Maren Ade em destaque A arte do desconforto

A realizadora Maren Ade
A realizadora Maren Ade | Foto (detalhe): William Minkem © NFP marketing & distribution* / Komplizen Film

Maren Ade está a transformar-se numa das mais interessantes realizadoras da Alemanha. E com a estreia da grande comédia “Toni Erdmann”, arrisca-se mesmo a ser considerada como a salvadora do cinema alemão. 

Quando estava prestes a cair no esquecimento, Maren Ade regressa à ribalta com a sua terceira longa-metragem, um dos sucessos do Festival Internacional de Cannes em 2016: a comédia Toni Erdmann. Com este “regresso” sensacional, a realizadora, de 41 anos, já é chamada de salvadora do cinema alemão.

O sucesso de Maren Ade não é de agora: a comédia romântica Allen Anderen (Todos os outros) recebeu, entre outros prémios, o Urso de Prata no Festival Internacional de Cinema de Berlim em 2009. Seis anos antes, em 2003, a jovem e talentosa realizadora tinha surpreendido os críticos com o drama de baixo orçamento Der Wald vor lauter Bäumen, que também recebeu diversos prémios. Maren Ade é, assim, uma constante surpresa: investe tanto tempo a fazer os seus filmes, que o produto final é como um diamante – uma obra de arte brilhante, de longa gestação e que é difícil de categorizar.

Dramas recheados de sensibilidade e humor

Der Wald vor lauter Bäumen Der Wald vor lauter Bäumen | Foto (Detalhe): © Komplizen Film Maren Ade, que pertence à chamada Escola de Berlim (Berliner Schule), um grupo de realizadores que ganharam destaque com tramas sóbrias, pesadas e sobre eventos do dia-a-dia, é por vezes classificada como superficial, mas a concentração, sensibilidade e, especialmente, o sentido de humor que encontramos nos seus dramas provam que a realizadora se encontra numa liga muito própria. Mesmo o seu filme de conclusão da faculdade, Der Wald vor lauter Bäumen, que foi filmado com uma câmara de vídeo e que é um estudo do crescente desespero de uma jovem professora, mostra já uma realização de mestre. Der Wald vor lauter Bäumen conta a história de Melanie Pröschle, uma professora recém-licenciada que tem um forte sotaque suábio. A professora quer deixar a sua marca na escola, trazer algo de novo, mas acaba por falhar de forma desajeitadamente enternecedora – tanto na sala de aula como na vida privada. Com Melanie Pröschle, Maren Ade – ela própria filha de um professor do estado de Baden – conseguiu criar uma personagem distinta e inconfundível.
 

No filme Alle Anderen, um jovem casal de férias na Sardenha vê-se no meio de uma guerra psicológica de desejos implícitos e receio de mudanças sociais. Em Toni Erdmann, Ade conta a história de uma tortuosa relação entre pai e filha. O pai, fruto da geração de protesto de 1968, vai visitar a filha, uma fria mulher de negócios, e acaba por sabotar a sua vida com a ajuda de partidas e brincadeiras infantis – almofadas ruidosas, dentaduras falsas, etc... Mas, curiosamente, e de forma algo absurda, estas brincadeiras acabam por libertar a filha da “prisão” em que se encontrava. A subtileza com que as personagens foram criadas eleva Toni Erdmann e torna a comédia plausível.

Realizadora. Produtora. Mãe

Ao contrário das personagens que cria para os seus filmes, que estão constantemente a tentar vingar na vida, o caminho escolhido por Maren Ade não apresentou grandes curvas. Nasceu em Karlsruhe em 1976 e recebeu a sua primeira câmara de filmar aos 14 anos, começando por fazer pequenos filmes com os amigos. Mais tarde, fez um estágio numa produtora, passou algum tempo em cinemas de autor – "independente americanos, não Godard", como explica – e, em 1998, candidatou-se à Escola de Cinema de Munique, para estudar realização, conseguindo entrar à primeira. Durante o curso fundou, com um colega, a produtora Komplizen Film, com a qual não só conseguiu lançar os seus próprios projectos, mas também os de outros realizadores da Escola de Berlim, como Valeska Grisebach, Vanessa Jopp e Benjamin Heisenberg. Ade, que tem dois filhos com o realizador Ulrich Köhler (Schlafkrankheit), é uma mulher de negócios que tenta conciliar um trabalho exigente com a vida familiar. O segundo filho de Ade nasceu durante a pós-produção de Toni Erdmann. Enquanto chefe de si mesma, Ade está realmente numa boa posição para criar e adaptar as suas condições de trabalho. Ainda assim, "a principal tarefa de rodar um filme é extremamente extenuante", e é por isso que apenas faz um filme a cada sete anos. "De dois em dois anos não funcionava para mim".

As personagens acima de tudo

Mas há outras razões que explicam por que os seus filmes têm um processo de amadurecimento tão longo. Para criar a personagem de Ines, a protagonista de Toni Erdmann, Maren Ade baseou-se numa consultora sua conhecida. E, para além disso, Ade revê-se também na perfeccionista Ines. "Na realização, é preciso colocar a fasquia alta. Muito alta". Esta realizadora de filmes de autor trabalha geralmente com atores de teatro consagrados, pois apenas atores que têm experiência de ensaios de teatro conseguem estar sempre "no momento", algo que considera essencial. "As personagens cativam-me - quando escrevo as cenas, trabalho muito com o subtexto, com os desejos e os sonhos das personagens."
 

É a crueza dos diálogos, em particular, que se torna mais incisiva. A realizadora é conhecida por implementar de forma fiel os seus guiões, palavra por palavra, repetindo cenas até 40 vezes. "Adoro brincar com todas as variáveis, ir mexendo com a composição dramática." Devido à sua abordagem incisivamente psicológica consegue evitar cair em lugares comuns. "É como como um monstro – quanto mais contacto temos com ele, menos assustador se torna."

Rir com um nó na garganta

Embora os seus filmes anteriores sejam permeados por um humor absurdo, classificar Toni Erdmann como comédia foi um risco: esta disciplina suprema requer uma grande precisão e um timing de comédia exato. Mas, neste caso, o risco compensou, em grande parte devido à precisão e à experiência de Maren Ade enquanto realizadora. O segredo desta sua astutamente criada comédia é a "vergonha alheia": termos vergonha do comportamento embaraçoso dos outros, obrigando-nos a rir com um nó na garganta – algo que, em Toni Erdmann, se reflete em emoção. 
 

Os críticos franceses, em particular, elogiaram entusiasticamente estes momentos burlescos, pouco comuns em filmes alemães. Elogiaram um filme tão intelectual como comum, chamando-o de "pérola" e de "pílula eufórica". Toni Erdmann foi escolhido para representar o cinema alemão nos Óscares 2017 na categoria de Melhor Filme de Língua Estrangeira. Mais uma vez, depositam-se em Maren Ade muitas esperanças. Mas, mais uma vez, a realizadora não quer que a apressem: "Por agora não tenho mais a dizer", afirma, preferindo "ter tempo para pensar" sobre o seu próximo filme.