o Brasil do mapa da fome. O programa entrega o dinheiro para as mulheres. A ideia era entender o que estava acontecendo dentro dessas famílias muito pobres, em que, de repente, quem passa a ter uma renda todos os meses é a mulher.
Decidi ir para a cidade-piloto do programa: Guaribas, no sertão do Piauí, que já foi uma das localidades com o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil. Conversei com mulheres em torno de 30 anos e fiquei muito angustiada pela frase repetida por várias delas: “Eu vivi a escravidão, sem sapatos, com uma muda de roupa, sem comida”. Ao mesmo tempo, conversei com as filhas dessas mulheres: todas comiam, frequentavam a escola, tinham chinelo e algumas mudas de roupa. Fiquei com a sensação de que estava presenciando o início de uma grande transformação no Brasil.
Quais são os temas relevantes para sua produção cinematográfica?
A questão de gênero é muito forte para mim, talvez por ter crescido em Vitória, uma cidade com altos índices de feminicídio e violência contra a mulher. Nos meus filmes, trabalho as injustiças que me revoltam. A forma que encontro para lidar com essa revolta é observando essas injustiças muito de perto, conversando com as pessoas, tentando amplificar suas vozes e refletindo sobre como podemos construir um mundo mais justo. A fabulosa máquina do tempo vem coroar minha trajetória de continuar me revoltando contra uma sociedade profundamente injusta.
Como foi feita a escolha das personagens do filme?
Fizemos uma oficina de audiovisual com 15 crianças de 7 a 11 anos. Se íamos fazer um filme a partir do olhar das crianças, precisávamos entender como elas agiam e como enxergavam temas como o machismo estrutural e a saída da miséria. Naturalmente, algumasmeninas foram se destacando. Fomos entendendo que as crianças, quando aprendem uma coisa, vão brincar com aquilo. Incorporamos isso então como estrutura do filme. E entendemos como alguns temas eram difíceis de ser tratados. E que, por elas serem crianças,as coisas não deveriam passar necessariamente peloregistroverbal, mas por algumas vivências.
“A Fabulosa Máquina do Tempo”. Brasil, 2026. Direção: Eliza Capai. Berlinale, Generation. Na foto: Sophia. | © Carol Quintanilha
Foi um trabalho colaborativo com algumas camadas. Temos um momento de cinema direto, acompanhando as meninas na rotina dentro de casa, nas brincadeiras, na escola, na igreja. E momentos propostos que surgiram na oficina, como as entrevistas com as mulheres mais velhas. As soluções para as cenas foram trazidas pelas próprias meninas. Durante o processo, tinha nosso esforço de querer fazer um filme, mas também nosso papel de educadoras, de estarmos aliquerendo estabelecer uma troca através da linguagem. Por outro lado, pensávamos nas cenas como brincadeiras: enquanto equipe, estávamos ali brincando com elas mais do que querendo a cena perfeita.
Como surgiu a ideia de usar a máquina do tempo como um dos dispositivos narrativos?
Durante as conversas com as meninas e nas entrevistas que elas faziam com as mães, a imagem da máquina do tempo surgiu como uma forma lúdica de perguntar:“Se você tivesse uma máquina do tempo e fosse para o passado, o que faria? E se a máquina do tempo fosse para o futuro, o que gostaria de fazer?”.Na edição, entendemos que esse dispositivo nos ajudaria a contara história complexa de um passado demiséria. Ea históriadessa primeira geração que nasce com o direito de comer, de ir para a escola e de sonhar futuros diferentes.
A educação, central em “Espero tua (re)volta”, ressurge como um dos pilares do filme, mas agora no olhar de crianças e não mais de adolescentes...
No contexto de Espero tua (re)volta, havia uma política que iria prejudicar os jovens pelo fechamento de muitas escolas. Eles também se dão conta de que aquele ensino era insuficiente e não tratava dos temas realmente importantes. Eles descobrem isso quando ocupam as escolas e começam a ter aulas livres, ao passarem por debates sobre racismo, machismo, corpos.
Em Guaribas, 98% crianças e adolescentes estão hoje na escola – o que é fantástico, considerando que boa parte de suas ancestrais são analfabetas. Mas, quando você pergunta sobre a escola, a resposta é que elas querem explodir aquele ambiente, porque aquela, assim como a maioria das escolas do Brasil e do mundo, não dá conta dos dias de hoje. As escolas têm currículos completamentedefasados, que em geral não se relacionam com a realidade local. A educação deveria ocupar um lugarda liberdade: você poder ter o conhecimento que precisa, para aplicar na própria rotina, podendo ser quem você realmente é.
Durante a sua trajetória, o cinema brasileiro passou por várias fases em termos de políticas públicas. Atualmente, vivemos um período de expansão e internacionalização. Como você vê esse momento?
Espero tua (re)volta estreou em Berlim no segundo mês do governo [Jair] Bolsonaro, em 2018. Era um momento muito forte de nosso cinema, que se fragilizou, a seguir, com o fechamento do Ministério da Cultura. Era um contexto tão opressivo, que lembro de perguntar aos estudantes se queriam realmente lançar o filme no Brasil, porque tinha medo de perseguições políticas e físicas. Só voltamos a ter alguma esperança com a reabertura do Ministério da Cultura no governo seguinte [de Luiz Inácio Lula da Silva].
Volto este ano ao Festival de Berlim, acompanhada de vários outros filmes brasileiros na Mostra Generation [que tem como foco crianças e adolescentes] e fico pensando o quanto nós, cineastas independentes do Brasil, estamos tentando romper com as distopias que sempre marcaram nossa história política recente. Estamos pensando em formas de criar utopias positivas e em maneiras de escutar as crianças e os adolescentes.
Fevereiro de 2026