Romper com estruturas e curadorias viciadas em diálogos circulares nas artes visuais, subvertendo formatos criativos, não surge como quebra, mas como rasgadura: uma atitude que aprofunda em vez de dividir. Rasgar como meio de gerar respiro, possibilitar novas formas, abrir espaço para outras materialidades e encontros.
Com o título do caminho um rezo, acontece a 4ª edição Frestas – Trienal de Artes no Sesc Sorocaba, espaço de encontro para produções contemporâneas no interior do estado de São Paulo. O desejo principal dessa edição da mostra, cujo projeto foi iniciado em meados de 2023, era garantir que a educação fosse o eixo mediador dos procedimentos curatoriais. Nesse sentido, a curadoria uniu atuações tanto na vida acadêmica quanto nas práticas comunitárias, experimentais e independentes, enfrentando as tensões, contradições, limitações e provocações que se apresentaram, para a promoção de encontros que gerassem aprofundamentos do conceito de rasgadura.Sorocaba tem um nome de origem Tupi-guarani (nheengatu), cuja tradução para o português é uma palavra composta pela junção entre sorok (rasgar, fenda, rachadura) + aba (lugar, espaço, terra). O lugar da rasgadura dessa terra se dá, primeiramente, pelas águas do rio de mesmo nome, que nasce do encontro entre outros três – o Sorocamirim, o Sorocabuçu e o Uma – e finda seu percurso desaguando no Tietê. Seu caminho, entre colinas e vales, rochas e solos, com maior ou menor abertura, serpenteia a região, assim como muitos rios que a capital São Paulo retificou e canalizou. O rio Sorocaba é, portanto, o sujeito que provoca fendas e frestas, sendo com frequência lembrado pelos moradores da região, e que já foi tema de uma edição da Trienal de Artes Frestas. Sua rasgadura parece guiar a compreensão da vida na cidade, da historicidade e da relação com as coisas e o mundo.
Caminho do Peabiru
Se as águas geram rasgaduras, a terra também faz o mesmo. Os caminhos de Sorocaba são antigos e trazem as memórias de um período onde as fronteiras não eram tão limitantes. É provável quepassavam por lá algumas vias do chamado Caminho do Peabiru – uma rota pré-colonial composta por diversas estradas, que ligava pontos dos Oceanos Atlântico e Pacífico, indo do Sudeste brasileiro aos Andes e ao litoral peruano, atravessando territórios da Bolívia, do Brasil, do Paraguai e do Peru. Segundo o pesquisador e historiador Casé Angatu, em palestra proferida durante o ciclo de pesquisa curatorial da 4ª Frestas – Trienal de Artes, os caminhos indígenas não são retilíneos, únicos, com um ponto de começo e fim, sendo sempre passagens que conectam. Ou seja, o objetivo do Peabiru não era conectar águas oceânicas, mas passar por elas.Sorocaba foi também um ponto de encruzilhada, onde esses caminhos se ramificavam e se segmentavam, sendo, possivelmente, o local de parada e comércio. As trilhas, que no passado possibilitaram o trânsito de pessoas e mercadorias, se tornaram estradas. A cidade, que hoje é cortada por quatro rodovias estaduais, foi um dia marcada pelas chamadas “rotas tropeiras”, um conjunto de trajetos que conectava o Sul ao Sudeste e Centro-oeste do país entre os séculos 18 e 19, provavelmente seguindo os mesmos percursos já abertos e interligados pelo Caminho do Peabiru.
Ruptura de fronteiras
Se os rasgos traçam a história de Sorocaba, as artes também fazem o mesmo. Um exemplo é o Festival Terra Rasgada, projeto de fomento à produção artística contemporânea e colaborativa, que ocorreu na cidade em cinco edições, de 1995 a 1999, quando artistas locais promoveram espaços de experimentação e conexão com diferentes públicos. De acordo com o pesquisador Maurício Sérgio Dias, em material elaborado para a pesquisa curatorial da 4ª Frestas – Trienal de Artes, o Festival foi um marco para a cidade que enfrenta dilemas relacionados à sua expansão e a dinâmicas econômicas globalizantes.Segundo Dias, o Terra Rasgada não foi apenas um festival de artes visuais, mas um processo de entrecruzamento dos novos desafios artísticos das artes contemporâneas e da cultura como um todo, da experimentação entre linguagens e da ruptura de fronteiras entre áreas artísticas distintas: um verdadeiro convite ao experimental e ao envolvimento sócio-comunitário. Em convocatória aberta e participativa, os artistas se organizaram para ocupar espaços da cidade, subvertendo as normativas urbanas e os cânones das artes.
Deslocamento e descentralização
Entre rasgos e fendas, o projeto de Frestas – Trienal de Artes aconteceu, a partir de 2014, na esteira do processo iniciado pelo Terra Rasgada. Com o impacto que ainda reverberava na cidade, Frestas propôs um evento de artes visuais que conseguisse deslocar o público urbano da capital para visitar ações no interior do estado, sendo, nesse contexto da descentralização, comparado à Documenta de Kassel, que ocorre a cada cinco anos no interior da Alemanha.Suas três edições foram emblemáticas e fundamentais por transformar Sorocaba, uma cidade até então fora do circuito estabelecido, em território das artes. Em percursos de “começo, meio e começo”, como convoca o pensador e ativista Antônio Bispo dos Santos (“Nêgo Bispo”, 1959-2023), a curadoria desta quarta edição reconhece os processos já realizados nas Frestas anteriores como disparadores de caminho. E opta por não afirmar nem gerar relações exatas e fechadas, entendendo o percurso curatorial não como quebra, mas como uma rasgadura semelhante àquela que o rio Sorocaba faz, a rasgadura que não divide, que aprofunda: rasgar para gerar respiro, para possibilitar novas formas, para que outras materialidades adentrem seu interior.
Espaços de memória e escuta
A ideia é promover o encontro como processo de fazer artístico, unindo coletivos, artistas e iniciativas comunitárias que, por vezes, não se conheciam, mas que aceitaram articular seus tempos e projetos juntos. Entende-se que os lugares, territórios e legados são agentes participantes – sejam eles o Rio Sorocaba, a Capela João de Camargo, o Quilombo do Cafundó, o Quilombo do Caxambu, as memórias póstumas das Irmandades do Rosário de Sorocaba e a Irmandade de São Benedito de Itu.Durante a pesquisa, ocorreram visitas a espaços de memória, ateliês de artistas, acervos e arquivos, foram realizadas leituras de portfólio e promovidas escutas de representantes da cultura. Com isso, a exposição trouxe uma Sorocaba ativa e presente com seus artistas (cerca de 28% dos participantes são da região), propondo um adentramento necessário e urgente, visto que nas edições anteriores suas inclusões foram pouco expressivas.
A rasgadura se deu também como Sendarias – programa público que acompanha a mostra e que antecedeu a exposição, inaugurado seis meses antes da abertura com debates provocativos da ativista boliviana Silvia Rivera Cusicanqui, do pesquisador e curador Tadeu Kaingang e de Joana Maria Bispo, referência quilombola e coordenadora do Acervo Nêgo Bispo.
Os caminhos têm sido longos até aqui, e ainda há muitos por vir. Entre rupturas, fendas, sendas, rezos e ritos, uma nova tradição vai se construindo, enquanto o lugar vai contando sua história e fazendo marco nessa terra de rasgaduras.
Frestas
Junho de 2026